Centro acadêmico da faculdade de direito do Mackenzie é dirigido por aluna negra pela 1ª vez

Tamires Sampaio conquistou uma bolsa do ProUni e sempre estudou em escolas públicas 

Tamires é quinta mulher a presidir o diretório estudantil e a primeira pessoa negra  a alcançar o posto
Tamires é quinta mulher a presidir o diretório estudantil e a primeira pessoa negra a alcançar o posto Arquivo pessoal

Tamires Gomes Sampaio, de 20 anos, estudou em escolas públicas dos três meses de vida até o fim do ensino médio. Ela frequentou uma creche desde muito nova porque sua mãe, Rosimary, precisava trabalhar para pagar e terminar a faculdade de psicologia.

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Apesar das dificuldades, hoje ela está no quarto ano do curso de direito na Universidade Presbiteriana Mackenzie, em São Paulo, e acaba de ser nomeada a primeira presidente negra do centro acadêmico de seu curso em 60 anos.

A atuação de Tamires à frente do Centro Acadêmico João Mendes Jr. também representa outros marcos. Ela é quinta mulher a presidir o diretório estudantil, e a primeira pessoa negra de maneira geral a alcançar o posto.

— Para mim isso é algo muito simbólico, porque na minha sala tem três estudantes negros num total de 80 alunos. Algumas salas aqui [no Mackenzie] não têm alunos negros.

Tamires conta que o curso de direito, com mais de 100 docentes, tem poucos professores negros.

— Ainda hoje você quase não vê negros nas salas de aula das universidades. Onde você vê muitos negros aqui na faculdade? Na segurança, fazendo faxina.

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Para a aluna, ser eleita a primeira negra presidente do centro acadêmico vai mostrar que a universidade é lugar para todos.

A vitória da chapa sobre outras duas concorrentes aconteceu no início deste mês, e Tamires tomou posse no último dia 9
A vitória da chapa sobre outras duas concorrentes aconteceu no início deste mês, e Tamires tomou posse no último dia 9 Arquivo Pessoal

— Minha história indica que qualquer um pode ser uma liderança no movimento estudantil, mesmo em uma faculdade de direito que é tradicionalista, elitista e por vezes até conservadora.

Tamires também citou que ela, como outros jovens, já se beneficiou de políticas públicas como o ProUni (Programa Universidade para Todos), que, segundo ela, está mudando o cenário de acesso dos negros ao ensino superior.

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Nos tempos da escola

Durante o último ano do ensino médio, a estudante fez cursinho pré-vestibular. Em 2009, fez provas para tentar ingressar em universidades públicas e também prestou o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio). Não passou nas instituições públicas, mas a nota que obteve no Enem lhe rendeu uma bolsa integral no Mackenzie pelo ProUni. Ela ingressou na universidade com apenas 17 anos de idade.

— Escolhi direito porque sempre gostei muito de humanas e nunca me dei bem com matemática. Além disso, sempre participei dos debates filosóficos e políticos na escola.

Militância universitária

A veia política fez com a presidente do centro acadêmico se aproximasse do movimento estudantil desde o início da faculdade. Em 2013, participou da construção da Frente Perspectiva, grupo estudantil que se propunha a debater o combate às opressões na universidade.

Após a saída de parte dos membros da última gestão do centro acadêmico do curso de direito, que aconteceu no meio deste ano, uma nova eleição foi convocada: “Como já tínhamos o coletivo [Frente Perspectiva], resolvemos disputar as eleições como chapa Catarse, que é um termo utilizado na ciência política como um movimento de transição rumo a uma representação coletiva de fato”.

A vitória da chapa sobre outras duas concorrentes aconteceu no início deste mês, e Tamires tomou posse no último dia 9. O feito lhe rendeu dez dias de férias para se preparar para a nova jornada política num período próximo do fim de sua graduação, de cinco anos.

Futuro

Militante do movimento negro em São Paulo e reconhecendo os problemas raciais e sociais no Brasil, Tamires afirma que a intenção de sua gestão no centro acadêmico é promover debates sobre estes assuntos.

Quanto ao que irá fazer após o término da faculdade, a jovem conta que deseja ser procuradora do Ministério Público Federal e trabalhar nas áreas do direito penal, direitos humanos e segurança pública.

A estudante também pretende lutar contra as desigualdades social e racial. Ao R7 ela disse que irá fazer seu trabalho de conclusão de curso sobre o assassinato de jovens negros nas periferias.