Ao viajar o País, Eduardo Cunha quer consolidar candidatura à presidência, dizem especialistas
Com projeto itinerante, presidente da Câmara vende suas ideias políticas pelas capitais
Brasil|Carolina Martins, do R7, em Brasília

Viajar todo o País para colocar em discussão os temas em debate no Legislativo e aproximar a população da Câmara dos Deputados. É esse o objetivo central do projeto Câmara Itinerante, que tem como líder o presidente da Casa, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Mas, para cientistas políticos ouvidos pelo R7, a iniciativa é um projeto pessoal de Cunha que quer se promover e construir o caminho da candidatura à presidência da República em 2018.
Desde março o deputado percorre as capitais dos Estados brasileiros, promovendo debates nas Assembleias Legislativas das cidades, com a participação de deputados federais, estaduais e vereadores.
Em pouco mais de um mês, seis cidades foram visitadas: Curitiba (PR), São Paulo (SP), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Natal (RN) e João Pessoa (PB).
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Para o professor de Ciência Política da FGV/SP (Fundação Getúlio Vargas de São Paulo) Francisco Fonseca, a intenção de Cunha é se tornar conhecido, ganhar visibilidade e se consolidar como candidato à presidência pelo PMDB na próxima eleição presidencial.
O especialista afirma que a ideia de aproximar a Câmara dos Deputados da população é interessante, mas avalia que não é isso que tem sido feito por Eduardo Cunha.
— Dar uma palestra em uma assembleia legislativa, como ele tem feito, não tem significado nenhum. Acho bastante pobre. É muito mais uma tentativa de legitimar as pautas hiperconservadoras que ele vem colocando do que escutar o cidadão. É um projeto de promoção pessoal, para se promover, porque ele é candidato à presidência da República, sem dúvida.
O cientista político da UnB (Universidade de Brasília) Antonio Flávio Testa também acredita que a presidência da República pode estar nos planos de Eduardo Cunha, mas pondera que ainda é cedo para analisar.
De acordo com o professor, além de se tornar conhecido no País, Cunha vai precisar eleger muitos aliados nas eleições municipais de 2016 para conseguir se candidatar.
— Se ele conseguir eleger, com seus aliados, muitos prefeitos no ano que vem e ter uma base que dê a ele suporte político, ele pode se lançar candidato. Ele quer se tornar conhecido como líder político para eventualmente se candidatar ao governo do Rio de Janeiro, ou ser postulante a presidente pelo PMDB - o que é muito mais difícil, mas não é impossível.
Vaias e protestos
Em quase todas as viagens, Cunha enfrentou protestos contra seu posicionamento político, que é considerado conservador.
Na última edição da Câmara Itinerante, realizada em Cuiabá, manifestantes tentaram ocupar as galerias da Assembleia como cartazes contra a homofobia e a terceirização. Como os cidadãos foram proibidos de entrar na Casa, o movimento LGBT organizou um beijaço em frente aos policiais que faziam o bloqueio dos manifestantes.
Em João Pessoa, Eduardo Cunha foi vaiado e o protesto acabou em confusão depois que os seguranças tentaram conter os manifestantes. Com o confronto, o presidente da Câmara foi impedido de discursar e acabou antecipando sua saída da Assembleia Legislativa.
Por meio do Twitter, o deputado afirmou que o protesto foi orquestrado pelo Partido dos Trabalhadores.
— Lamentável as agressões promovidas pelo PT na Paraíba. Um militante da juventude do PMDB foi covardemente agredido na Assembleia da Paraíba por militantes do PT.
Vaias e beijaço gay também foram registrados durante as visitas de Eduardo Cunha a São Paulo e ao Rio Grande do Sul, ainda que, neste último Estado, fora do projeto Câmara itinerante.
O professor da FGV acredita que essa rejeição à Eduardo Cunha é ruim para os planos dele de disputar a presidência da República. De acordo com o especialista, os protestos mostram que o brasileiro não aceita mais o jeito de fazer política defendido pelo presidente da Câmara.
— Não está funcionando [a estratégia de popularização]. Daqui a pouco ele vai ter que entrar e sair dos lugares pelos fundos, porque ele tem sido vaiado, está surgindo um movimento contrário a ele. Este modelo de truculência, de votar sem discutir, não é assim. A sociedade brasileira é muito mais complexa.
No entanto, o cientista político da UnB avalia que as vaias são bastante positivas para Cunha, já que o objetivo do deputado é ganhar visibilidade. Na análise do professor Testa, a repercussão negativa no público gay, por exemplo, ajuda a aumentar a aprovação de Cunha entre eleitores que também são contra projetos para as minorias.
— É excelente porque ele fica na mídia o tempo todo. Para ele é muito bom, começa a ter visibilidade, e na medida em que a coisa vai se consolidando, ele pode lançar suas ideias e conquistar o seu público. Ele tem que se cacifar nesses dois anos [de mandato como presidente da Câmara] e tem sido um personagem polêmico, o que dá notoriedade.
Viagens em aviões da FAB
De acordo com a assessoria da presidência da Câmara, as viagens de Eduardo Cunha são feitas com avião fretado da FAB (Força Aérea Brasileira). Quando há vagas, os parlamentares que o acompanham vão junto na aeronave.
Apesar de Cunha ter direito de usar a cota parlamentar para pagar as despesas com alimentação e transporte nas cidades para onde viaja, a presidência informou que o deputado não usou nenhuma até agora.
Os deputados e senadores que acompanham Eduardo Cunha viajam por conta da Câmara, em voos comerciais, pagos pela cota parlamentar. Os funcionários que acompanham a caravana, como seguranças, jornalistas e integrantes da equipe de cerimonial, também têm as despesas pagas pela Câmara dos Deputados.
A próxima parada da Câmara Itinerante será em Florianópolis (SC), no dia 8 de maio. O objetivo do projeto é percorrer todas as capitais do País.















