Detenção de brasileiro em Londres mostra que agências de segurança estão acima dos governos
Ao que tudo indica, Obama e Cameron não mandam em seus espiões
Internacional|Fábio Cervone, colunista do R7
Em mais um ato abusivo em nome da vigilância estatal e da segurança da população, os britânicos detiveram o brasileiro David Miranda no aeroporto de Londres, no último domingo (18), por quase nove horas. Mesmo após terem sofrido duras críticas internacionais, as agências de segurança da Grã-Bretanha e dos EUA estão ignorando a crise provocada pelo vazamento de Edward Snowden e parecem estar acima do “bem” e do “mal”, se sobrepondo aos interesses diplomáticos dos governos.
De nada adiantou a comoção internacional em relação à espionagem descontrolada cometida por Washington e Londres, denunciada pelo ex-funcionário da NSA (Agência Nacional de Segurança) Snowden.
Também não surtiram efeito os protestos das nações latino-americanas contra o fechamento do espaço aéreo europeu para o avião do presidente boliviano Evo Morales, em julho deste ano, que supostamente poderia estar dando carona a Snowden, agora procurado pela Justiça norte-americana sob acusação de espionagem.
Até o momento, nenhuma pergunta sobre os métodos abusivos das forças de segurança britânica e dos EUA foi respondida adequadamente pelos respectivos governos. Apesar das notas publicadas recentemente com as desculpas formais da diplomacia destes países, a crise internacional está deflagrada.
O maior problema para os EUA, Grã-Bretanha e para o mundo é que, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 e outros casos de terrorismos envolvendo países ocidentais, os órgãos responsáveis pela segurança de muitas nações ganharam um forte estímulo para elevar suas ações a um status praticamente divino, ignorando as bravatas e tratados de direitos individuais e internacionais.
Assim, a detenção arbitrária de Miranda só reforça a tese de que os verdadeiros donos do mundo contemporâneo não são os indivíduos, nem os Estados ou as grandes cooperações, mas sim as agências de segurança nacional.
Os últimos acontecimentos estão prejudicando as relações dos EUA e da Grã-Bretanha com o resto do mundo — neste caso de Miranda, com o Brasil. Tais abusos destoam de outras iniciativas recentes destes dois gigantes do norte em relação à nação sul-americana.
O Brasil recebeu, recentemente, o vice-presidente americano, Joe Biden, e o secretário de Estado, John Kerry, em duas ocasiões diferentes. E a líder brasileira Dilma Rousseff deverá visitar Washington em outubro deste ano. Além disso, no começo do mês, o próprio embaixador Thomas Shannon fez questão de elogiar as relações bilaterais entre os países.
Embaixador britânico diz que detenção de brasileiro em Londres é uma “questão” da polícia
Os ingleses também estão fazendo de tudo para que os fatos envolvendo sua agência de segurança não atrapalhem a diplomacia do país na região. Mesmo assim, apesar de congressistas e diplomatas britânicos tentarem colocar panos quentes na crise, pouca explicação foi dada pelas autoridades que realmente justifique os recorrentes abusos.
Tudo indica que nem Barack Obama muito menos David Cameron possuem qualquer controle sobre seus funcionários de segurança. Está cada vez mais evidente que respostas e desculpas são importantes. Mas, principalmente, os funcionários das agências de vigilância precisam rever suas condutas, pois, se continuarem com este “vale-tudo”, poderão, no futuro, gerar ainda mais problemas para seus governos.















