Tecnologia e Ciência "Pode acabar com a vida de alguém": mãe revela preocupação com o uso do Secret entre adolescentes

"Pode acabar com a vida de alguém": mãe revela preocupação com o uso do Secret entre adolescentes

Casos de bullying, fotos íntimas e agressões aumentam e abrem debate sobre o aplicativo

"Pode acabar com a vida de alguém": mãe revela preocupação com o uso do Secret entre adolescentes

Reprodução

O que era para ser uma rede social usada para dividir confidências e aflições se transformou em uma grande dor de cabeça tanto para pais e mães quanto para os adolescentes que a utilizam. O Secret, aplicativo lançado em maio no Brasil, se desvirtuou de sua função original logo nos primeiros meses de existência, e agora deixa famílias preocupadas com a exposição e a violência que seus filhos possam vir a sofrer na internet.

Movida pela curiosidade, a gerente de conteúdo Vanessa, 36 anos, baixou o app assim que sua chegada ao país foi anunciada, e confessa que não levava muita fé no futuro do Secret. Acabou se surpreendendo não só com o sucesso da plataforma, mas também com o que viu escrito por lá.

— O que mais me incomodou nas mensagens com bullying que não param de chegar é a crueldade, a raiva, o desprezo, e não só na postagem em si, mas nos comentários de diversos colegas abaixo de cada post, comentários igualmente cheios de raiva e desprezo. Os adolescentes estão acabando uns com os outros.

Vanessa é mãe de T.*, um garoto de 15 anos que também participa do aplicativo. Tanto ela quanto ele relatam comportamentos assustadores de usuários do Secret. Segundo eles, são postados segredos cruéis e fotos “nada lisonjeiras”.

— Eles falam horrores do colega como se não houvesse amanhã ou consequências. Acho que não sabem o mal que fazem. Ainda que não sejam descobertos, podem acabar com a vida de alguém, causar depressão, levar ao suicídio. As mais chocantes são as fotos que as meninas devem ter mandado a ex-namorados. Elas aparecem com pouca roupa e, em cima das fotos, as piores ofensas, condenando as meninas. É bem machista, porque, em geral, são as meninas que são "detonadas".

A mãe conta que T. ficou sensibilizado ao ver duas amigas pessoais sendo atacadas no aplicativo, e depois ao se deparar com outros adolescentes da rede de amigos da família sendo ridicularizados nas postagens. Ele conta que, antes disso, embora nunca tenha publicado nada no Secret, gostava de participar da rede lendo os comentários.

— Achava legal que as pessoas davam força uma para as outras quando só se compartilhava segredos de verdade. Agora, isso quase acabou. É triste. Eles entraram numa rede que estava sendo muito boa para conversar sobre seus segredos e estragaram a brincadeira. Quando só tinha gente mais velhas no Secret, ele era mais amigável. Atualmente, com tanta gente de escola, não é mais legal.

T. revela estar com medo de ser exposto.

— As pessoas pensam coisas sobre você, e agora elas podem falar o que pensam para todo mundo em anonimato. Você nem pode se defender.

O aplicativo virou assunto também entre os amigos de Vanessa, que compartilham, no geral, de dois temores comuns: o de que o filho sofra bullying, mas também de que ele pratique a violência.  

— Uma mãe amiga minha, cuja filha está longe em um intercâmbio, ligou para ela pedindo que não usasse o app, já que, se ela achar algo ruim, está muito longe da família para ser confortada. Você não quer que seu filho agrida ninguém e tampouco quer vê-lo agredido.

Ainda assim, Vanessa não acha que a responsabilidade pelo desvirtuamento do Secret seja do aplicativo em si, ou que ele deveria ser banido entre o público mais novo. Para ela, os jovens podem ser “perversos” em todas as redes sociais, e acabar com elas não seria a solução.

Vanessa diz que, por circular muita informação sem qualquer tipo de filtro, a internet toda poderia ser vista como algo inadequado aos adolescentes, mas que “não tem cabimento” se pensar em proibição em um momento como este, quando um problema do tamanho do Secret surge.

— O aplicativo não é o vilão da história, e não acredito que acabar com o app seja a solução para um problema que é muito maior. Os jovens são nativos digitais. Usam a internet mais que a gente, sabem mais que a gente. É adequado para adolescentes? Não. Adianta tirar do ar por isso? Não. A internet está repleta de oportunidades para eles se expressarem de forma cruel e anônima.

Ela sugere, em contrapartida, que os responsáveis pelo aplicativo assumam a responsabilidade de banir usuários que pratiquem bullying, além de retirar do ar todo o material que sofra denúncia. Isso porque, em cada um dos posts, há a alternativa de, clicando em um botão, enviar um relatório de abuso aos criadores do aplicativo.

Além disso, Vanessa acredita que o ideal seja usar a questão do Secret para abrir um debate a respeito de como os adolescentes fazem uso da internet, falando sobre educação — tarefa dos pais, na opinião dela — e responsabilidade.

— A forma como os adolescentes se tratam na internet pode destruir a autoestima de qualquer um, algo já tão frágil nessa idade. Temos que ensiná-los a ser mais humanos com os colegas, se tratar com mais respeito. Que tipo de adultos estamos formando? Falar das consequências, falar do mal que causam. Educar é complicado, é o caminho mais longo, mas é o que vai durar. É o que vai garantir que amanhã não vai acontecer de novo, em outro app, em outra plataforma. Porque, enquanto não os conscientizarmos, vai, sim, acontecer de novo.

* As identidades dos personagens foram trocadas para preservar sua privacidade