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Aplicativos que prometem entregas supervelozes criam consumidores-monstro e põem vidas em risco

Não devemos valorizar essa corrida contra o tempo por mero capricho de consumidor ou puro marketing de empresa gananciosa

Tecnologia e Ciência|Marco Antonio Araujo, do R7

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Condições de trabalho precárias geram protestos de motoqueiros: para que tanta pressa?
Condições de trabalho precárias geram protestos de motoqueiros: para que tanta pressa?

Fiz uso de um aplicativo (um supermercado virtual) que se compromete a entregar suas compras "em 15 minutos na sua porta". O nome da empresa não importa, mas o marketing dela, sim.

Só percebi que a propaganda era séria demais quando meu pedido chegou (no prazo, a priori, inverossímil — e, convenhamos, desnecessário, fútil, exacerbado). Eram apenas duas sacolinhas de compras... 


Fiquei pensando: isso é uma insanidade. Para que tanta pressa? Eu, qualquer um, posso muito bem esperar 30, 40 minutos por uma entrega que não seja emergencial ou, de fato, urgente. 

Essa "logística" só pode estar criando monstros. Não duvido que algum cliente, “coberto de razão”, reclame com o entregador caso aconteçam alguns minutos de atraso. Ou parta para o desrespeito ou desaforo, algo cada dia mais comum por parte de gente estressada (e muito arrogante).


O motoqueiro que veio até mim nem sequer me esperou chegar à portaria. Eu sempre faço questão de dar uma gorjeta, mesmo que miúda — sei que a categoria ganha pouco por entrega. O rapaz já tinha vazado, certamente para dar conta de outra entrega vertiginosa.

Aquilo me alertou para o aspecto mais grave: esse trabalhador corre risco de vida. A troco de quê? Minutos? Que fetiche é esse por rapidez?


Em 2006, uma rede de fast food, conhecida por suas esfihas, foi autuada pela Justiça por causa de uma promoção menos ambiciosa, mas da mesma natureza: prometia que a entrega seria feita em no máximo 28 minutos. Houvesse um único minuto de atraso, o cliente não precisaria pagar.

O que se constatou, à época, foi o aumento do número de acidentes (inclusive fatais) que envolviam os motociclistas da rede — que, ainda por cima, de forma claramente abusiva, arcavam com o prejuízo em caso de atraso. Um horror.


Não podemos valorizar essa corrida contra o tempo por puro marketing ou mero capricho de consumidor mimado.

Enlouquecemos.

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