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Projeto estrangeiro dá dez mil balões aos afegãos

A ideia tem como objetivo "criar uma corrente de momentos de felicidade inesperados" em uma terra devastada pela guerra

Internacional|Do R7

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O projeto que está mudando a paisagem noAfeganistão se chama: "Nós Acreditamos em Balões"
O projeto que está mudando a paisagem noAfeganistão se chama: "Nós Acreditamos em Balões" SERGEY PONOMAREV

Cabul, Afeganistão – Sob vaias corajosas e sorrisos provocativos, voluntários espalhados por Cabul, em 25 de maio, distribuíram 10 mil balões cor-de-rosa como parte de um projeto de arte performático chamado "Nós Acreditamos em Balões".

Com o objetivo de "criar uma corrente de momentos de felicidade inesperados" em uma terra devastada pela guerra, o projeto é fruto do artista nova-iorquino Yazmany Arboleda, que disse ter tido o apoio do Ministério da Cultura e de meia-dúzia de grupos de ajuda humanitária internacionalmente financiados.


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Um voluntário entregou um balão a um vendedor de rua, Sayif Rahman, de 27 anos, e disse: "Esse é pela paz".


"Onde está essa paz?", Rahman perguntou. "Dia e noite enfrentamos ataques em Cabul."

Falando sobre o projeto, Arboleda citou seus críticos que diziam: "É pura besteira, que desperdício de tempo, dinheiro e recursos". Seu último feito famoso foi uma instalação na cidade de Nova York, que algumas pessoas acharam que defendia o assassinato dos então Senadores Barack Obama e Hillary Rodham Clinton, o que o fez ser levado a interrogatório pelo Serviço Secreto. "Eu recebi e-mails dizendo: 'Por que não distribuir comida ou cuidados médicos, ou coisas que sejam, entre aspas, mas significantes, substanciais ou duradouras?'."


Muitas organizações internacionais, públicas e privadas, tentam fazer isso. Mas quando se trata do efêmero, o não tão significativo e puramente bobo "Nós Acreditamos em Balões" tem competição o suficiente. Com mais de 100 bilhões de dólares em ajuda do Ocidente e filantropia privadas aparecendo pelo Afeganistão nos últimos dez anos – e milhares de grupos tentando encontrar maneiras de gastar tudo – não faltam exemplos de esforços, do ridículo ao sublime.

Um esforço, certamente destinado a estar na última categoria foi o da Fundação Amanuddin, composta em grade parte de uma escritora francesa, Amandine Roche, e um modelo de Nova York, Cameron Alborzian – que passou de aparições em clipes da Madonna a ter uma consciência ayurvédica, tornando-se um iogue e querendo usar esse dom para ajudar a acabar com a guerra.

"Como parte desse programa, detentos, soldados, policiais, crianças, jovens, pacientes de hospitais psiquiátricos e Talibãs passarão por práticas de yoga e meditação; isso vai promover mais paz", disse Alborzian no site do grupo.

Esse programa foi autofinanciado, mas muitos projetos ímpares têm atraído apoios sérios. Em 2011, Travis Beard, músico australiano, organizou o que ele descreve como o primeiro "show de rock escondido" do mundo, com o objetivo de ensinar os afegãos a "botar pra quebrar". A discrição era essencial; a última vez que uma banda de rock se apresentou em público, no começo de maio, seus membros foram atacados pela polícia, que interpretou seus movimentos como evidência de embriaguez em público.

Bear disse que ele teve apoio financeiro de meia-dúzia de embaixadas, incluindo a dos Estados Unidos. Sua doação – a embaixada dos Estados Unidos não divulgou a quantia – veio do orçamento da diplomacia pública, um fundo discricionário que somava 148 milhões de dólares apenas em 2010-2011, de acordo com um inspetor geral especial da reconstrução afegã. As autoridades dos Estados Unidos não dizem em quanto ele está agora, embora se acredite que tenha diminuído 80 milhõesde dólares no ano passado.

"A uma certa altura, nós estávamos jogando dinheiro em qualquer coisa que tivesse pulso e uma proposta", disse um ex-assessor da embaixada, que concordou em falar sob a condição de anonimato. "Estava fora de controle."

O fundo escreve projetos que vão desde bolsas integrais a torres de celulares. "Diplomacia pública é como nós envolvemos as pessoas pelo mundo. É como explicamos nossos valores", disse o porta-voz da embaixada, David D. Snepp. "Todos esses programas se encaixam para gerar uma estratégia compreensiva de diplomacia pública, que nós achamos que tem tido muito sucesso nos últimos 10 anos, mais ou menos."

Um grupo, Young Women for Change (Mulheres Jovens pela Mudança), dirigido por mulheres afegãs que frequentam universidades nos Estados Unidos e duas amigas daqui, disse ter recebido financiamento da embaixada americana para montar um desfile de moda em fevereiro, descrito como um "projeto de fortalecimento feminino". A plateia era, em grande parte, de estrangeiros e jornalistas.

"Eu acho que nós devíamos gastar o dinheiro americano de maneira mais prática e duradoura", disse Daoud Sultanzoy, comentarista da Tolo TV, uma emissora afegã que já recebeu milhões. "As pessoas vêm aqui com uma ideia e querem fazer isso nesse país, mas eles nos expõem à críticas e até a ataques dos conservadores desse país; e há muitos deles."

Alguns grupos de ajuda que podem soar bizarros têm se dado muito bem. O Skateistan, grupo de ajuda australiano que ensina as crianças afegãs a andar de skate, não parece fazer muito sentido num país onde até os buracos são esburacados. Mesmo assim, o grupo construiu um parque de skate e forneceu aulas e almoços para crianças de rua daqui, atraindo apoio de vários governos europeus.

No auge da onda de gastos, o dinheiro americano subscreveu uma versão afegã de "Vila Sésamo" no final de 2011. No que pode ter sido um marco na história da guerra e diplomacia, o embaixador americano na época, Ryan C. Crocker, foi fotografado com o Cookie Monster no centro de Cabul.

Para o evento dos balões cor-de-rosa, a embaixada americana recusou um pedido de financiamento. O mesmo fez a embaixada holandesa, embora tenha fornecido um espaço para arrecadações. "Outra história no Afeganistão além da militar", disse Vasco Rodrigues. "Nós pensamos que fosse uma ideia original." Ele completou dizendo que os balões eram seguramente biodegradáveis.

O organizador, Arboleda, disse que ele, originalmente, teve que considerar passar os balões pelo Parlamento Afegão, que tem debatido um projeto de lei que pretende proibir a violência contra a mulher, com o sentimento definitivamente contrário ao projeto.

A cor rosa, afinal de contas, foi escolhida por representar a mulher, disse ele. No final, os voluntários não conseguiram achar nenhum membro do Parlamento.

Pode ter sido melhor assim. Alguns membros do Parlamento estavam ficando loucos apenas de ouvir sobre isso. Qazi Nazeer Ahmad Hanafi, representante da cidade de Herat, disse: "Diga àquele estrangeiro que se trouxer 2 milhões dessas coisas para nós, terá que matar a todos nós muçulmanos antes de aprovarmos essa lei."

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