Comunidade judaica elogia eleição de Fux para a presidência do STF
Ministro do STF será o primeiro representante da comunidade judaica a assumir a função; tal fato é visto como respeito aos valores democráticos
Brasil|Eugenio Goussinsky, do R7

A partir de setembro próximo, o ministro Luiz Fux, de 67 anos, será o 48º presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), no biênio 2020-2022. Nesta corte desde 2011, ele será o primeiro representante da comunidade judaica a assumir a função.
Na opinião do embaixador de Israel no Brasil, Yossi Shelley, a eleição de Fux para o cargo retrata um aspecto acollhedor e de tolerância no Brasil.
"Esta escolha honrosa prova mais do que nunca que os judeus que foram recebidos de maneira justa e equitativa podem alcançar lugares excelentes como todos os outros cidadãos do país. A contribuição deles é a prova de que quem escolhe ser um cidadão decente, o céu é o limite", observou.
Shelley ressaltou, no entanto, que foram as credenciais de Fux que o levaram a assumir a função.
"Fux foi escolhido graças às suas habilidades e não às suas origens, mas é sempre bom ouvir sobre esses sucessos. Estamos felizes com isso, desejamos a ele sucesso contínuo e parabenizamos o Supremo Tribunal Federal e o governo do Brasil pela igualdade de tratamento com todos os cidadãos e pelas boas relações com Israel em todos os campos", completou.
Já o fundador da incorporadora e construtora Tecnisa, Meyer Joseph Nigri, presidente do Conselho de Administração da empresa, vê com orgulho a chegada de Fux à presidência da mais alta instância jurídica do País.
"Nós, como judeus, somos grande minoria, representamos 0,05% da população brasileira, com menos de 100 mil pessoas. É motivo de muito orgulho para nós da comunidade saber que o presidente do STF é judeu. Ele mereceu o cargo por sua capacidade", observou.
Elie Horn, fundador e presidente do Conselho de Administração da incorporadora e construtora Cyrela, destaca que o mais importante é a competência de quem ocupa tal cargo.
"Considero que toda a pessoa que faz o bem e é competente para a função pode ocupar o cargo, independentemente de religião. O importante é a pessoa ser honesta, competente e eficiente, o resto é detalhe. Na questão do relacionamento entre Brasil e Israel, vejo que isso depende mais do presidente do País do que do presidente do Supremo", observou.
Para Ricardo Berkiensztat, presidente executivo da Fisesp (Federação Israelita do Estado de São Paulo), a chegada de Fux à presidência é positiva devido ao fato dele sempre ter sido um jurista aberto ao diálogo. Tal postura colabora para as relações institucionais entre Brasil e Israel, segundo o dirigente.
"Pela postura de diálogo que o Luiz Fux sempre conduziu sua carreira, acho que a sua eleição para o cargo de presidente do STF é positiva. No que diz respeito às relações jurídicas e institucionais entre Brasil e Israel, a presença dele será uma contribuição para esse canal continuar aberto. E isso é bom também para a comunidade judaica. Tal postura já tem sido vista nesta corte. Com Dias Toffoli também havia um bom relacionamento e com Fux não será diferente", observou.
Assim como Shelley, Berkiensztat também preferiu enaltecer o currículo do novo presidente do STF.
"Luiz Fux se tornou presidente por sua capacidade jurídica e não pela religião. Da mesma forma que condenamos críticas negativas em relação aos judeus também não podemos enaltecer, pelo lado positivo, relacionando algum mérito a esta questão. Religião é algo de foro íntimo e o sucesso vem da capacidade. O importante é haver sempre a tolerância", completou.
Diante dos desafios
A eleição de Fux entre os seus pares no STF foi antecipada de agosto para junho, muito em função da pandemia. Fux pertence a uma família exilada na Segunda Guerra Mundial. Seus avós se reencontraram no Brasil, após sobreviverem à perseguição nazista.
Filho de Lucy e Mendel Wolf Fux, o ministro já contou que a gratidão ao Brasil impulsionou seus avós a uma atuação solidária no país. O avô , Moisés Fux, assumiu uma entidade que era casa de acolhida de idosos em condições de vulnerabilidade e a avó, Bertha Fux, se tornou presidente do Lar das Crianças israelitas, entidade que acolhia crianças carentes.
Tendo iniciado os estudos no colégio judaico Liessin, no Rio de Janeiro, onde nasceu, Fux teve uma infância humilde, no Andaraí. Depois de passar pelo colégio Pedro II, ingressou em Direito em 1972, na Universidade Estadual do Rio de Janeiro.
A escolha da profissão teve alguma relação com o fato do pai, um imigrante romeno, ter se tornado advogado já mais velho, após atuar por muitos anos como técnico em contabilidade.
Fux se formou em 1976. Nos dois anos seguintes atuou como advogado e, depois, por três anos, como promotor de Justiça. Professor universitário, ele se tornou juiz estadual em 1983, aprovado em primeiro lugar no concurso. Permaneceu na função até 1997, quando foi promovido a desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. Entre 2001 e 2011 foi ministro do Superior Tribunal de Justiça, até ingressar no STF.
A postura de Fux no Supremo tem sido marcada por uma defesa de valores democráticos e em defesa de uma atuação independente dos procuradores na operação Lava Jato.
Ele foi um dos foi um dos cinco ministros que votaram a favor das prisões após condenação em segunda instância, não aprovadas pela maioria da corte.
Neste início de presidência, Fux deverá, entre outros, ter o desafio de organizar os trabalhos da corte no julgamento de questões relativas ao impacto orçamentário da pandemia para o Brasil e pendências judiciais causadas pela mesma.















