Policiais surdos trabalham onde ver conta mais que ouvir

230 câmeras de segurança em Oaxaca, no México, são monitoradas por 20 oficiais surdos

A atenção visual intensificada permite que os oficiais surdos vejam os problemas acontecendo na tela mais rapidamente do que outros policiais que podem ouvir e falar
A atenção visual intensificada permite que os oficiais surdos vejam os problemas acontecendo na tela mais rapidamente do que outros policiais que podem ouvir e falar Josh Haner/The New York Times

Quando o policial observou um homem agindo suspeitosamente, caminhando de modo errático e com um olhar estranho, ele imediatamente chamou reforços. Isto é, ele girou sua cadeira aqui no centro de comando da polícia e rapidamente sinalizou para o colega em linguagem de sinais.  

O policial Gerardo, de 32 anos, faz parte de um quadro de 20 policiais surdos que se formaram há alguns meses para ajudar a vigiar este centro turístico. O homem suspeito que ele avistou na câmera de segurança acabou sendo o suspeito principal de um caso de assassinato.  

"Embora não possamos escutar, podemos nos encarregar de qualquer trabalho", Gerardo disse, falando através de um intérprete.  

Mais de 200 câmeras observam a cidade, uma das muitas no México que instalaram tais sistemas de segurança nos últimos anos a fim de combater a criminalidade nas ruas. Mesmo tendo levantado algumas preocupações com a privacidade, os policiais comemoraram a instalação dos sistemas, que darão a eles uma ferramenta a mais para diminuir o tempo de resposta e documentar crimes.  

Os oficiais daqui reconhecem que chegar rapidamente com as unidades ao local do crime é apenas uma parte do problema. As vítimas dos crimes frequentemente decidem não prestar queixa, por falta de fé no sistema judiciário.  

Os turistas desta cidade colonial, famosa pela arte e pela comida, parecem tranquilos com as câmeras de segurança e com o fato de passearem ao lado de avisos de que a área está sendo vigiada.   Embora Oaxaca não seja conhecida por uma alta taxa de criminalidade, os turistas podem ser alvos fáceis para trombadinhas, e os bairros mais de classe operária têm sua cota de tráfico de drogas, ladrões de carros, brigas e crimes violentos.  

O Estado reformulou o centro de comando em 2012, mas achou que ele precisava de uma ajuda extra para monitorar as 230 câmeras, uma tarefa demorada e monótona. Havia outro problema: já que as imagens não tinham som, os oficiais tinham problemas em determinar o que as pessoas estavam falando.  

"Nós não sabíamos fazer leitura labial, então nos ocorreu usar pessoas surdas, já que muitos deles sabem", disse Ignacio Villalobos, o subsecretário de segurança pública daqui.  

Ele disse que a atenção visual intensificada permitiu que os oficiais surdos vissem os problemas acontecendo na tela mais rapidamente do que outros policiais que podem ouvir e falar, mas que estão frequentemente distraídos pelos toques dos telefones, scanners policiais e conversas no centro de operações.  

Villalobos disse que os oficiais surdos — "nossos anjos silenciosos", como ele os chama — já ajudaram a resolver ou deram assistência em vários casos, embora ele tenha se recusado a prover dados específicos, até uma futura avaliação do programa. Ele chamou o caso de assassinato de "o maior sucesso".  

Os oficiais receberam treinamento dos procedimentos policiais, mas não são policiais de patrulha juramentados e não carregam armas.   Seu trabalho está limitado ao centro de comando, mas os supervisores não quiseram seus sobrenomes publicados, devido ao envolvimento deles nos relatos de crimes.  

Poucos deles tinham trabalhos lucrativos antes de virarem combatentes do crime. Os deficientes no México têm altas taxas de desemprego e, frequentemente, são ajudados pela família e pelos amigos.  

Mas o setor privado e algumas fundações estão trabalhando para reverter isso. Entre os programas de maior visibilidade está um no aeroporto internacional na Cidade do México, onde cadeirantes trabalham checando os documentos de identificação nas filas de segurança e respondendo dúvidas de turistas.  

Uma manhã recente mostrou a monotonia que geralmente caracteriza o trabalho da polícia, conforme vários oficiais surdos fixavam seus olhos nas telas que mostravam a natureza rotineira da vida na cidade.  

"Parece uma guerra lá", disse um oficial entusiasmado, conforme os expedidores apanhavam seus rádios e mandavam unidades. Mas os oficiais rapidamente determinaram que era apenas um bando de crianças fazendo baderna.  

Outro policial viu um casal abrindo o que pareciam ser cervejas em seu carro, estacionado no acostamento de uma estrada. Uma unidade de patrulha foi enviada, mas o casal foi liberado para ir embora com uma advertência, depois de esvaziarem as garrafas.   No início, os oficiais veteranos riam das reações embasbacadas dos novatos diante de acidentes de carro e roubos de bolsa rotineiros mas, com o tempo, os novatos estão desenvolvendo uma carcaça mais dura.  

"Nós os desumanizamos um pouco, e eles nos humanizaram", disse Villalobos com uma gargalhada.  

Os oficiais, a maioria recrutada de organizações de serviços sociais, disseram que depois da batalha para conseguir um emprego, o trabalho na polícia era recompensador.  

Uma policial novata, Eunice, de 26 anos, disse que havia sido rejeitada em outros empregos de escritório e lojas, com poucos gerentes dispostos a lhe dar uma chance ou ajustar os cargos de acordo com sua surdez.  

Mas ela achou seu nicho como policial. Recentemente em uma noite, disse ela, a imagem de alguém sendo atropelado por um carro piscou em sua tela, a princípio deixando-a chocada. Mas ela rapidamente se compôs e alertou o expedidor.  

Com um sorriso cheio de orgulho, ela simplesmente disse: "nós somos os olhos deles".

 

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