Internacional

25/2/2013 às 00h40

O país misógino

O caso de Pistorius mostra que os crimes violentos não se limitam aos pobres

O caso de Pistorius (dir.) e Reeva Steenkamp (esq.) nos diz que a violência brutal contra as mulheres é um problema generalizado na África do Sul WALDO SWIEGERS / AFP

O fato de que a África do Sul é um dos países mais violentos do mundo fora de zonas de conflito tornou-se uma obviedade trágica. E, mesmo com todas as manchetes internacionais, a história do assassinato da modelo Reeva Steenkamp pelo herói olímpico com próteses nas pernas Oscar Pistorius, no dia de São Valentim, é especialmente sul-africana.

A beleza, o charme e o talento de Pistorius, além de sua luta para não viver uma vida marginal como uma pessoa deficiente, o transformaram no sonho de qualquer marqueteiro. E para uma África do Sul fragilizada, o atleta era símbolo da obsessão do país com a superação de obstáculos. A história pessoal de Pistorius nos lembrava da miraculosa passagem do apartheid à liberdade em nosso país. Mas, assim como ocorre com a África do Sul, há muitas verdades desconfortáveis sob a aparente felicidade conjugal de Pistorius e Steenkamp.

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Há quem diga que a pobreza generalizada, um índice de desemprego oficial de mais de 25% e a profunda desigualdade sejam os causadores da violência na África do Sul. Muitos analistas afirmam que essa é a razão pela qual ocorrem menos crimes violentos e sem justificativa em países mais pobres e com níveis de desigualdade menores na região. Segundo o argumento, é a desigualdade na distribuição das riquezas da África do Sul que fomenta a violência no país.

Mas o caso de Pistorius mostra que os crimes violentos não se limitam aos pobres, nem são cometidos apenas por negros pobres contra brancos ricos. O apartheid da África do Sul transformou a violência em uma forma normal de lidar com problemas pessoais e nacionais, além de criar uma nação paranoica e obsessiva com a ameaça da criminalidade, onde quem pode se arma pesadamente e se fecha em comunidades muradas.

No início, a reação da mídia sul-africana à prisão de Pistorius parecia cair nas velhas querelas raciais da África do Sul. Comentários de brancos em sites de jornais indicavam a aceitação generalizada da afirmação feita por Pistorius de que teria confundido a namorada com um intruso, além da fácil identificação com o medo que o levaria a agarrar a arma e atirar contra um criminoso negro que estivesse entrando pela janela do banheiro. Os comentaristas culpavam o governo negro pela "tragédia", em função de sua incapacidade de abordar de forma eficaz a epidemia de crimes no país. A implicação era óbvia: se não fosse pela incompetência do governo em garantir a segurança pública, Steenkamp poderia estar viva.

Enquanto isso, alguns espectadores negros ligavam para o meu programa de rádio para julgar Pistorius apressadamente. Eles me lembravam de que a mídia fala abertamente de acusações contra líderes negros, como o milionário Tokyo Sexwale, acusado de abusar da esposa. O impulso para julgar Pistorius com rigidez é causado em parte pelo desejo de provar que um homem branco – aparentemente gentil e virtuoso – é capaz de errar como um negro.

Contudo, conforme a narrativa se torna mais complexa e surge a possibilidade de um histórico de violência doméstica, sul-africanos brancos e negros são forçados a reagir com mais cuidado e menos pressa à história de Pistorius.

Um longo processo terá início, mas já existem algumas verdades bem aceitas. Pistorius admitiu ter matado Steenkamp, mas continua afirmando que acreditou que estava atirando em um ladrão. A equipe de defesa afirma que a criminalidade é tão grande que Pistorius temia pela própria vida em diversas ocasiões e que tinha boas razões para crer que os sons vindos do banheiro fossem causados por um criminoso. O governo insiste que essa história é incompatível com as evidências periciais encontradas na cena do crime e com os relatos de testemunhas sobre gritos e brigas antes do assassinato.

É possível que a defesa de Pistorius se mantenha no tribunal, mas o contexto geral do caso é assustadoramente familiar para sul-africanos de todas as origens. Revelou-se que Pistorius é obcecado por armas e profundamente paranoico com a criminalidade, é nervoso e já havia atirado em público – em um restaurante –, supostamente por acidente. De acordo com a porta-voz do Serviço Policial da África do Sul, episódios de "natureza doméstica" já haviam sido relatados naquela casa.

A violência contra mulheres e meninas é gigantesca no país. Apenas duas semanas antes do assassinato de Steenkamp, a África do Sul acordou com a notícia da morte de Anene Booysen, de 17 anos, uma menina negra e pobre que havia sido estuprada, estripada e deixada para morrer em uma construção em uma cidade pequena na costa sul do país. Especialistas afirmam que uma mulher é estuprada a cada quatro segundos na África do Sul. Muitas morrem nas mãos de parceiros, irmãos e amigos. O terrível estupro e assassinato de Booysen, uma jovem órfã de 17 anos, foi resumido por algumas pessoas, incluindo o editor de um grande jornal, como a história do que acontece quando a pobreza e a ausência de pais biológicos reduzem as chances de se ter uma vida plena.

Mas o caso de Pistorius nos diz que a violência brutal contra as mulheres é um problema generalizado na África do Sul, que acomete igualmente ricas e pobres, brancas e negras, moradoras de áreas suburbanas ou rurais. Nossa sociedade está envolta em violência. As mulheres não estão seguras nem em barracos, nem em mansões.

Ser deficiente, ou atleticamente dotado, não evitou que Pistorius fosse como muitos outros homens sul-africanos, agressivos e donos de um senso de poder nos relacionamentos com as mulheres.

Essa é a história real. Ao que parece, Pistorius é mais tipicamente sul-africano do que sua excepcional história de vida pode sugerir.

(Eusebius McKaiser é apresentador da Talk Radio 702 e membro do Centro de Ética da Universidade de Witwatersrand, além de autor do livro "A Bantu in My Bathroom: Debating Race, Sexuality and Other Uncomfortable South African Topics".)

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