Saúde

29/10/2013 às 00h30 (Atualizado em 29/10/2013 às 09h26)

Com transtorno borderline, Monique Evans diz: “sempre me achei horrível”

Especialistas dizem que pacientes com distúrbio têm problema de autoestima e relacionamento

Vanessa Sulina, do R7

Para psicólogo, pacientes com o transtorno podem “ser vistos como estorvos para os parentes e entes queridos” Marcelo Sá Barretto/AgNews

Depois de tentar se matar e ser internada em uma clínica psiquiátrica, Monique Evans recebeu um novo diagnóstico: sofre de transtorno borderline. Pessoas esse distúrbio tem dificuldade de relacionamento, além de sofrerem oscilações de emoções e sentimentos e sensação de vazio, de acordo com especialistas ouvidos pelo R7.

Segundo o psiquiatra e pesquisador do IPq HCFMUSP (Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo) Fernando Fernandes, o paciente borderline pode ser definido como instável “nos relacionamentos, na autoimagem e nos sentimentos, com acentuada impulsividade”.

— Os relacionamentos geralmente são instáveis e intensos, assim como fazem esforços enormes para evitar um abandono real ou imaginário. A impulsividade pode levar a atos muito prejudiciais, como por exemplo, o jogo, sexo inseguro, dirigir irresponsavelmente, comer em excesso.

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Porém, de acordo com Monique Evans, ela não tem problemas em se relacionar, “ao contrário”.  Ela conta que sente que não é “amada por ninguém” e que, por se sentir triste, já tentou se matar várias vezes. Na última, ela foi levada à clínica psiquiátrica no Rio.

— Faço tudo para me relacionar. Sento necessidade de estar com as pessoas. Porém, você acha que não é amado por ninguém e com isso você vive com ciúmes de todas as pessoas. Já tentei me matar várias vezes. Dessa última vez [que foi levada à clínica], estava cansada e me deu a vontade de fazer essa loucura.  Já estava tomando remédios depressivos, agora com o novo diagnóstico, estou tomando calmantes e vou frequentar psiquiatra e também psicólogo duas vezes por semana.

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De acordo com o professor de psicologia da Uespi (Universidade Estadual do Piauí) e especialista em bordeline Eleonardo Rodrigues, os pacientes com o transtorno podem “ser vistos como estorvos para os parentes e entes queridos”, o que provoca um comportamento “supersticioso” com seus próximos.

— Na verdade, esses sujeitos são inteligentes e talentosos, mas tal transtorno os impede de se desenvolverem e os boicota em várias áreas do conhecimento como educação e empregos, ficando aquém de suas potencialidades. Há relatos de sentimento de não pertencimento de um eu, sentem-se vazios, alguns pacientes tem dificuldades de dizer realmente quem são.

Falta de autoestima e tentativa de suicídio

O psicólogo alerta que a maior parte dos pacientes com transtorno bordeline tem atitudes de “automutilação e acentuados comportamentos impulsivo ou suicida”. De 8% a 10% das pessoas que sofrem com esse distúrbio podem cometer suicídio.

— Ou seja, comportamentos em que há risco de morte ou tentativas malsucedidas de suicídio, por exemplo: overdose de medicamentos, dirigir perigosamente ou autoagressões não letais.

Além de confessar que já tentou “se matar várias vezes”, Monique Evans também contou que “se bate”e que não tem autoestima.

— Tenho depressão brava, fobia, machuco meu corpo, bato no meu rosto desde pequena. Quando era pequena, batia com a cabeça no chão. Sempre me achei horrível.

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Uma das curiosidades do distúrbio, de acordo com Rodrigues, é que as mulheres sofrem mais de transtorno bipolar que os homens. A cada três mulheres bipolar, há um homem.

— Alguns estudiosos argumentam que isso pode ser em parte consequência de temperamento, pois mulheres tendem a demonstrarem maior probabilidade de temperamentos intensos e lábeis. Já os homens tendem a ter temperamentos mais agressivos e dominadores.

Transtorno bipolar X Borderline

Por causa da falta de informação, Fernandes explica que é possível confundir o transtorno borderline com transtorno bipolar. Segundo o médico, instabilidade de humor, impulsividade e comportamento suicida são comum a ambos os distúrbios.

— No entanto uma diferença fundamental é que no transtorno de personalidade borderline, assim como em todos transtornos de personalidade, o padrão de comportamento ou de vivência íntima é persistente, generalizado e inflexível, relativamente estável ao longo do tempo. Já no transtorno bipolar, os sintomas têm padrão fásico ou episódico dos sintomas, com períodos depressivos, outros maníacos (com exaltação, irritabilidade ou euforia), podendo haver períodos livres de sintomas.

Tratamento e importância da terapia

O tratamento para o transtorno de personalidade borderline “é essencialmente psicoterápico”, explica Fernades, com o uso de medicamentos. Já o psicólogo explica que a psicoterapia individual ou em grupo são importantes a pessoa compreender suas angústias e contradições do viver.

— Sugerimos estabelecer terapeuticamente esclarecimentos ao cônjuge e demais familiares, bem como ao sujeito em questão, nos manejos de habilidades interpessoais eficazes e no enfrentamento da regulação emocional é de suma importância.

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