Cabo Anselmo fala sobre namorada morta após sua delação: 'Fleury tinha prometido poupá-la'
Leia a quarta parte da entrevista com José Anselmo dos Santos, agente duplo da ditadura
Brasil|Alvaro Magalhães, do R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante entrevista ao R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante entrevista ao R7
Soledad Barrett Viedma era namorada do espião José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo. Nascida no Paraguai e treinada em Cuba, veio ao Brasil para militar na VPR (Vanguarda Popular Revolucionária). Sua missão era, ao lado de Anselmo, montar uma casa de apoio no Recife. Só descobriu que o companheiro colaborava com a repressão em janeiro de 1973, pouco antes de ser apanhada pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury. O comando da guerrilha havia identificado a dupla atuação de Anselmo e enviou a ela uma mensagem para executar o traidor.
Detida, Sol, como Anselmo a chamava, foi torturada e assassinada ao lado de outros cinco militantes da VPR: Pauline Philipe Reichstul, Eudaldo Gomes da Silva, Evaldo Luis Ferreira, Jarbas Pereira Marques e José Manoel da Silva. O episódio ficou conhecido como Massacre da Chácara São Bento. Anselmo admite ter colaborado para a captura da companheira e nega que ela estivesse grávida. Segundo ele, o feto encontrado no IML junto aos corpos era o bebê de Pauline. O espião ainda acusa o delegado Fleury de não ter cumprido a promessa de poupar Soledad.
Confira a entrevista:
R7 - No livro, o senhor narra um encontro amoroso com uma mulher em Cuba, que termina numa ‘pousada’. Essa mulher é Soledad?
José Anselmo dos Santos – Não.
R7 - É outra mulher?
Anselmo – É outra.
R7 - Mas o senhor conheceu Soledad em Cuba.
Anselmo – É.
R7 - Não teve um contato amoroso com ela lá?
Anselmo – Não, a Soledad era companheira do Francisco [codinome do militante José Maria Ferreira de Araújo, ex-marinheiro]. Nós éramos muito amigos, todo mundo do grupo era amigo. E eu era fotógrafo, aprendi fotografia lá. E eu fotografei a filha da Soledad até que ela deu os primeiros passos.
R7 - A Ñai?
Anselmo – É, a Ñasaindy.
R7 - Com relação à morte dela, após ela ser capturada a partir de sua atuação, o senhor narra no livro que havia uma promessa de Fleury para poupá-la[...]
Anselmo – [interrompe] Eu pedi. Eu pedi e ele prometeu.
Ele prometeu?
Anselmo – Prometeu.
R7 - Na entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2011, o senhor afirmou que ele não havia dito nada.
Anselmo – Não, ele não tinha dito nada de que iria prender e... [silêncio]
R7 - O senhor não imaginava o desfecho?
Anselmo – Não. De maneira nenhuma, de maneira nenhuma. Eu via todo mundo ser preso. Ser preso, levar cacete para poder dar mais coisa etc. Como eu podia imaginar que houvesse outro tipo de coisa? Mas de modo nenhum. Não.
R7 - Mas havia outros militantes, companheiros do senhor, que haviam sido presos e, após a prisão, mortos. O senhor tinha essa informação.
Anselmo – Não. Companheiro morto após a prisão? Quando eu cheguei no Brasil, Marco Antônio [da Silva Lima, um dos líderes dos marinheiros] já tinha morrido, o marido da Soledad [José Maria Ferreira de Araújo] já tinha morrido. Olha, a gente está tratando de pessoas que... aqueles da associação dos marinheiros que foram para lá [Cuba] eram caras fantásticos. Era gente boa de coração que estava envolvida dentro de um negócio que não entendia direito. Agora, no caso em que você me perguntou aqui, da Soledad, quando já estava lá no Recife, nós — eu, ela — conversávamos que: ‘Esse troço daqui não tem futuro’. E várias vezes eu disse para ele: ‘Olha, por que você não vai para Cuba e fica com a Ñai?’. Ela já estava decidida a fazer isso. Nessa ocasião, então, eu falei a ela e ao irmão dela: ‘Deixa isso aí’. O irmão não tinha nada a ver com o grupo, ele estava de visita, casou com uma menina lá que não tinha nada a ver com política, absolutamente. O Jorge era um artista. Ele compunha, o negócio dele era compor.
R7 - No dia da prisão de Soledad, o senhor sabia que ela seria presa?
Anselmo – Sabia. Naquele instante eu sabia que ela seria presa porque ela tinha sido seguida saindo de casa. E já todo mundo estava sabendo que eu estava imobilizado para decidirem o que iriam fazer comigo. E essa decisão seria... ‘piz’! [a VPR havia decidido matá-lo]
R7 - O senhor viveu com ela no Recife por quanto tempo?
Anselmo – Um ano ou mais.
R7 - E o [investigador, hoje delegado] Carlos Alberto Augusto ficava com o senhor o tempo todo.
Anselmo – Ficava.
R7 - Como se davam os encontros com ele sem que Soledad soubesse.
Anselmo – Eu e a Soledad montamos uma fachada. Era uma lojinha que vendia blusas bordadas a mão. Eu vi que naquele mercado não existia isso. E depois, como no Paraguai o pessoal borda muito, resolvemos fazer blusas bordadas a mão para vender para turista. Ela contratou uma moça que era costureira. Montamos a lojinha lá e ao lado da lojinha tinha uma garagem. Fechamos a garagem e, como a gente tinha, em Olinda, contatos com artistas, a cada tempo se fazia ali uma mostra de quadros dos artistas locais para que a imprensa fosse e para divulgar a loja. Então, ela ficava lá no trabalho dela, eu saía.
R7 - Foi Carlos Alberto que, pouco antes da prisão de Soledad, informou o senhor que a VPR havia decidido executá-lo?
Anselmo – O Carlos não. A gente que sabia.
R7 - O senhor sabia?
Anselmo – Sabia.
R7 - Como o senhor soube?
Anselmo – Eu li.
R7 - Leu a mensagem que foi passada para Soledad?
Anselmo – Sim.
R7 - Ela mostrou para o senhor?
Anselmo – Mostrou.
R7 - E...
Anselmo – Ela mostrou e depois disse: ‘Eu vou sair’. E saiu.
R7 - Foi naquele momento que ela foi presa?
Anselmo – Uhum [afirmativo]...
R7 - Ela mostrou para que o senhor fugisse?
Anselmo – Não, porque na casa havia outras pessoas ali comigo.
R7 - Essas pessoas foram presas também?
Anselmo – Foram presas.
R7 - Fazem parte dos seis [mortos no Massacre da Chácara São Bento]?
Anselmo – Não. Era pessoal da família da mulher do Jorge. Estava a irmã da mulher do Jorge, a mulher do Jorge. Estavam crianças da família dela.
R7 - Então Soledad deu uma oportunidade para que o senhor fugisse antes que fosse executado pela VPR?
Anselmo – [silêncio] Tanto que eu cheguei até a janela, o Carlos [Alberto Augusto] apareceu lá embaixo na porta de um boteco e fez um sinal: ‘Sai, vamos’. Daí eles entraram, subiram para me dar uma retaguarda e cobertura. E eu fui direto para o aeroporto.
R7 - Em nenhum momento, o senhor chegou a pensar em abrir o jogo para ela?
Anselmo – Daquilo tudo? Não... Ô, cabra, ela tinha tomado uma decisão na vida dela. Ela tinha toda uma formação de um lar comunista, tinha estudado na [universidade] Patrice Lumumba, na Rússia, tinha passado pelo Chile, depois por Cuba, onde se juntou com esse companheiro da gente, ex-marinheiro. Teve uma filha lá. Eu nem imaginava que ela fosse abandonar a filha e vir para cá. Quando ela chegou, tudo bem. ‘Opa, uma pessoa conhecida. Querida e tal’. Agora, ela veio para ser, sei lá, a mulher que era a minha fachada. A partir daí, nós nos relacionamos amorosamente e... ela era uma pessoa doce. Agora, era enérgica em relações às questões da ideologia. Ela tinha preparação desde a infância.
R7 - O que aconteceu imediatamente depois desse resgate do senhor?
Anselmo – Eles me levaram para o aeroporto de Guararapes. Havia um voo de um avião militar, da FAB. Eu vim para São Paulo, me botaram em um hotel. Eu fiquei no hotel aguardando algum tempo até que... Na manhã seguinte, fui ler o jornal e... Foi o pior dia da minha vida, posso dizer, tive um choque, uma dor imensa de ver na manchete as fotografias do que havia acontecido no Recife [o Massacre da Chácara São Bento]. Foi uma das piores experiências na minha vida. A pior. Da minha vida toda.
R7 - O senhor afirma no livro que Soledad não estava grávida.
Anselmo – Não. Não estava, não estava. Você tem aí a prova no livro.
R7 - O senhor menciona que ela teria ido a um posto de saúde para colocar um DIU. Onde exatamente aconteceu esse procedimento?
Anselmo – Olha, logo que ela chegou, ela passou algum tempo aqui em São Paulo sem que eu tivesse contato. Eu estava no Recife. Até que houve uma pessoa que chegou lá no Recife com uma mensagem que disse: ‘Olha, você vai para São Paulo fazer o ponto com a pessoa que você vai trazer para cá’. A pessoa nem sabia quem era. Eu viajei a São Paulo e fui até o local para o encontro. Quem surge? Soledad. Daí eu fui com ela para o Recife e um mês, dois meses depois que a gente estava no Recife, ela fala no negócio de abortar, que ela estava com um filho que não era desejado... Então eu a trouxe para São Paulo de novo, pois eu tinha morado numa pensão ali na Vila Mariana, numa casa dessas em que se aluga quarto, e conheci uma senhora, muito amiga minha, que tinha abortado várias vezes. Fui lá, apresentei, e a pessoa a levou para fazer o aborto. Passamos ali alguns dias nessa mesma pensão, até ela se recuperar um pouco, e voltamos para o Recife. No Recife, logo que ela chegou, foi a um posto de saúde e colocou um dispositivo intrauterino, um DIU.
R7 - Então foi em um posto de saúde do Recife?
Anselmo – Foi no Recife.
R7 - Que posto de saúde era esse?
Anselmo – Não, não. Ela foi com a mulher do Jorge, a Leninha. Era amiga dela. Eu estava aplicado em outras coisas, entende? A minha parte, que ela não sabia, de ‘fazer a revolução’ [a compartimentação de informação]. Enquanto que ela tinha a parte dela, que eu não sabia. As ordens dela de ‘fazer a revolução’. Isso é compartimentação. Cada um tem uma coisa que fazer.
R7 - O senhor afirma que era Pauline que estaria grávida.
Anselmo – A Pauline, sim. A Pauline chegou na nossa casa de apoio uma vez e foi com a própria Sol [Soledad] a um posto de saúde porque estava com problema de gravidez.
R7 - Isso ocorreu quanto tempo antes da prisão e morte dos seis?
Anselmo – Olha, você está com um espaço aí de um ano. Digamos menos três meses, nove meses. Nove meses, digamos. Você está com um tempo aí de um tempo de gestação, normal.
R7 - O senhor nunca teve dúvida sobre isso?
Anselmo – Eu fiquei na dúvida até há pouco tempo, quando eu vi a entrevista do Jorge. Eu tinha uma baita dúvida: ‘Como é que pode?’. Ela tinha o dispositivo, nós tínhamos todo cuidado nesse sentido. Nenhum queria mais fazer outro aborto ou coisa parecida. E, depois, naquela própria condição de vida, não dava para fazer aquilo. Fazer filho? Eu sabia que a Pauline estava... Então eu desconfiava: ‘Poxa, houve uma troca aí. Mas quem que fez essa troca? Foram os médicos? Foram os policiais? Ou será que foi a imprensa para mostrar o monstro que era o Anselmo?’. Eu tinha dúvida nesse sentido. Mas quando eu vi a entrevista do Jorge [depoimento no site Documentos Revelados]: ‘Ai, que alívio!’. Porque ali ele determina uma coisa: a doutora Mércia, que era a advogada que foi ao IML, ela pegou a fotografia da Pauline e a fotografia da Soledad e trocou, simplesmente.
LEIA A QUINTA PARTE DA ENTREVISTA: Os outros militantes presos ou mortos
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Parte 1: Marighella, a Revolta dos Marinheiros e a fuga facilitada
Parte 2: A prisão em 1971 e a tortura
Parte 3: A decisão de mudar de lado e a vida como agente duplo
Parte 6: A cirurgia plástica e a participação nos atos anti-Dilma
























