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'Ataque a ferrovia me salvou de Auschwitz', diz sobrevivente

Conheça a história de Tom Venetianer, o judeu naturalizado brasileiro que escapou da morte no Holocausto aos 7 anos de idade

Brasil|Márcio Pinho, do R7

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Tom Venetianer, sobrevivente do Holocausto, que veio para o Brasil aos 10 anos de idade
Tom Venetianer, sobrevivente do Holocausto, que veio para o Brasil aos 10 anos de idade Edu Garcia/R7

Aos 7 anos de idade, o menino Tom Venetianer, de família judia, rumava para o campo de concentração de Auschwitz e provavelmente para a morte em novembro de 1944, quando explosões na ferrovia causadas por sabotagens feitas por soldados soviéticos mudaram o curso do trem e da vida dele. Os vagões repletos de gente foram desviados para outra prisão na região da atual República Checa, onde não funcionava um campo de extermínio.

A mesma “sorte” não tiveram 1,3 milhão de pessoas que perderam a vida em Auschwitz, a maioria judeus. O pior campo de concentração nazista e símbolo do Holocausto só foi libertado em 27 de janeiro de 1945, com a derrocada da Alemanha na Segunda Guerra Mundial. Neste domingo, a comunidade judaica faz atos pelo mundo em alusão aos 75 anos da data.


Tom Venetianer, hoje com 82 anos, será um dos participantes das celebrações em São Paulo, onde reconstruiu a vida após chegar da Europa com os pais, em 1948. Presidente da entidade Sherit Hapleitá (Sobreviventes Remanescentes), ele afirma que o ato tem a importância de lembrar o massacre. “Não só para evitar novos genocídios, mas também para combater movimentos de negação”, diz. 

Em seu apartamento em Higienópolis, reduto de judeus, Venetianer recebeu o R7. A sala repleta de livros, CDs e discos de vinil de música clássica denuncia o apreço pela arte, mas com uma exceção: não há nada do compositor alemão Richard Wagner, artista antissemita associado ao nazismo.


Por outro lado, sobram quadros das duas filhas e dos cinco netos, família celebrada por quem perdeu 19 parentes próximos quando criança.

Tom com a mãe Lizbeta e o pai Alexander
Tom com a mãe Lizbeta e o pai Alexander

Tom nasceu na cidade de Kosice, no leste da então Checoslováquia, em 1937, dois anos antes de a Alemanha iniciar a Segunda Guerra Mundial. Em 1938, um acordo fez a região ser anexada à Hungria, que pouco depois entrou na guerra como aliada da Alemanha. Isso atrasou a caça aos judeus húngaros. “Era necessário que profissionais liberais continuassem trabalhando para manter a economia”, explica Tom.


O pai dele, Alexander, manteve o emprego como químico-farmacêutico, e a mãe, Lizbeta, atuava como contadora. O ambiente, porém, era marcado por um antissemitismo crescente, o que fez a família optar por não colocar o filho na escola.

Em 1944, Hitler descobriu que a Hungria tentava um acordo de armistício e decidiu invadir o país. Os Venetianer perceberam que não escapariam do Terceiro Reich e fugiram para as montanhas dos Cárpartos. Lá se passaram por cristãos e foram abrigados por uma família em um vilarejo. Uma certidão de batismo concedida por um padre católico era um documento alternativo aos originais da família, todos marcados com uma grande letra “j” que identificava a religião.


Pouco depois, Tom e os pais acabaram denunciados a oficiais alemães pela própria família que havia dado acolhimento. Para confirmar que se tratavam de judeus, os oficiais levaram Alexander a um banheiro e exigiram que ele se despisse para mostrar se era circuncidado.

Em seguida, foram levados ao campo de transição de Sered, uma espécie de antessala de Auschwitz para os judeus daquela região, de onde partia o trem para o campo de extermínio polonês. No local, a criança de 7 anos foi separada do pai e começou a vivenciar o horror do nazismo de forma mais drástica. “Ele correu na minha direção e foi atingido no ombro por um sádico oficial da SS com um bastão de madeira. Ele caiu no chão sangrando”, conta.

Alexander foi levado para um campo de concentração na região de Berlim para trabalhos forçados. Já Tom e Lizbeta acabaram tomando o destino que não era o mais comum daquele ponto, a cidade de Terezín, ao norte de Praga. A viagem de pé em um trem lotado durou mais de dois dias.

Entrada do antigo campo de Auschwitz, que hoje abriga museu
Entrada do antigo campo de Auschwitz, que hoje abriga museu

Campo modelo

O campo de Terezín abrigou a elite intelectual judaica da época. Os nazistas tentavam apresentá-lo como um "campo modelo", inclusive maquiando mulheres e melhorando roupas e alimentação para visitas da Cruz Vermelha. “O que eles faziam era uma enganação”, diz Venetianer. Na prática, havia violência e maus-tratos. No local feito para receber 7 mil pessoas, foram colocadas 60 mil.

Enquanto Lizbeta trabalhava 12 horas por dia produzindo sapatos e roupas usadas na guerra, Tom vivia solto pelo gueto. Viu pilhas de corpos de presos que não resistiam às condições sendo desovadas em uma espécie de trincheira.

Diferentemente de Auschwitz, onde muitas mulheres, crianças e idosos eram exterminados nas câmaras de gás assim que chegavam, já que eram considerados menos úteis para o trabalho, em campos como o de Terezín as condições eram relativamente menos severas.

“A minha vida dentro do campo, esquecendo a fome, o frio, o medo, e que eu praticamente não via a minha mãe porque ela chegava tarde no alojamento, era de certa forma livre.”

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A principal “brincadeira” junto com as outras crianças era procurar comida perto do refeitório e no lixo. Isso porque a refeição diária dada pelos alemães consistia em um pedaço de pão e um líquido que não chegava a ser uma sopa. “Esquentavam água e colocavam um pedaço de nabo ou batata, o que sobrava. Não atendia as calorias mínimas necessárias para um ser humano”, conta.

Professores judeus formaram escolinhas escondidas para ensinar as crianças. Segundo Venetianer, que estudou artes na época, os guardas da SS (polícia nazista) fingiam que não viam “porque achavam que todos os presos morreriam de qualquer forma na ‘Marcha da Morte’”. Esse era o nome dos deslocamentos feitos a pé pelo exército alemão e que precisavam ser acompanhados pelos judeus. Eles foram comuns no final da guerra, quando os alemães destruíam e desocupavam os campos para não deixar provas dos crimes cometidos.

O pai do garoto foi um dos submetidos a essa situação extrema. Caminhando no frio, sem alimento ou cobertor, Alexander caiu na neve, ao lado da estrada, e levou um tiro no ombro. Agonizou por mais de dois dias até ser resgatado pela Cruz Vermelha, pesando 42 kg.

Tom, que foi preso aos 7 anos e mandado para um campo de concentração
Tom, que foi preso aos 7 anos e mandado para um campo de concentração

Já a mulher e o filho deixaram Terezín em junho de 1945, com o fim da guerra, após sobreviverem também a um surto de tifo. O reencontro com Alexander na cidade de origem da família se deu pouco depois. “Não me lembro das circunstâncias exatas. Minha mãe conta que eu tinha medo dele e que não o reconheci”, diz Tom.

Brasil

A vida dos judeus na Europa continuou difícil após a guerra. Não foi diferente com a família Venetianer, que como muitas perdeu o imóvel para pessoas ligadas ao partido nazista. Conseguiram morar de favor em uma pequena casa. Com o antissemitismo ainda presente, porém, a melhor saída era deixar a Europa. Uma prima que já morava em São Paulo arranjou a documentação para que a família entrasse no Brasil de forma legal.

Em São Paulo, Alexander foi trabalhar em um laboratório farmacêutico, e Tom foi matriculado no Mackenzie, onde teve ajuda de amigos com o idioma. O menino de então 10 anos se adaptou plenamente à vida no Brasil. Formou-se engenheiro eletrônico pela USP e em administração pela FGV. Casou-se com uma húngara e formou família. Trabalhou em diferentes empresas e, atualmente, presta consultoria.

Livros sobre a guerra e quadros com familiares são dispostos na sala
Livros sobre a guerra e quadros com familiares são dispostos na sala

Outra de suas atividades foi pesquisar e escrever sobre o Holocausto. Tendo vagas lembranças do que ocorreu quando tinha 7 anos, ouviu relatos da mãe, cientistas e sobreviventes. Dessa forma, pôde entender melhor como se deu o massacre dos judeus da sua região e como o avanço soviético em 1944 conseguiu salvar vidas. “Na época conhecíamos a barbárie alemã, mas ainda não tínhamos uma noção exata do que era Auschwitz e que iríamos para lá”, conta.

Tom também dá palestras gratuitas sobre sua experiência, mostrando que a dor foi assimilada e o desejo de vingança ficou no passado. “Durante um bom tempo tive muita dificuldade de aceitar que minha família foi exterminada. Junto com essa sensação vem a de vingança. Com o tempo fui descobrindo que vieram novas gerações de eslovacos e alemães. Como eu iria odiar pessoas que não cometeram crime algum?”, afirma.

Isso não quer dizer que todas as feridas tenham cicatrizado. A existência do antissemitismo em pleno ano de 2020 ainda faz Tom temer e de certa forma reviver seus traumas. Pesquisas feitas pelo sobrevivente indicam pelo menos 200 atentados contra judeus no último ano.

Ele diz lamentar também a presença dessa “semente do mal” no Brasil, diferentemente da realidade que encontrou em 1948. “O brasileiro não era o brasileiro de hoje. Era um povo pacato, amoroso, que queria ajudar os imigrantes. Hoje o Brasil tem uma onda gigantesca contra tudo aquilo que não era. É preocupante”, analisa.

Tom afirma ter orgulho de ser judeu e acreditar em Deus. Tendo visto e vivenciado os horrores do Holocausto, porém, ele faz uma ressalva. “Fui salvo tantas vezes da morte que não tem como eu não acreditar em Deus. Mas se tudo aconteceu porque a humanidade tem livre arbítrio, algum problema há com esse Deus que nos deu esse livre arbítrio”, diz.

Outra reflexão recorrente na vida do imigrante é por que sobreviveu ao genocídio. Ele promete dar a opinião em seu próximo livro.

Tom participa neste domingo de atos que relembram os 75 anos da libertação de Auschwitz
Tom participa neste domingo de atos que relembram os 75 anos da libertação de Auschwitz

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