Saúde Vacina anti-Covid tem efeito mais longo em quem é fisicamente ativo

Vacina anti-Covid tem efeito mais longo em quem é fisicamente ativo

Estudo do HC da USP mostra que seis meses após vacinação pessoas não sedentárias têm mais anticorpos que sedentários 

  • Saúde | Carla Canteras, do R7

30 minutos de atividades físicas cinco dias da semana são suficientes para tornar-se ativo

30 minutos de atividades físicas cinco dias da semana são suficientes para tornar-se ativo

DIEGO AZUBEL/EFE/EPA

Não tem jeito, quando o assunto é cuidar da saúde mais cedo ou mais tarde chega-se ao tema da importância das atividades físicas para uma vida saudável. Não seria diferente com a Covid-19 e os efeitos das vacinas contra a doença.

Um estudo feito no Hospital das Clínicas, da Faculdade de Medicina da USP, com 748 pacientes, mostrou que a produção de anticorpos após a imunização é maior e o tempo da proteção no organismo é mais longo em pessoas fisicamente ativas.

Bruno Gualano, professor do Departamento de Clínica Médica da FMUSP e especialista em fisiologia do exercício, explica que o ensaio começou em pessoas imunocomprometidas e a resposta foi positiva.

Os pesquisadores estenderam o estudo a um grupo de indivíduos saudáveis. “Conseguimos generalizar as respostas que obtivemos em pessoas imunocomprometidas. Aqueles que tinham o hábito de atividades físicas em comparação aos inativos formavam mais anticorpos contra o Sars-CoV-2”, relata Gualano.

Após seis meses do esquema vacinal completo, com duas doses, a proteção contra a Covid-19 diminui e o ensaio descobriu que as pessoas ativas mantêm por mais tempo índices maiores de proteção. 

“Esse é um dado interessante em especial para as pessoas imunocomprometidas, porque elas sempre respondem mal às vacinas de uma maneira geral”, explica o professor.

O estudo foi feito com a CoronaVac, imunizante produzido no Brasil pelo Instituto Butantan, porém o especialista acredita que a resposta seja igual para as outras vacinas contra a Covid-19.

“O comportamento, a cinética e a resposta da vacinação são parecidos. Acreditamos que se o mesmo estudo for replicado em indivíduos que recebam outro tipo de vacina a chance de o resultado ser igual é grande”, observa Gualano.

“Até porque já sabemos que quem faz atividade física regular responde melhor às vacinas para outras doenças, principalmente os imunocomprometidos. Nesse caso, falo também dos idosos que apresentam queda de imunidade”, acrescenta ele.

O que é fisicamente ativo?

De acordo com a OMS (Organização Mundial de Saúde), o indivíduo fisicamente ativo é aquele que faz pelo menos 150 minutos de atividades por semana, de intensidade moderada ou rigorosa. “Aquela que se conversarmos com quem está ao nosso lado ficamos ofegantes. Isso perfaz 30 minutos de atividade, cinco vezes por semana”, orienta o professor.

Outro achado do estudo mostra que nas pessoas que superam o mínimo indicado pela organização a eficácia do imunizante é ainda maior.

“Se a pessoa faz ainda mais atividade física, por exemplo 350 minutos por semana, o que dá 50 minutos todos os dias, a resposta é ainda maior. É o efeito que chamamos de dose-resposta: quanto mais exercício, melhor a resposta da vacina”, afirma Gualano.

Mudanças causadas pela pandemia

Levando em consideração dados de 2020 da pesquisa Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), divulgados na última segunda-feira (17), a pandemia diminuiu o número de brasileiros ativos, consequentemente, aumentou a quantidade de obesos no país.

“Os dados do Vigitel chamam atenção com as doenças crônicas não transmissíveis, no médio e longo prazo, e a curto prazo com a Covid. Pessoas mais saudáveis respondem melhor às infecções, não é diferente para a Covid. Vivemos com uma bomba-relógio, já que doença crônica é mais fácil prevenir do que pagar o preço do tratamento”, alerta o pesquisador.

Pequenas mudanças fazem a diferença

Para se transformar em um indivíduo ativo, não é necessário entrar em academia, fazer um esporte de alto rendimento ou tomar muito tempo da rotina diária. Pequenas mudanças fazem a diferença.

“É importante ter um estilo de vida mais ativo. Isso envolve evitar carros, evitar ficar muito tempo nas telas [computador, tablets e celulares]. A OMS fala: todas as atividades são contabilizadas,  de deslocamento, de trabalho, lazer, as domésticas”, ensina Bruno.

A mudança de comportamento começa a partir de políticas públicas que ajudem na conscientização das pessoas. “Chego a achar engraçado alguém falar para quem mora em Ermelino Matarazzo [periferia na zona leste de São Paulo] descer um ponto de ônibus antes para fazer atividade física. Mas, de que jeito? Sem segurança, calçada, iluminação. Cabe ao estado fazer chegar o movimento a essa pessoa”, ressalta o professor.

No fim, as formas de prevenção para qualquer doença têm a mesma receita. "Comece de algum lugar, mire no recomendado. Atingiu o mínimo, progrida. A pandemia mais cedo ou mais tarde vai passar, mas a obesidade vai continuar, as doenças crônicas vão continuar. A proteção é sempre a mesma: boa alimentação, não tabagismo, prática regular de atividades físicas, manter um peso saudável”, conclui Bruno Gualano.

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