Logo R7.com
RecordPlus
Tecnologia e Ciência

Relação entre Bitcoin e sites criminosos coloca a Deep Web em evidência

Documentário expõe como a moeda e o comércio ilegal podem causar uma "perturbação mundial"

Tecnologia e Ciência|Do R7

  • Google News
Bitcoin e sua relação com o crime é tema de documentário
Bitcoin e sua relação com o crime é tema de documentário

Em poucos meses, o mundo começou a ouvir falar com mais frequência sobre a existência de um mercado de drogas e armas na internet chamado Silk Road. Ao mesmo tempo, se familiarizou com o nome da moeda criptografada usada nesse comércio, o Bitcoin. Investigar a origem de cada um resultaria em uma terceira descoberta: a Deep Web (ou internet profunda).

O ator e diretor britânico Alex Winter já havia feito um documentário sobre o Napster (chamado Downloaded), outro elemento virtual que incomodou as autoridades ao permitir a troca gratuita de músicas pela rede. Agora, Winter prepara o lançamento de um documentário sobre a razão dos incômodos mais recentes, intitulado Deep Web: The Untold Story of Bitcoin and The Silk Road ("A história não contada do Bitcoin e do Silk Road", em tradução livre), ainda sem data para lançamento.


Programa facilita compra de drogas e até negociação com matador de aluguel

Para Winter, a moeda virtual, sozinha, "tem potencial de criar um grau de perturbação global que fará o Napster parecer brincadeira de criança".


— Estou interessado nas implicações de uma vasta rede como a Deep Web na cultura global. Para mim, falta contextualização e compreensão sobre as novas tecnologias.

Winter vê uma revolução no conjunto que dá título ao seu filme. Em comum, está a falta de controle. O Bitcoin dispensa um banco central e não é regulamentado por nenhum governo. Mercados de itens ilegais, como o Silk Road, funcionavam sem que nenhuma autoridade pudesse fazer algo a respeito. Na Deep Web, navega-se sob anonimato e, por isso mesmo, é difícil se ter algum controle sobre o que acontece nesse subterrâneo da internet, onde buscadores como o Google são completamente inúteis. Para Winter, é isso que torna esse universo tão interessante.


— Como qualquer comunidade, ali acontecem coisas boas e más, depende do uso que se faz dela. O que desespera as autoridades é justamente não ter controle sobre isso.

Crime imperfeito


A ferramenta usada para se navegar anonimamente é o Tor, criado pela Marinha americana e mantido por uma organização sem fins lucrativos (Tor Project) desde 2006. O Tor se utiliza do navegador da Mozilla, o Firefox. Como todo software, o Tor tem falhas. Uma delas foi explorada pela polícia federal americana para prender o suposto chefe do Silk Road, Ross Ulbricht, de 29 anos, em San Francisco, há dois meses.

Para o italiano especialista em cibersegurança Pierluigi Paganini, o pleno anonimato na web é "utopia".

— Além de os governos controlarem as redes, é bem fácil rastrear as atividades de um usuário online. É certo que os mais experientes podem adotar uma série de medidas para limitar sua exposição, mas receio que (com a exposição trazida pelo caso da Silk Road) isso se tornará uma tarefa cada vez mais difícil.

Embora o Silk Road, que pelos cálculos do FBI já fez circular 9,5 milhões de bitcoins (na época, o equivalente a US$ 1,2 bilhões em vendas), tenha sido fechado, a única coisa certa é que o comércio ilegal realizado sob o anonimato da rede não está nem perto de acabar.

— O Silk Road é só a ponta do iceberg. Fechá-lo só gerou a migração da comunidade envolvida para outros mercados. A luta contra o cibercrime está apenas começando.

O italiano é autor dos livros The Deep Dark Web e Digital Virtual Currency and Bitcoin.

Outro lado

O controle e a possibilidade de uma regulamentação opressiva cair sobre o Tor também preocupa. Além das atividades ilícitas, a ferramenta é muito utilizada por jornalistas, ativistas e cidadãos que vivem sob governos não democráticos, onde a internet é censurada e o direito à livre expressão e o acesso à informação são bastante restritos.

Para Francisco Brito Cruz, pesquisador do Núcleo de Direito, Internet e Sociedade da Faculdade de Direito da USP, essa dualidade é o que torna o Tor um dos pontos-chave na disputa pela regulação da internet de modo geral, discutida em propostas como o Marco Civil. O Núcleo abriu inclusive uma linha de pesquisa focada na "controvérsia jurídica criada por mecanismos de navegação anônima".

— Precisamos perceber o anonimato como uma ferramenta de defesa da nossa privacidade. Nunca foi razoável um governo poder meter o bedelho em quais livros estamos lendo. Por que não seria razoável criar uma ferramenta para impedir que bisbilhoteiros fiquem olhando quais sites acessamos?

O pesquisador acredita que, para o usuário comum, conhecer o Tor hoje "é tão importante quanto conhecer o Whatsapp, o SnapChat ou o Instagram". A falta de controle do Estado, nesse sentido, não é a parte ruim da história.

— O que é preocupante é o que pode estar em jogo caso determinados tipos de controle sejam estabelecidos. Se forem implementados sem debate e reflexão com a sociedade, estes controles de uso da rede podem facilmente se tornar instrumentos de violação de direitos fundamentais.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.