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Sem vagas em abrigos, refugiados sofrem violência policial nas ruas de Paris

Em denúncia, Médicos Sem Fronteiras descreve situação dramática e exige providências

Internacional|Eugenio Goussinsky, do R7

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Refugiados buscam vaga em frente de abrigo lotado em Paris
Refugiados buscam vaga em frente de abrigo lotado em Paris

Os cafés, livrarias, restaurantes, padarias da Boulevard Saint-Germain de Paris continuam lotados. Como em 1862, ano em que foi publicado Os Miseráveis, de Victor Hugo, apontando as contradições entre o glamour parisiense e as mazelas dos excluídos, a França ainda se divide entre seu desejo libertário e a dor daqueles que gritam sem ser ouvidos. Quando conseguem gritar.

Denúncia da ONG MSF (Médicos Sem Fronteiras) local mostra que a crise dos refugiados, afinal, estampa a ineficiência dos governos em superar a miséria que se alastra pela falta de abrigo. E que afeta todos aqueles que necessitam de um pedaço de baguete, nem precisa ser um crepe seguido de crème brulée.


Um dos casos é o de Hassan, paquistanês que chegou a Paris no início de janeiro. E, ao contrário do heroi Jean Valjean, do livro, ele nem é acusado de delito. Mesmo assim, tem sido vítima daqueles que apenas conhecem a frieza das leis e desconhecem o calor da compaixão, como era o policial Javert. Tal qual Javert, o jovem tem sofrido perseguições policiais simplesmente por não ter saída. Voltar para o Paquistão? Plus jamais.

— Se você dorme ao ar livre, a polícia o expulsa, lança gás lacrimogêneo nos seus olhos, eles tentam nos dispersar. Então para onde devemos ir? Não há para onde ir. Está muito frio.


Equipes do MSF atenderam oito pessoas na situação de Hassan. Eles não conseguem vagas nos abrigos, após terem passado por viagens traumáticas e perigosas, deparando-se com o drama de ser um estrangeiro indesejado por parte de uma sociedade que um dia bradou pela igualdade, liberdade e fraternidade.

Sem vagas, em locais como o centro humanitário de La Chapelle, eles também ficam sem direito. Sem direito de não ter vagas, essa é a culpa daqueles que, por ficarem na rua, nas filas, têm seus cobertores confiscados (em um frio de menos de 0º C), fogem de bombas de gás lacrimogêneo e até de agressões.


Como Hassan, Khaled, de 34 anos, sul-sudanês que fugiu da brutalidade de uma guerra civil, encontrou nova barreira, feita de incompreensão. E, diferentemente da arquitetura clássica feita com arte e cuidado, os percursos de sua vida têm sido cimentados pela indiferença. Ninguém percebe que ele está sendo impedido de ir atrás de sonhos mais altos que a Torre Eiffel. E enquanto isso...

— Além do frio, temos de pedir asilo sozinhos, sem ajuda de ninguém. Buscamos ajuda de ONGs porque aqui fora do acampamento, não há apoio ou orientação, não há nada.


Corinne Torré, coordenadora de programas do MSF, fez um apelo neste sentido, exortando as autoridades a tomarem providências urgentes.

— Em pleno inverno, os governos devem ser capazes de fornecer locais de acolhimento a todos os migrantes, com urgência. Em vez disso, as forças de segurança confiscam seus cobertores ou os forçam a ficar nas filas do centro por horas, em uma tentativa fútil de os tirar da vista do público. Essa negação da realidade pela violência deve parar.

Mais de um século e meio depois da lendária obra de Hugo, Paris resolveu a questão social de muitos franceses de origem. Mas o problema ainda persiste: agora são os imigrantes, ou descendentes deles, que sentem o que Jean Valjean sentiu. Seus lábios tremem de frio em busca de abrigos no inverno cortante. E a fome incita delírios de salvação, diante do rio Sena que reluz a linda e gelada tarde, ao som triste de um distante e indiferente acordeon.

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Eles correm, para não perderem seus cobertores. Eles correm, pela própria dignidade. Eles são capazes de atravessar o Jardim de Luxemburgo às pressas, correndo pela própria salvação e contrastando com a imponência do palácio, construído para agradar uma rainha. Então eles param, esbaforidos, rendidos por novos Javerts, buscando explicar em vão que eles precisam comer, que eles sentem frio. Uma baguete, por favor!

Mas a frieza dos que não os escutam é ainda maior. Então seus sonhos descem de lá da Torre Eiffel e se deparam novamente com a crua realidade, que insiste em acompanhá-los. Eles percorreram milhares de quilômetros, atravessaram mares furiosos, em barcos precários. E mesmo assim, tendo chegado a um dos centros do mundo, no palco dos romances de Proust, o drama continua. Eles ainda não têm para onde ir.

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