Brasil Jogo Sujo: grana desviada do Rio por Olimpíadas percorreu 3 continentes

Jogo Sujo: grana desviada do Rio por Olimpíadas percorreu 3 continentes

Milhões de dólares se tornaram propina a Sergio Cabral e dirigentes olímpicos

  • Brasil | Fernando Mellis, do R7

Carlos Nuzman (foto) está entre investigados pelo MPF

Carlos Nuzman (foto) está entre investigados pelo MPF

Fábio Mota/Estadão Conteúdo - 13.2.2009

As investigações do MPF-RJ (Ministério Público Federal no Rio de Janeiro) indicam que milhões dólares pagos em propinas ao ex-governador Sérgio Cabral e a dirigentes olímpicos são dinheiro desviado dos cofres públicos fluminenses.

Desde que saiu do Brasil, esse dinheiro foi distribuído em pelo menos seis países, em três continentes: América, Europa e África (entenda melhor o caminho do dinheiro no quadro abaixo). 

Os procuradores sustentam que o empresário “Arthur Cesar de Menezes Soares Filho [conhecido como Rei Arthur] faz parte da organização criminosa e tinha como função desviar parte dos recursos públicos que suas empresas recebiam para abastecer financeiramente Sérgio Cabral”.

“Arthur Soares é proprietário do grupo Facility, que obteve contratos bilionários durante o governo de Sérgio Cabral”, acrescenta o MPF.

A operação Unfair Play (Jogo Sujo) mostrou que parte da propina paga por Soares a Cabral no exterior serviu para comprar a eleição do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016.

Para isso, foi usada uma das empresas de Rei Arthur, a Matlock, sediada em Road Town, capital das Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal.

US$ 2 milhões: foi o valor pago a membros do COI para escolha do Rio como sede

Foi constatado durante a investigação que em 23 de setembro de 2009 — nove dias antes da eleição para escolha da sede das Olimpíadas — saíram US$ 2 milhões de uma conta da Matlock no banco UBS nas Ilhas Virgens Britânicas.

O destinatário era Papa Massata Diack, filho de Lamine Diack, então presidente do IAAF (Associação Internacional de Federações de Atletismo). O Société Générale, em Paris, rejeitou o montante no dia 28 de setembro alegando que não havia “razão particular” para determinada transação. O dinheiro foi devolvido à conta de origem.

No entanto, o valor precisava ser pago e no dia seguinte a Matlock usou outra conta no UBS, dessa vez em Miami, nos Estados Unidos, para fazer duas transferências a Papa Diack.

A primeira delas foi de US$ 500 mil destinada a uma conta do filho do executivo da IAAF no Société Générale Vostok, em Moscou (Rússia). A segunda, de US$ 1,5 milhão, foi para outra conta dele, no Société Générale em Dakar (Senegal).

O MPF sustenta que os membros africanos do COI (Comitê Olímpico Internacional) tinham costume de votar em bloco, podendo o voto de Lamine Diack ter efeito sobre todo o continente. 

Sérgio Cabral

Nuzman e Cabral articularam propina, dizem procuradores

Nuzman e Cabral articularam propina, dizem procuradores

Fernando Soutello/Agif/Folhapress - 18.12.2008

O MPF aponta ainda que a Matlock pagou propina a Sérgio Cabral por meio do operador dele, Renato Chebar, delator da Lava Jato. Foi usada uma conta da empresa no EVG Bank, no paraíso fiscal de Antígua e Barbuda.

“Os documentos encaminhados por meio de cooperação internacional com Antígua e Barbuda não deixam dúvidas de quem era o real proprietário da empresa que tinha sede registrada nas Ilhas Virgens Britânicas: Arthur César de Menezes Soares Filho”.

Foi por meio do EVG Bank que Rei Arthur pagou R$ 10,4 milhões de propina a Sérgio Cabral, segundo os investigadores.

Outro fato destacado pelo MPF é um encontro em Paris em que estava presentes o então presidente do COB (Comitê Olímpico do Brasil), Carlos Nuzman, preso nesta quinta-feira (5), acusado de ser o intermediador das propinas para compra de votos na escolha da de sede dos jogos.

“Poucos dias antes de serem efetivados pagamentos a Papa Massata Diack pela compra de votos para a escolha da sede dos Jogos Olímpicos de 2016, e em data bastante próxima àquela em que [Leonardo] Gryner, Sérgio Cabral e Arthur Soares tinham se encontrado para tratar do assunto relacionado a Lamine/Papa Diack, vários membros da organização criminosa encontram-se em Paris e comemoram conjuntamente”.

Gryner foi o chefe do Comitê Rio 2016 e também foi preso nesta quinta-feira.

Arthur Nuzman e Leonardo Gryner

A ligação entre os envolvidos é descrita pelo MPF da seguinte forma:

“Leonardo Gryner e Carlos Arthur Nuzman, em comum acordo com Sérgio Cabral, são os responsáveis por indicar a Arthur Soares a quem deveria ser feito o pagamento – no caso, a Papa Diack/Lamine Diack. É de se registrar que foi Sérgio Cabral quem apresentou Arthur Soares a Leonardo Gryner, em Paris, dias antes da votação em Copenhague [para escolha da sede]. Além de fazerem a aproximação das pontas, Carlos Nuzman e Leonardo Gryner também gerenciaram e fizeram a intermediação do efetivo pagamento de valores a Papa Diack”.

Segundo os procuradores, Nuzman e Gryner “foram os agentes responsáveis por unir pontas interessadas, fazer os contatos e azeitar as relações para organizar o mecanismo do repasse de propinas de Sérgio Cabral diretamente a membros africanos do COI”.

Ao citar a evolução patrimonial de Carlos Nuzman, os procuradores voltam a mencionar as Ilhas Virgens Britânicas. No ano de 2014, o patrimônio do presidente do COB dobrou, havendo um acréscimo de R$ 4,2 milhões. Boa parte desse dinheiro (R$ 3,8 milhões) é de ações de uma companhia sediada nas ilhas caribenhas.

Outro lado

O R7 procurou as defesas de Carlos Nuzman, Leonardo Gryner e Arthur César de Menezes Soares Filho, mas nenhum dos advogados havia se manifestado até a publicação da reportagem. 

O COB também não emitiu posicionamento sobre o ocorrido. 

Em nota, o Comitê Olímpico Internacional disse que solicitou informações às autoridades brasileiras para instruir um processo de ética contra Nuzman na entidade, sediada na Suíça.

O dirigente é membro de honra do COI. No entanto, uma eventual punição dele poderia fazer com que perdesse o cargo que ocupa no Comitê Olímpico do Brasil.

Assista à reportagem do Jornal da Record:

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