Tecnologia e Ciência Das cartas às redes, como foi a evolução da divulgação espacial

Das cartas às redes, como foi a evolução da divulgação espacial

Astrônomo brasileiro conta como recebia material da Nasa na infância e a facilidade de acesso com a evolução da internet

Astrônomo fazia observações a olho nu na década de 80

Astrônomo fazia observações a olho nu na década de 80

EFE/EPA/Peter Komka

Acessar conteúdos relacionados à astronomia, hoje, é algo relativamente fácil para os que se interessam pelo tema, uma vez que diversos blogs, canais, perfis oficiais e amadores em redes sociais e a imprensa tratam de fazer a divulgação destes assuntos diariamente.

Em um passado não muito distante, era bem mais complicado ter contato com este tipo de informação, o que fazia com que as pessoas que tinham interesse por conteúdos astronômicos precisassem recorrer a outros meios para se manter informadas sobre as novidades.

“Por volta de 1982, eu comecei a me interessar por astronomia, procuravas pelos conteúdos por meio do recurso que tinha na época, que eram as enciclopédias, uma vez que não existia computador em casa, muito menos em internet”, destaca Cássio Barbosa, astrofísico do Centro Universitário FEI.

O especialista conta que ficava fascinado ao ver as fotos, todas em preto e branco, que estavam expostas nos livros do seu pai, que era professor. De vez em quando, também era possível ver programas na televisão sobre o espaço, como "Cosmos: Uma Viagem Pessoal", que era apresentado pelo astrônomo Carl Sagan e sua esposa Ann Druyan.

Outro dos programas favoritos de Cássio era O Céu do Brasil, produzido pelo astrônomo brasileiro Ronaldo Rogério de Freitas Mourão e apresentado pelo locutor e jornalista Eliakim Araújo na Rádio MEC.

Primeiras observações e contato com a Nasa

O astrofísico começou a fazer observações por volta de 1986, juntando seu interesse pela astronomia com a facilidade de fazer isso em Brasília, sua cidade natal, onde o céu é reconhecidamente bom para esse tipo de atividade. Sem nem ter um telescópio, Cássio observava os astros a olho nu.

“Uma das observações que mais me lembro e tenho carinho foi feita em 1986, quando eu e mais dois colegas varamos a noite para ver a chuva de meteoros Eta Aquáridas. Essa foi uma das primeiras observações científicas que a gente fez, porque não ficamos apenas olhando e apreciando, a gente ficou contando esses meteoros e vendo a direção deles”, ressalta.

Cássio se reunia com os amigos para ver chuva de meteoros em Brasília

Cássio se reunia com os amigos para ver chuva de meteoros em Brasília

Freepik

Cássio e seus amigos posteriormente analisaram todos os dados coletados e enviaram para a Revista Latino-Americana de Educação em Astronomia, que publicou as informações em um boletim.

Outro fato interessante nesses primeiros contatos do especialista com a astronomia ocorreu quando ele decidiu solicitar algumas informações sobre o tema diretamente para a Nasa.

“Eu fiz isso uma vez, em 1985. Na época estava fascinado com ônibus espaciais, então peguei o dicionário de inglês para traduzir ao pé da letra o pedido e mesmo com a tradução ficando muito ruim, mandei. Depois de alguns meses eles me mandaram materiais bem interessantes sobre os ônibus espaciais com textos, fotos e folders", relata.

Leia mais: Chuva de meteoros pode trazer algum perigo para a Terra?

O astrofísico conta que percebeu que tinha superado o limite de conhecimento do seu pai e das enciclopédias quando começou a fazer perguntas que nenhuma das duas fontes conseguia responder, devido à profundidade dos assuntos.

“Eu tive de passar a procurar por conteúdos mais especializados, como a coleção de livros produzidos por Ronaldo de Freitas Mourão. Com o tempo a literatura sobre o tema foi melhorando, com astrônomos amadores e aposentados fazendo cada vez mais publicações”, destaca.

Acesso aos conteúdos por meio da internet

Nos dias atuais, o especialista entende que o advento da internet foi essencial para que os conteúdos fossem distribuídos de maneira mais democrática, fazendo com que mais pessoas se interessassem pela astronomia.

"Eu vejo um crescimento grande de podcasts, mobilizações no instagram e no YouTube com transmissões ao vivo e até mesmo no TikTok, com pessoas do Observatório Nacional e de institutos tecnológicos investindo nesta rede social”, destaca.

O astrofísico ressalta também a importância dos blogs como espaço para a publicação de conteúdos específicos que podem gerar notícias e discussões posteriormente.

O ponto negativo, segundo Cássio, são as pessoas que utilizam as informações disponíveis para produzir conteúdos sobre astronomia sem responsabilidade.

“Algumas pessoas acham que, apenas pelo fato de terem acesso a conteúdos da Nasa, por exemplo, são astrônomas ou profissionais da área e acabam transmitindo informações sensacionalistas e até erradas para ganhar likes e incritos”, afirma Cássio.

*Estagiário do R7 sob supervisão de Fábio Fleury

Últimas