Estudo do Ipea que diz que mulher merece ser estuprada tem falha metodológica, dizem especialistas

Amostra do levantamento e perguntas mal formuladas foram os pontos mais criticados

Ivan Martínez, especial para o R7

Pesquisa provocou reação na internet Reprodução/Facebook

A pesquisa de percepção sobre a violência contra a mulher divulgada recentemente pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) gerou grande repercussão ao concluir, por exemplo, que 63% dos brasileiros concordavam com a frase “Mulheres que usam roupas que mostram o corpo merecem ser atacadas”.

Em reação aos resultados do estudo, ganhou força nas redes sociais o movimento Não Mereço ser Estuprada, em que mulheres posam em fotos sem roupa ou seminuas com cartazes de protesto contra a violência sofrida por mulheres no Brasil. Até mesmo celebridades como Valesca Popozuda e Geisy Arruda aderiram à campanha. Mas, segundo especialistas ouvidos pelo R7, o levantamento do Ipea tem uma série de problemas na sua realização e não reflete, necessariamente, o pensamento do brasileiro médio.

Ipea admite erro em pesquisa e diz que 70% discordam que mulher tem culpa por estupro

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Para o economista Adolfo Sachsida, que já trabalhou na realização desse tipo de estudo para o Ipea, o primeiro e mais grave dos problemas é a amostra da pesquisa. O instituto ouviu 3810 pessoas em todo o Brasil, 66,5% dessas, mulheres, 15 pontos percentuais a mais do que a proporção de mulheres na população geral, de acordo com o último censo, realizado em 2010 pelo IBGE.

— Essa amostra não pode ser usada para fazer inferências para a população brasileira porque ela não tem as características da população brasileira. Isso aconteceu com a pesquisa porque foram entrevistadas pessoas que estavam em suas casas em horário comercial.

O economista Marcos Fernandes, da FGV (Fundação Getulio Vargas), questiona também a formulação de boa parte das perguntas da pesquisa. Para ele, o levantamento do Ipea tem valor ao estudar a percepção da violência, mas não tem valor científico. Segundo ele, é um erro aferir a opinião das pessoas usando ditos populares como “a roupa suja deve ser lavada em casa”, afirmação com a qual 89% dos entrevistados concordaram e “em briga de marido e mulher não se mete a colher”, com 82% de aprovação entre os ouvidos pelo Ipea.

— Quando você pergunta se a pessoa concorda que em briga de marido e mulher não se mete a colher, não está sendo específico, é um dito popular. A pessoa dizer sim não significa que não denunciaria se o homem espanca a mulher. Existem problemas na formulação das perguntas que podem enviesar a resposta.

No caso da pergunta que motivou a campanha Não Mereço Ser estuprada, Fernandes afirma que não é possível afirmar que, de fato 65,1% dos entrevistados defendam que mulheres que usam roupas curtas devam ser estupradas. “O termo usado na pergunta, o “atacadas”, também gera margem para outras interpretações.”

Para Sachsida, quando as perguntas foram formuladas de maneira direta e sem ambiguidades, “o brasileiro mostrou que não é tolerante à violência contra a mulher”. Ele ressalta, por exemplo, que 91% dos entrevistados concordam que o homem que bate na esposa deve ir para a cadeia e 89% acreditam que o homem não pode xingar sua mulher. 

A professora Wânia Pasinato, do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo, acredita ser importante o estudo do Ipea, mas ressalta que a metodologia das próximas pesquisas deve ser revista.

— Eu acredito que o questionário, de uma maneira geral, precisa ser revisto. Dependendo de como você enuncia uma questão, você induz uma resposta. Perguntar se uma mulher merece ser atacada não me parece a melhor maneira de fazer isso. Termos que se relacionam com a área de direitos humanos e violência contra a mulher exigem cuidado maior na elaboração.

Para ela, o estudo abre a possibilidade de discutir melhores métodos de se fazer pesquisas sobre a percepção da violência contra a mulher no Brasil.

— O Ipea é um instituto renomado, mas não tem experiência em estudos desse tipo. Eu sugiro que se realize um bom seminário com especialistas da área de políticas públicas e gente que estuda as questões de gênero para discutir os resultados e contribuir para que o instituto possa ser um aliado na luta de enfrentamento da violência contra a mulher. Divulgando números com alarde e deixando um vazio depois, essa pesquisa não contribui.

Erro grave

Nesta sexta-feira (4), o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) admitiu ter errado os dados da pesquisa. De acordo com o instituto, 70% das pessoas discordam total ou parcialmente da afirmação que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A informação divulgada incialmente era de que a maioria dos entrevistados (65,1%) concordava com a frase. Ainda assim, o instituto reafirma que os demais dados da pesquisa são válidos, mesmo sem explicar os problemas de amostragem. "Os demais resultados se mantêm, como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros."

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