Cabo Anselmo confirma encontro com atleta cubana antes de ser preso: 'Entreguei um chaveiro a ela'
Leia a segunda parte da entrevista com Cabo Anselmo, o mais conhecido espião da ditadura
Brasil|Alvaro Magalhães, do R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante entrevista ao R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante entrevista ao R7
A segunda prisão de José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, em junho de 1971, é um episódio controverso. Após sua fuga do Alto da Boa Vista, em 1966, Anselmo encontrou-se com Leonel Brizola (que do exílio tentava organizar a resistência contra os militares) e foi, então, enviado a Cuba para ter aulas de técnicas de guerrilha. Retornou ao Brasil em 1970, como integrante do grupo guerrilheiro VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Com um bilhete ao comando da organização, chega a encontrar-se, ainda em 1970, com líder Carlos Lamarca. Não há uma versão clara, porém, sobre como, no ano seguinte, a equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury localizou Anselmo em um apartamento da rua Martins Fontes, no centro de São Paulo, e o capturou. Nem o próprio Anselmo consegue explicar. Mas confirma ter-se encontrado, pouco antes de ser detido, com atleta cubana — uma das hipóteses é a de que ele teria sido seguido a partir de então. A imprecisão sobre como o ex-marinheiro foi rastreado foi apontado como mais um indício de que ele já seria um infiltrado desde os anos 1960. Anselmo nega. E conta como foi torturado naquele ano.
Confira a entrevista:
R7 - Um episódio que ainda deixa dúvidas é a sua segunda prisão, em 1971, no apartamento da rua Martins Fontes. O Edgar de Aquino Duarte estava com o senhor naquele momento [detido na mesma data, Edgar dividia o apartamento com Anselmo e está desaparecido até hoje]?
José Anselmo dos Santos – Não. O Edgar estava fora, estava no trabalho dele. Ele nem sempre estava ali, dormia em outro lugar. Aquele apartamento, ele alugou mais para me guardar. Mas ele passava lá quase toda tarde, quando saía do trabalho.
R7 - O Edgar estava fora da luta armada na época?
Anselmo – O Edgar estava. Olha, você quer saber uma coisa? Eu me surpreendi também lendo um livro, que baixei recentemente na internet: Todo Leme a Bombordo. Ali existe uma série de coisas sobre aquelas pessoas da associação [dos marinheiros]. Uma delas é que o Edgar teria participado de um grupo de guerrilhas lá no interior do Mato Grosso ou coisa parecida. E quando eu me encontrei com ele, no Uruguai, ele disse que não ia fazer nada. Ou seja: compartimentou a missão dele [a compartimentação era uma técnica usada pela guerrilha para proteger seus integrantes de delações: cada um guardava só para si sua missão]. Mas, quando acabou aquele negócio, ele se estabeleceu aqui em São Paulo e foi viver a vida dele. Estava absolutamente fora. Tenho certeza de que estava absolutamente fora.
R7 - Trabalhava na Bolsa?
Anselmo – Trabalhava na Bolsa de Valores.
R7 - Houve um depoimento recente na Comissão da Verdade de São Paulo [...]
Anselmo – [interrompe] Comissão da mentira. Aliás, comissão da meia verdade, que é a verdade que interessa somente para o lado do pessoal de esquerda. Eu sei que eles querem encobrir todos os erros deles, como o pessoal da direita quer encobrir também. Todos os erros de uma guerra suja que ninguém esclareceu na totalidade.
R7 - Nesse depoimento, uma senhora chamada Maria José Wilhensen, que era próxima do Edgar, afirmou ter ouvido dele uma menção ao episódio do encontro com a seleção de vôlei cubana, no qual o senhor teria entregado à capitã do time um bilhete ou um presente destinado a Fidel Castro. Há uma versão de que o senhor teria sido seguido e preso a partir desse episódio. Esse encontro com a delegação cubana ocorreu? O senhor foi assistir a esse jogo?
Anselmo – Que jogo? Que jogo? A gente tinha ido ver um filme naquele cinema da avenida São João, Cine Espacial. Antigamente existia: era um cinema com três telas e não sei o que lá. Fomos ver um filme ali. Quando saímos do cinema, caminhando a pé para chegar até a Martins Fontes, em frente ao hotel San Raphael, estava aquele monte de gente da delegação cubana. Me deu um saudosismo naquele momento. Aí eu fui lá, eu tinha um chaveirinho que era um chapeuzinho de cangaceiro, e disse: ‘Olha, toma aí para você’. Entreguei para uma atleta. Isso é fato. Mas foi uma coisa assim: pluf-pluf. ‘Oi, tudo bem? Toma aí para você um presente’.
R7 - O presente era para a atleta? Não era para Fidel?
Anselmo – Que para o Fidel!? Aliás, Fidel Castro, eu tive diante dele, a quatro metros de distância, durante horas. Não me aproximei porque... sabe aquele negócio de o espírito não bater? E de ver assim a cara de prepotente. Eu digo: ‘Tem falsidade aí’. Não me aproximei.
R7 - No livro, ao tratar dessa sua segunda prisão, em 1971, o senhor menciona que o Aluízio Palhano Ferreira havia sumido [desaparecido político, Palhano era militante da VPR com quem Anselmo mantinha contato]. O senhor atribuiu a ele a sua captura?
Anselmo – Não. Não atribuo ao Palhano. Quando eles encontraram o endereço, a única pessoa que tinha aquele endereço era o Palhano. Ele era o chefe, o superior meu dentro daquele grupo. Digamos, era o comandante do negócio lá. Comandante de dois ou três. Muito bem. [Edson] Quaresma some [ex-marinheiro, militante da VPR], eu pego no jornal, está lá: morto. Daí eu vou encontrar com o Palhano, o Palhano sumiu. ‘E agora, José?’ A única pessoa que tinha, em código, o meu endereço era ele. O Carlos Alberto [hoje delegado de polícia, o então investigador Carlos Alberto Augusto agente do Dops] conta uma outra história. A história de um cheque que Edgar deu para um camarada para compra de um terreno etc. Eu fico com uma interrogação desse tamanho se foi esse cheque, ou se foi o Palhano, ou se eu já estava sendo seguido sem saber. Essa interrogação é muito grande. A única pessoa que poderia esclarecer, se quisesse, é o Carlos Alberto. Mas a história do Carlos Alberto... eu tenho dúvidas.
R7 - Há quem atribua a morte do Palhano ao senhor.
Anselmo – Ah, não! tsc-tsc-tsc.
R7 - Foi antes?
Anselmo – Foi antes. É só pegar as datas. Se você pegar os documentos, as datas etc., você vai ver. É tranquilo.
R7 - No livro, o senhor narra um encontro com uma pessoa em Ibiúna...
Anselmo – Não, não vou dizer quem é.
R7 - Mas havia uma mulher na sacada que seria do Dops.
Anselmo – É que a pessoa com quem eu me encontrei disse: ‘Você está vendo aquela pessoa na sacada? É uma agente do Dops’.
R7 - Nesse momento, o senhor estava com o Yoshitane Fujimori [militante da VPR morto pela repressão em dezembro de 1970].
Anselmo – Estava.
R7 - E o senhor acredita que foram seguidos a partir desse encontro?
Anselmo – Não. Não fomos porque nós entramos no mato. E no mato é muito mais fácil de observar quem que vem.
R7 - E por que o senhor não quer revelar quem é essa pessoa?
Anselmo – Você vai mexer em feridas...
R7 - Depois da captura, na Martins Fontes, o senhor foi levado ao DOPS e lá sofreu duas sessões de tortura? Ou foram mais?
Anselmo – Exatamente. Eu fui preso de tarde, umas três horas da tarde, por aí. Me botaram numa cela isolada e na madrugada do dia seguinte me levaram para a primeira sessão de porrada.
R7 - Quem que eram os torturadores? Henrique Perrone [policial da equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury no Dops] estava entre eles?
Anselmo – Esse camarada aí era o chefe do negócio. Ele tinha um anel com uma caveira. E tinha outros. Eu não me lembro o nome dessa gente mais, não.
R7 - Nem apelido?
Anselmo – Eu não sei se tinha um Parreirinha. Deixa eu ver... Eu apaguei... Olha, é um troço tão doloroso que eu apaguei. Eu já citei outros nomes em outra ocasião, mas eu apaguei da minha memória esse troço. É um negócio muito ruim de lembrar. Muito constrangedor, é horrível.
R7 - Perrone participou da prisão do senhor?
Anselmo – Eu não sei. Um dos que eu me lembro que participou era chamado de Índio, um camarada com cara de índio, escura. Esse participou.
R7 - Carlos Alberto Augusto participou também?
Anselmo – O Carlos Alberto estava ali também. Estava.
LEIA A TERCEIRA PARTE DA ENTREVISTA: A decisão de mudar de lado e a vida como agente duplo
E leia também:
Parte 1: Marighella, a Revolta dos Marinheiros e a fuga facilitada
Parte 4: A morte de Soledad, a traição de Fleury
Parte 5: Os outros militantes presos ou mortos
Parte 6: A cirurgia plástica e a participação nos atos anti-Dilma
























