Marighella, a Revolta dos Marinheiros e a fuga do Alto da Boa Vista, na versão de Cabo Anselmo
Leia a primeira parte da entrevista com Cabo Anselmo, o mais conhecido espião da ditadura
Brasil|Alvaro Magalhães, do R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante entrevista ao R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, durante entrevista ao R7
José Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo, tornou-se uma figura notória a partir de 25 de março de 1964. A associação dos marinheiros, da qual era presidente, comemorava seu segundo aniversário. Após discurso de Anselmo, os praças iniciaram uma revolta. A manifestação acabou somente no dia seguinte. O presidente João Goulart anistiou todos os amotinados, que haviam tido prisão decretada pela indisciplina. A cúpula das Forças Armadas interpretou o ato de Jango como uma quebra na hierarquia militar. Em 1º de abril, os generais tomaram o poder.
Anselmo foi preso pouco depois do golpe. Após passar por diversas prisões, foi acomodado na carceragem da delegacia do Alto da Boa Vista, no Rio. Lá permaneceu até março de 1966. Sua fuga, facilitada pelo policial que estava de plantão, é apontada como suspeita pelos que consideram que Anselmo já colaborava com os militares ou com a CIA desde antes do golpe ou desde o início do regime militar. Anselmo nega essa condição e afirma que só passou a colaborar com o regime a partir de sua segunda prisão, em junho de 1971.
Confira a entrevista:
R7 – Em sua recém-lançada autobiografia, o senhor diz que o discurso que fez na associação dos marinheiros em 1964 foi, em parte, escrito por Carlos Marighella. Como se deu isso? O senhor se encontrou pessoalmente com Marighella?
José Anselmo dos Santos – A diretoria da associação estava dividida. Eu era a parte, digamos assim, de relações públicas. Era o mocinho que fazia os discursos. Agora, a direção política mesmo estava com Marco Antônio da Silva Lima [morto pela repressão em 1970], que era um caboclo da Paraíba, ponta firme, que tinha contatos políticos. Havia outros dentro da associação, uns poucos, que só agora eu estou sabendo, pela leitura de um outro livro, que eram do Partido Comunista. Mas o Marco Antônio não. O Marco Antônio era mais radical. Então, ele se uniu com o pessoal do Marighella, que estava saindo do Partido Comunista. O Marco Antônio me levou até o Marighella. Nós havíamos feito uma reunião na diretoria para saber como seria o discurso, fizemos um esboço de discurso. Saímos com Marco Antônio e um outro, não me lembro quem, para um escritório na rua México, no Rio. Lá estava o Marighella e mais dois outros senhores. Ele leu o discurso e disse: ‘Ah, não! Vamos melhorar isso’. Ele mesmo sentou na máquina e... me deu o discurso pronto. Com toda parte ligada à coisa política, apoio às reformas etc. e tal.
R7 - Apoio às reformas de base?
Anselmo – Exato. Eu li aquele discurso umas duas, três vezes. Ou quatro. E tudo bem. Veja: eu era um moço, estava na presença de pessoas importantes na política. Eu não sabia direito quem eram, mas eram pessoas importantes. Tão importantes para mim como o almirante Aragão, tão importantes quanto o Darcy Ribeiro, tão importantes quanto... entende? Pessoas que eu tive contatos esporádicos e que estavam ali para ajudar a associação. O próprio presidente da Academia Brasileira de Letras, Austregésilo de Athayde, que me deu duas caixas de livro para botar na biblioteca da associação. Quer dizer, essas pessoas importantes. Mas a coisa política, da Guerra Fria... isso era muito tênue na minha cabeça e na cabeça lá da maioria [dos marinheiros].
R7 - O senhor memorizou o discurso?
Anselmo – Não, não. Eu li.
R7 - Outro episódio controverso de sua vida é a fuga da delegacia do Alto da Boa Vista, em 1966. Como era exatamente a sua situação ali na carceragem? O senhor tinha livre circulação?
Anselmo – O panorama era o seguinte, os próprios policiais achavam: ‘Ah! isso tudo vai passar! Você vai ser solto logo’. Só que foram soltos, por habeas corpus, todos, quase 40 ex-marinheiros e fuzileiros navais. Só o habeas corpus para mim é que não ia para adiante. Foram soltos todos aqueles caras do Partido Comunista, sargentos etc., que estavam em uma prisão especial lá em cima. E o único prisioneiro que restou fui eu. Então, lá dentro, sozinho, os policiais sempre chegavam para bater papo. O próprio chefe da delegacia chegou e falou: ‘Olha, será que você não podia ajudar a gente aqui a datilografar umas coisas?’. Respondi: ‘Claro!’. Eu não tinha o que fazer. Meu negócio lá era ler, fazer exercício no pátio, na hora do banho de sol...
R7 - E, mesmo na condição de preso, o senhor chegou a ir para a rua?
Anselmo – Houve. A primeira vez que houve uma circulação assim livre na rua foi quando houve uma chuva forte, que toda a parte do Alto da Tijuca ficou isolada. Então, toda a população ali se mobilizou para fazer assistência às pessoas. E o chefe que estava na delegacia, o investigador Marinho, se não me engano, disse: ‘Você não quer ajudar na escola?’. Eu disse: ‘Quero. Claro! Vou lá ajudar’. E fui lá para a escola para ajudar. Percorria algumas lojas pedindo material para alimentação. E eles levavam até a escola, onde havia um monte de pessoas. Eu ajudei um pouco ali e depois voltei. Até ganhei uma garrafa de vinho “Nau Sem Rumo”.
R7 - Mas, no momento da fuga, o senhor pagou uma propina para o policial que estava no plantão?
Anselmo – Não foi uma propina, não. O alemãozão que estava lá era um cara legal, tinha família etc. E eu tinha algum dinheiro. Bom, eu ia sair, não ia precisar mais daquele dinheiro. Alguém ia cobrir as minhas despesas. Então, eu cheguei e disse: ‘Toma aí! Para você!”. Eu sabia que ele era um cara casado, com filhos, com dificuldades etc. Foi muito mais uma ajuda para ele. Mas não como uma forma de comprar o cara. Todos eles tinham confiança. No convívio, se estabeleceu uma confiança. Não que eu fosse policial ou que tivesse me tornado policial ou coisa parecida. Foi uma confiança humana.
R7 - O senhor, então, conseguiria sair dali sem a propina?
Anselmo – Sim, sem dúvida nenhuma. E também, [para ser liberado] foi um papo de homem: ‘Olha, eu vou encontrar uma menina ali e tal, volto já’.
R7 - Foi a Ação Popular [grupo de esquerda] que o ajudou na fuga?
Anselmo – Não. A AP [Ação Popular] passou o trabalho para a Polop, Política Operária [outro grupo de esquerda]. A Polop que me transportou dali. Imediatamente fomos embora. Quando descobriram que eu não estava mais na cadeia, na prisão, eu já estava a meio caminho de São Paulo.
LEIA A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA: A prisão em 1971 e a tortura
E leia também:
Parte 3: A decisão de mudar de lado e a vida como agente duplo
Parte 4: A morte de Soledad, a traição de Fleury
Parte 5: Os outros militantes presos ou mortos
Parte 6: A cirurgia plástica e a participação nos atos anti-Dilma























