Tecnologia e Ciência 13 de agosto, o dia dedicado para os canhotos do mundo

13 de agosto, o dia dedicado para os canhotos do mundo

Ainda não se sabe o que faz 10% das pessoas serem mais hábeis com a mão esquerda; preconceito pode ter atrasado estudos

Proporção de canhotos é maior entre homens (12%) que entre mulheres (8%)

Proporção de canhotos é maior entre homens (12%) que entre mulheres (8%)

Wikimedia Commons

Barack Obama, Paul McCartney, Ayrton Senna, Bob Dylan, Scarlett Johansson, Lady Gaga, Albert Einstein, Diego Maradona, Ludwig van Beethoven, Machado de Assis e Leonardo da Vinci. Além de serem referências em suas áreas de atuação, essas pessoas têm pouca coisa em comum, a não ser um fator, que se aplica a apenas 10% das pessoas ao longo da história. Todos eles são canhotos.

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Durante muitos séculos, o uso da mão esquerda para tarefas comuns como escrever, manusear talheres ou fazer outros tipos de trabalhos, se constituiu em um tabu para diversas culturas. Quem tinha esse tipo de habilidade era forçado a aprender a usar a direita. Até o início do século 20, era comum o uso da palmatória em escolas para isso.

Hoje, a situação é diferente, mas o mundo ainda está se adaptando. Desde 1992, no dia 13 de agosto, o Dia Internacional do Canhoto é comemorado em todo o planeta, não apenas numa tentativa de ampliar a aceitação, mas também para relembrar os desafios em um mundo que ainda é feito para os 90% de destros da população humana.

A lateralidade do cérebro

"A lateralidade é uma questão muito interessante. Se formos olhar, a preferência de fazer uso da mão direita, existe em boa parte dos hominídios, dos primatas. Também com eles, a grande maioria usa a mão direita, apenas um em cada 10 usa a esquerda", conta o médico e neurocientista Li Li Min, professor do curso de Medicina da Unicamp.

Segundo ele, a ideia que perdurou durante décadas, de que destros usariam com mais intensidade o lado esquerdo do cérebro e os canhotos necessariamente fariam o inverso, já caiu em desuso. Estudos mais recentes mostram que tudo está relacionado com a parte do cérebro que processa a linguagem, e a ativação dela pode ser diferente.

"A nossa parte cognitiva é importante para entender isso. Por exemplo, nos destros a área da linguagem fica no hemisfério esquerdo, enquanto que o canhoto essa área deveria ser no lado direito, seria sempre cruzado. Na realidade, 70% dos canhotos ainda usam o lado esquerdo para isso, assim como 90% dos destros", explica ele.

Na realidade, os cientistas ainda não sabem dizer porque os números são tão diferentes. Até mesmo o fator genético que faz de uma criança canhota ou destra ainda não está claro. Estudos com grandes populações mostram que pais destros têm 10% de ter filhos canhotos. Se um dos pais for canhoto, a chance é de 20% e se ambos forem canhotos, esse número sobe apenas para 25%.

Isso pode indicar que diversos genes agem para determinar essa característica. Também não se sabe porque 12% dos homens são canhotos, nem porque essa proporção cai para 8% entre as mulheres.

"O seu cérebro foi projetado pelo seu código genético para ter uma configuração. Mesmo assim, treinando você consegue ganhar uma aptidão, como os canhotos de antigamente eram obrigados a escrever com a direita. Tem questões de preferência nisso também. Tem gente que escreve espelhado, como Leonardo Da Vinci. O canhoto tem essa capacidade, mas o porquê ainda não está muito claro", reconhece o doutor Li.

Para ele, os preconceitos históricos atrasaram em muitos anos os estudos que já poderiam ter sido feitos sobre essa parcela da população e, além de prejudicar o entendimento e as origens do uso da mão esquerda, prejudicam em certa medida até mesmo a vida cotidiana dessas pessoas.

"A vida dos canhotos é mais difícil até para coisas mais simples. Tesouras, abridores de lata, até o instrumental cirúrgico tem que ser todo voltado para canhotos, e é difícil ter acesso a essas coisas, não há muitos lugares que vendem, a maior parte das coisas é destinada aos destros. Tem a ver com a questão da inclusão também. É também uma questão de aceitar a diversidade humana, em vez de colocar todo mundo dentro da mesma caixa", finaliza o neurocientista.

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