“Alzheimer é visto hoje como o câncer na década de 80”, diz psicóloga

Em estágio avançado, doença leva a pessoa a perder a própria identidade

Para sempre Alice aborda o dia a dia de quem tem Alzheimer
Para sempre Alice aborda o dia a dia de quem tem Alzheimer Divulgação

Tema do filme Para Sempre Alice, que estreia nos cinemas na próxima quinta-feira (12), e também a suposta doença que acomete o ator Jack Nicholson, conforme informou uma revista americana nessa semana, o “Mal de Alzheimer é visto hoje como o câncer na década de 80”, lamenta a psicóloga Fernanda Gouveia, da ABRAz (Associação Brasileira de Alzheimer).

— Ainda há muito preconceito e tabu em torno dessa doença. As pessoas preferem não falar sobre isso, como acontecia antigamente com o câncer. A diferença entre as duas doenças é que a pessoa com Alzheimer em estágio avançado perde a própria identidade.

O Alzheimer — caracterizado pela perda progressiva das funções mentais — é uma doença degenerativa que afeta 35,6 milhões de pessoas no mundo e cerca de 1,2 milhão de brasileiros. Apesar de evoluir de forma lenta, com o passar dos anos o quadro clínico pode se agravar e o paciente começa a perder a capacidade de falar, andar, engolir, sorrir, planejar e calcular.

Paciente com Alzheimer não precisa saber do diagnóstico, dizem especialistas

No longa-metragem Para sempre Alice, a protagonista, interpretada pela atriz vencedora do Oscar 2015, Julianne Moore, tem 50 anos, é mãe de três filhos e atua como uma renomada professora de linguística que tem sua vida modificada após o diagnóstico de Alzheimer. No início, ela esquece algumas palavras, compromissos e se perde pelas ruas de Manhattan enquanto corre. Com o avanço da doença, ela é obrigada a abandonar o emprego e passa a depender da família.

Lapsos de memória nem sempre são sinais de Alzheimer

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Para o neurologista Rodrigo Schultz, da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), “os primeiros sinais do Alzheimer não devem ser subestimados”.

— Quando o esquecimento passa a interferir significativamente no dia a dia do paciente, é importante procurar o médico. Quanto mais cedo o diagnóstico for feito, melhor pode ser a qualidade de vida.

Entre os principais sintomas estão perda de memória, confusão, desorientação, fala repetitiva, dependência progressiva e dificuldades com atividades do dia a dia. Normalmente, a doença afeta pessoas acima dos 60 anos e após os 65 anos, o risco de desenvolvê-la dobra a cada cinco anos.

Antes da terceira idade, como acontece com Alice no filme, são casos mais raros, adverte Schultz, que também é diretor científico da ABRAz.

— A doença começa décadas antes de os sintomas surgirem e, quando o início é precoce, pode haver uma evolução mais rápida do quadro. No entanto, mais do que o tratamento farmacológico, é fundamental o apoio da família e da equipe multidisciplinar.

Embora sem cura, os remédios disponíveis atualmente no mercado são capazes de “auxiliar no controle dos sintomas cognitivos, comportamentais e funcionais, dando mais autonomia ao paciente”, mas não de impedir a evolução do quadro, explica o neurologista.

— Estamos muito longe da cura. Os medicamentos em estudo que devem ser lançados no futuro vão atuar como acontece no caso do tratamento da Aids.

Enquanto isso, a psicóloga Fernanda lembra que “a população está envelhecendo e a perspectiva é de aumento dos casos de Alzheimer, por isso a importância de chamar a atenção para essa doença”.