Média mensal de ônibus queimados em São Paulo quadruplica após manifestações de junho
Coletivos são atacados mesmo quando os protestos não têm relação com transporte público
São Paulo|Ana Ignacio, do R7

O ônibus já se aproximava de seu ponto final na zona leste de São Paulo e o motorista Carlos*, de 31 anos, estava a 15 minutos do fim de seu expediente, iniciado às 13h40 daquela terça-feira, dia 4 de fevereiro. Às 23h45, ao trafegar na avenida Assis Ribeiro, um passageiro fez sinal para descer. Ao parar no ponto, cerca de 15 homens, alguns com o rosto coberto, viraram a esquina correndo e com pedras, pedaços de madeira e facas, ameaçaram Carlos.
— Começaram a quebrar o ônibus, a me ameaçar com faca, dizendo que iam matar. Eu abri a porta e eles tomaram conta do ônibus. Já entraram jogando álcool e colocaram fogo.
Os passageiros, em desespero, gritaram e correram para fora do coletivo. O motorista conta que, por sorte, uma viatura da Polícia Militar estava passando na região e conseguiu deter o grupo.
— A viatura pegou eles e eu consegui rapidamente usar o extintor e apaguei o fogo.
Esse é apenas um dos 50 casos do tipo ocorridos neste ano apenas na capital e na Grande São Paulo. De acordo com dados da SPTrans (São Paulo Transportes) e da EMTU (Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos de São Paulo), a média mensal de ônibus incendiados quadruplicou desde os protestos que tiveram início em junho de 2013 motivados pelo aumento da tarifa do transporte público.
Entre janeiro e maio do ano passado, São Paulo registrou 18 casos de ônibus incendiados (entre municipais e intermunicipais), o que dá uma média de 3,6 coletivos queimados por mês. De junho a janeiro deste ano, foram 111 casos, o que fez a média saltar para 13,8. Vale ressaltar que, nesse balanço, 19 casos (dez em 2013 e nove em janeiro de 2014) são referentes a incêndios ocorridos em Cubatão, São Vicente, Cosmópolis e Sumaré (que não fazem parte da Grande São Paulo).
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Segundo Almir Chiarato, diretor de operações da SPTrans, os ônibus não costumam ser queimados em manifestações contra problemas no transporte público. Neste ano, há registros de casos motivados pela morte de criminosos e moradores da periferia ou mesmo pela falta de água.
— Antes de junho, não tinha caso de ônibus queimado assim. Começou em junho essa depredação. Acho que [queimar ônibus] chama atenção da mídia e qualquer coisa hoje em São Paulo é motivo para se queimar ônibus.
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De acordo com a Polícia Civil, 42 suspeitos de ataques a ônibus já foram identificados, sendo que, destes, 37 foram presos ou apreendidos em flagrante ou em decorrência de investigação policial.
Prejuízos e insegurança
O SPUrbanuss (Sindicato das Empresas de Transporte Coletivo Urbano de Passageiros de São Paulo) estima que o custo de reposição de cada ônibus queimado seja, em média, de R$ 500 mil. O valor acaba sendo arcado pelas próprias empresas que, em geral, não fazem seguro por causa do grande número de veículos nas frotas.
Além do prejuízo financeiro, o sindicato destaca a defasagem que os ataques provocam nas linhas, pois cada substituição leva de quatro a cinco meses para ser feita. Nesse período, há um remanejamento de carros de uma linha para outra, o que também não acontece de maneira imediata.
O cenário de insegurança provoca medo nos operadores e eles, não raro, temem circular com o ônibus nas regiões mais perigosas. Carlos, que é casado e tem três filhos, deixou a linha em que trabalhava quando sofreu o ataque, mas conta que não conseguiu retomar a normalidade de sua rotina.
— Agora estou sempre apavorado. Gostaria de mudar [de profissão]. Saio para trabalhar e minha mulher fica mais apavorada do que eu. Não sabe se eu vou voltar.
Diante disso, o presidente do Sindicato dos Motoristas de São Paulo fez, por meio de nota, um apelo para que as autoridades tomem providências para garantir a integridade dos trabalhadores: “A categoria está reivindicando uma solução, e já se cogita uma grande paralisação de todo o sistema de transporte da capital, para que, enfim, deem a devida atenção à categoria e o problema seja resolvido".
*O entrevistado pediu para não ter o nome completo divulgado















