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Medo no Morumbi: moradores mudam rotina e vivem “toque de recolher”

Bairro de classe alta passa por onda de violência desde o ano passado

São Paulo|Do R7

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Criminosos usam a comunidade de Paraisópolis como rota de fuga
Criminosos usam a comunidade de Paraisópolis como rota de fuga

“A pé eu não ando mais”. A aposentada Julieta Camucé, de 74 anos, não vive mais o bairro que escolheu para morar. Há 16 anos no Morumbi, ela só vê o bairro agora pela janela do carro, do apartamento e dos shoppings. Por causa do medo e da violência que atinge a região desde 2014, foi obrigada a mudar de rotina.

— Estou sempre apavorada. Tive de mudar minha rotina. Não ando a pé pelo bairro e não paro na rua pra sacar dinheiro, só no shopping Jardim Sul e no Morumbi.


O relato de Julieta é semelhante ao de outros moradores do bairro, que fica numa região nobre da zona sul de São Paulo.

“Sem dúvida, esse é o pior momento da segurança aqui”, conta o administrador de empresas Marcos Pereira, de 50 anos, há 13 vivendo na região.


— A gente não vai mais para uma pizzaria de rua que a gente sempre ia. Quase não saímos mais à noite e deixamos até de ir à farmácia. Por causa desse medo, a gente sai e não sabe se volta pra casa.

Marcos já sofreu um sequestro relâmpago no Morumbi, quando fazia compras em um supermercado.


No estacionamento, quando estava pegando sua mochila, dois homens o renderam e saíram com o veículo.

— Foi muito rápido, durou uns cinco minutos. Entreguei meus pertences. Eles viram que eu estava calmo, me liberaram depois e fugiram com meu carro, que eu nunca mais recuperei.


Na escola onde o filho estuda, Marcos conta que o clima entre os pais é de “desespero”.

— Quando tem algum acontecimento e sai na mídia, vem policiamento, tem reforço na segurança. Mas depois esvazia.

A violência tem alterado também a rotina de estabelecimentos comerciais. Uma florista de 42 anos, que prefere não revelar o nome, trabalha na avenida Giovanni Gronchi e já assistiu a um assalto em frente à floricultura.

Ela disse ter se escondido no momento do crime porque o ladrão estava armado.

— Foi num sábado, em plena luz do dia. Fiquei desanimada, com medo.

Quando a floricultura trocou de dono no início do ano, ela disse ao novo patrão que não trabalharia mais até as 20 h. Agora, a floricultura fecha às 18h.

Estatísticas

A violência no bairro voltou a ganhar destaque no início do mês por causa de quatro arrastões que ocorreram num intervalo de duas semanas.

Há dois anos, o Morumbi registra cerca de dez assaltos todos os dias. E o número de estupros aumentou em 2015, com relação a 2014, passando de 12 para 19 entre janeiro e setembro.

Após a série de arrastões, a Secretaria de Segurança Pública reforçou o policiamento da área, com dois pelotões da Rota (Ronda Ostensiva Tobias de Aguiar) e um pelotão da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas).

O policiamento também recebeu reforço de equipes do GOE (Grupo de Operações Especiais) e do Garra (Grupo Armado de Repressão a Roubos e Assaltos).

Segundo a secretaria, a operação levou à prisão de quatro homens e uma mulher, suspeitos de participar de roubos a residências no Butantã e no Morumbi.

Outra aposta da SSP para reduzir a criminalidade é a instalação de uma base fixa da Polícia Militar dentro de Paraisópolis, comunidade pobre vizinha aos prédios e mansões do Morumbi e que é usada como rota de fuga pelos criminosos.

Segundo o coronel reformado José Vicente da Silva Filho, especialista em segurança pública e que foi Secretário Nacional de Segurança Pública em 2002, o reforço policial nas ruas do bairro tem um efeito limitado.

Para ele, a base da PM em Paraisópolis é fundamental e deve atingir o “coração o problema”. A medida, porém, já tinha que estar em funcionamento.

— Paraisópolis, onde tem pelo menos 50 mil habitantes, precisa ter um tratamento como uma cidade de 50 mil habitantes, com uma delegacia, um destacamento da Polícia Militar. Eu imaginava que já tivesse há muito tempo essa base.

O delegado Antonio Sucupira Neto, do 89º Distrito Policial – Portal do Morumbi, diz que há várias razões que explicam a recente onda de violência, como o “momento econômico e o aumento do desemprego”.

Além disso, ele afirma existir até 27 entradas e saídas em Paraisópolis, e que os criminosos “acabam usando a comunidade para se esconderem”.

— Essas comunidades são ocupações não regulares, o que dificulta a circulação de veículos e, consequentemente, a circulação de viaturas.

Sucupira Neto diz ainda que a sua delegacia tem um índice de resolução de crimes perto de 70% e que a segurança na região vai melhorar com a instalação da base da PM em Paraisópolis.

Suspeitos fazem arrastão em rua do Morumbi

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