Pesquisadores identificam mecanismo cerebral que pode bloquear a motivação para tarefas difíceis
Circuito neural avalia custo de ação e dificulta o início de tarefas complexas
Vanity Brasil|Do R7

A dificuldade de iniciar tarefas, mesmo quando a recompensa é clara, tem agora uma explicação biológica mais precisa. Pesquisadores identificaram um mecanismo cerebral que atua como um “freio” da motivação, dificultando o primeiro passo em ações que demandam esforço significativo. Esse fenômeno comum, muitas vezes interpretado como falta de disciplina ou preguiça pessoal, revela uma complexa interação neural por trás da inação.
A sensação de “travamento” diante de uma tarefa difícil, mesmo sabendo o que precisa ser feito e reconhecendo a validade da recompensa, é agora melhor compreendida por meio de um circuito cerebral específico. Esse sistema não se concentra na qualidade ou no valor da recompensa final, mas avalia o custo emocional e físico inerente ao início da atividade, oferecendo uma nova perspectiva sobre a procrastinação.
O estudo aponta para uma conexão específica entre o estriado ventral e o pálido ventral, duas regiões cerebrais profundas associadas à motivação, prazer e tomada de decisão. Essa via neural atua diretamente na regulação do impulso inicial para agir, reduzindo a disposição para começar tarefas percebidas como desconfortáveis, custosas ou estressantes. Em testes com primatas, foi observado que, mesmo diante de uma recompensa maior, a presença de um custo inicial desagradável já ativava esse “freio”, diminuindo a probabilidade de ação.
Quando ativado, esse circuito pode inibir o comportamento, gerando a sensação de bloqueio que impede o primeiro passo em tarefas percebidas como onerosas. Os pesquisadores notaram que o sistema que calcula custos e benefícios funciona de forma independente do sistema que inicia a ação. Isso explica por que aumentar as promessas de recompensas ou estabelecer prazos rígidos nem sempre funciona; se o freio motivacional estiver ativo, a barreira inicial não é removida. Reduzir o custo percebido costuma ser mais eficaz do que tentar aumentar o prêmio.
Essa descoberta tem implicações significativas para a compreensão de condições clínicas como depressão, esquizofrenia e outros transtornos associados à apatia e à perda de iniciativa. Nesses casos, o problema pode não ser a ausência de desejo, mas um bloqueio neurobiológico atuante. Embora intervenções como estimulação cerebral, terapias neuromodulatórias e abordagens farmacológicas estejam sendo consideradas, os pesquisadores enfatizam a cautela, dado que esse circuito também desempenha uma função protetora contra sobrecarga física e emocional excessiva.
Para o cotidiano, o estudo reforça a eficácia de estratégias práticas e simples. Dividir grandes tarefas em etapas menores, minimizar fatores de estresse externos e criar ambientes que permitam pausas e recuperação são abordagens que ajudam a diminuir o custo inicial percebido pelo cérebro. Nesse contexto, o professor Paulo Jubilut, em seu canal do TikTok, aborda estratégias para encontrar motivação em projetos paralisados. A compreensão de que a tendência a evitar tarefas difíceis não é apenas uma questão de força de vontade, mas um reflexo de como o cérebro lida com esforço e proteção, muda a forma como encaramos a procrastinação e abre espaço para estratégias mais realistas e humanas.













