Logo R7.com
RecordPlus
Notícias R7 – Brasil, mundo, saúde, política, empregos e mais

Modelo de lista fechada favorece parlamentares investigados, dizem especialistas

Na lista, eleitor vota no partido e é o partido que escolhe deputados e senadores 

Brasil|Do R7

  • Google News

Adicione como fonte preferencial no Google

Opens in new window
Modelo de lista fechada favorece investigados, dizem especialistas
Modelo de lista fechada favorece investigados, dizem especialistas

Debatido na proposta de reforma política, o modelo de lista fechada pode engessar a composição do Congresso e garantir o foro privilegiado a parlamentares suspeitos de envolvimento no esquema de corrupção investigado na Lava Jato, disseram especialistas ouvidos pela reportagem. Nesse sistema, o voto é destinado ao partido, que, por sua vez, determina o parlamentar que vai ocupar uma cadeira no Parlamento. O modelo virou alvo de manifestação convocada para o próximo domingo em várias cidades do País.

Segundo a professora de Direito da Fundação Getulio Vargas (FGV-Rio) Silvana Batini, o modelo não deveria ser adotado da forma como está sendo discutido. Para facilitar a aprovação no Congresso, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE), querem propor prioridade aos atuais deputados no "ranking" das listas - o que lhes garantiria o foro.


— A ideia não pode ser perpetuar as pessoas no poder. A lista fechada deixa o nome do candidato escondido dos eleitores, e isso pode favorecer pessoas investigadas.

Oportunismo


Para a cientista política da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) Maria do Socorro Sousa Braga, a reforma política vai na contramão do cenário com a Lava Jato. As mudanças, afirmou, poderiam ser vistas como um oportunismo dos parlamentares para se livrar da investigação.

— A gente já tinha um gap entre sociedade civil e classe política, e isso tem aumentado depois que se revelou a corrupção no País.A elite partidária não quer se dar conta de que está extremamente desacreditada. Uma mudança dessas pode diminuir ainda mais o número de pessoas que se dispõem a votar.


Maioria de grupo da reforma política rejeita lista fechada

A lista fechada e o atual modelo adotam o sistema proporcional de votos - cada sigla obtém um número de cadeiras proporcional aos votos que recebeu.


— A diferença é que, na aberta, além de ajudar a determinar quantas cadeiras um partido vai ter, o eleitor escolhe quem vai ocupar aquela cadeira, afirmou Fernando Neisser, membro-fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e presidente da Comissão de Direito Eleitoral do Instituto dos Advogados de São Paulo (Iasp).

— O problema atual é que o eleitorado, muitas vezes, não tem a percepção de que também está votando no partido e ajudando a eleger outros candidatos da sigla.

Para Neisser, a lista fechada seria o sistema ideal, não fosse o atual cenário partidário. A mudança só deve ser feita, segundo ele, se for acompanhada de uma reforma estrutural dos partidos, com a proibição de reeleições nos cargos de cúpula partidária a fim de tentar reduzir o controle familiar; a paridade de gênero nas direções partidárias; a transparência nas contas dos partidos; e prévias para a escolha dos candidatos.

— Quem deve escolher a ordem dos candidatos numa lista fechada é o partido, mas quem é o partido? O corpo de filiados, por meio de prévias.

O pesquisador da FGV Direito SP Diogo Rais avaliou que "reformar pontualmente deixa tudo muito instável".

— E quem faz a norma eleitoral são os jogadores, que movem toda hora a regra do jogo que eles mesmos vão disputar, disse Rais, que coordenou o Projeto Observatório da Lei Eleitoral no ano passado.

Fortalecimento de partidos

Rais afirmou também que a lista fechada pode ter pontos positivos, como o fortalecimento dos partidos.

— No Brasil, há muitos partidos e quase nenhuma identidade partidária.

Outra vantagem da lista seria a possibilidade de criar mecanismos para agregar minorias.

— Se houvesse uma cota preestabelecida, a lista fechada poderia, por exemplo, fazer valer uma distribuição de gênero mais efetiva, com proporções iguais de homem e mulher no ranking partidário.

No entanto, o pesquisador disse acreditar que o fortalecimento partidário poderia se transformar em uma "superconcentração" de poder, caso não haja mecanismos para garantir a democracia interna da legenda.

— Isso poderia levar a uma autonomia partidária elevada, empoderando demais os dirigentes que vão fazer a lista.

Para Rais, a maior discussão não é o modelo de votação em debate, mas seu uso.

— A lista fechada pode ser o instrumento certo, mas na hora errada. Com mais de 30 partidos e um número muito grande de parlamentares sob investigação, o risco de o uso ser deturpado parece grande, o que pode criar um afastamento ainda maior da sociedade. Isso seria um desastre.

Últimas


Utilizamos cookies e tecnologia para aprimorar sua experiência de navegação de acordo com oAviso de Privacidade.