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De restaurantes à lojas de grife. Relatório expõe 'farra' de gastos do Operador Nacional do Sistema Elétrico

Levantamento tem notas fiscais de R$ 68 mil, da compra de terno, calça e camisa social

Brasil|Do R7

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ONS diz que relatório não aponta irregularidades
ONS diz que relatório não aponta irregularidades

O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), órgão responsável por gerenciar e garantir o abastecimento de energia no Brasil, está longe de aplicar o mesmo rigor técnico quando o assunto em questão são suas contas e rotinas administrativas. Um relatório que acaba de ser concluído pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) revela diversos casos de desperdício de dinheiro, gastos indiscriminados e irregularidades cometidas pelo ONS, tudo bancado pelo consumidor de energia em sua conta de luz.

O jornal O Estado de S. Paulo teve acesso a um relatório da SFF (Superintendência de Fiscalização Econômica e Financeira) da Aneel, que analisou a prestação de contas do ONS. O documento concluído em 29 de março passa um pente-fino no orçamento e nos gastos do órgão realizados entre julho de 2013 e junho de 2014. O cruzamento de notas fiscais, relatórios e explicações dadas por funcionários da própria instituição revela que as preocupações do Operador com os preços recordes da conta de luz naquela época não incorporavam suas rotinas internas.

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No dia 30 de dezembro de 2013, véspera de réveillon, R$ 26.662,60 foram gastos na compra de terno, calça e camisa social em uma loja de grife. Outros R$ 41.387,72 foram desembolsados nos seis meses seguintes para compra de sapatos, cintos, suéteres e meias. O ONS tentou justificar que o gasto extra de R$ 68 mil referia-se a um suposto "kit uniforme", argumento não acatado pela Aneel.

"São despesas que deveriam ser arcadas pelos próprios funcionários, uma vez que, em suma, inexiste a definição clara de uniforme, não há qualquer logomarca do ONS, são materiais adquiridos em estabelecimentos comerciais distintos e jamais relacionados exclusivamente à distribuição de uniformes", declarou a agência. "É terminantemente inviável cogitar-se alguma plausibilidade jurídica e regulatória na oneração orçamentária indevida do ONS para finalidades não associadas às finalidades institucionais".

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Restaurantes

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Entre maio e junho de 2014, período em que essas visitas foram fiscalizadas pela Aneel, a churrascaria Fogo de Chão foi visitada 15 vezes. Endereços de outros restaurantes famosos, como Pobre Juan (quatro vezes) e Antiquarius (cinco vezes) também fizeram parte do roteiro. No dia 23 de junho de 2014, no tradicional Porcão, uma única conta chegou a R$ 2.503,60. Naqueles dois meses, os chamados "almoços especiais" custaram R$ 22.646,25.

O ONS informou à Aneel que se tratava de "parte de uma premiação" dada a funcionários que se destacaram. Não convenceu. "São despesas que jamais deveriam ser custeadas pelo ONS", declarou a Aneel, concluindo que se trata de um "gasto irregular ilegal e totalmente desconexo das atribuições institucionais do ONS".

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A quantidade de lanche e "coffee break" feitos pela diretoria do ONS, no Rio, também chamaram a atenção, consumindo R$ 214.523,55 no período. São quase R$ 18 mil por mês só com lanchinhos. O detalhamento dos gastos mostra que, entre novembro de 2013 e junho de 2014, a diretoria pagou mais de R$ 51 mil na compra de água, café e leite, conta desnecessária, destacou a agência, já que o órgão oferece esses itens em suas instalações, "por meio de máquinas de cafés, chocolate quente, cappuccino, café com leite e purificadores de água espalhados em todos os andares do edifício do ONS, não havendo qualquer plausibilidade jurídica e racionalidade econômico-financeira a utilização onerosa de serviços em duplicidade".

Austeridade também não é assunto confortável quando se trata de gastos com combustível. O rastreamento de dados de abastecimento de veículos e do uso dos cartões corporativos revelou constantes abastecimentos feitos na noite de sexta-feira e na manhã de segunda-feira seguinte, dentro do mesmo fim de semana. Parte desses abastecimentos foi feita em quantidade superior à própria capacidade dos carros.

A agência encontrou ainda pagamentos irregulares no aluguel do prédio que, naquele ano, era usado pelo órgão. O ONS pagava taxas de fundo de reserva e/ou fundo de contingência l, valores que, por regra, devem ser assumidos pelo dono do imóvel, um "descuido" que, no prazo calculado de 60 meses, causou prejuízos de mais de R$ 605 mil.

O Operador é uma associação civil sem fins lucrativos, mas 97% de seu orçamento é bancado pelas tarifas e apenas 3% pelas empresas do setor.

Defesa

O Operador Nacional do Sistema Elétrico declarou que o relatório da Aneel não aponta irregularidades, mas sugestões de ajustes. "Trata-se de um processo sistemático de fiscalização. O ONS está avaliando, para emitir sua manifestação sobre o assunto, ainda dentro do prazo", declarou o Operador, por meio da assessoria de comunicação. "A maioria das questões cobradas pela Aneel se refere à recomendação de melhorias, e não de irregularidades ou punição."

A Aneel declarou, por meio de nota, que "ainda não recebeu a manifestação do ONS para dar prosseguimento ao processo, que continua em fase de análise". O diretor-geral do ONS, Hermes Chipp, representante da instituição, foi notificado pela agência.

A Aneel e o Operador Nacional têm um histórico de desentendimentos em relação a fiscalizações, divulgação de dados e eventuais multas e punições. No relatório, técnicos da agência deixam claro que o ONS trata o assunto como uma caixa-preta. A Aneel alegou "extrema dificuldade" para acessar dados ligados à rubrica "pessoal" e "administradores".

Sob argumento de sigilo, o ONS omite dados individualizados de folha de pagamento, embora a agência garanta sigilo. A Aneel chegou a sugerir a omissão de dados pessoais, como nome e CPF, mas o ONS "permaneceu irredutível e sempre se furtando à apresentação de informações referentes às despesas operacionais com a remuneração, tanto de seus funcionários próprios quanto, principalmente, de seus administradores".

Nesta terça-feira, 12, a Aneel anunciou corte drástico no orçamento. A agência, que planejava gastar R$ 120 milhões em 2016, terá de limitar as despesas a R$ 44 milhões. Audiências públicas e reuniões presenciais estão entre itens cortados. 

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