MPF vê 'implicações jurídicas' em ataque de Bolsonaro a Santa Cruz
Para órgão, qualquer pessoa que oculta informações que podem ajudar na busca de desaparecidos 'pode ser considerada partícipe do delito'
Brasil|Do R7

A Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), do Ministério Público Federal (MPF), divulgou nota oficial nesta terça-feira (30) com duras críticas às declarações do presidente Jair Bolsonaro em relação ao desaparecimento de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira na década de 70. Para o órgão, o ato “reveste-se de enorme gravidade, não só pelo atrito com o decoro ético e moral esperado de todos os cidadãos e das autoridades públicas, mas também por suas implicações jurídicas”.
Leia também:Bolsonaro diz que pai de presidente da OAB não foi morto por militares
A Procuradoria destaca o sofrimento que sofrem as famílias que perdem entes sem ter notícias de suas localizações. "O respeito a esse penar é um sinal de humanidade e dignidade, praticado por distintas civilizações e todas as religiões. O direito a um funeral é, aliás, parte essencial de qualquer cultura humana e sua supressão, um dos mais graves atos de crueldade que se pode impor a uma família.”
A PFDC afirma que quem oculta informações sobre o paradeiro de uma pessoa nessa situação pode ser investigada. "Qualquer pessoa que tenha conhecimento de seu destino e intencionalmente não o revela à Justiça pode ser considerada partícipe do delito". E reforça a advertência a Bolsonaro: “Qualquer autoridade pública, civil ou militar, e especialmente o Presidente da República, é obrigada a revelar quaisquer informações que possua sobre as circunstâncias de um desaparecimento forçado ou o paradeiro da vítima”.
O órgão recorda que o Brasil foi condenado nos casos Vladimir Herzog e Gomes Lund pela Corte Interamericana de Direitos Humanos pela prática de crimes contra a humanidade e foi determinado que o Estado promovesse a investigação, o julgamento e a punição pelos crimes de desaparecimento forçado de pessoas, execuções sumárias e tortura. "A Corte decidiu, inclusive, que a privação do acesso à verdade dos fatos sobre o destino de um desaparecido constitui uma forma de tratamento cruel e desumano para os familiares e, por si só, é uma grave violação aos direitos humanos."
Veja ainda: 'Você acredita em Comissão da Verdade?', questiona Bolsonaro
A Procuradoria ressalta que o relatório final da Comissão Nacional da Verdade (CNV) é um "documento legal produzido para elucidar fatos que possuíam versões conflitantes". Nele, aponta a PFDC, consta que o desaparecimento forçado de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira foi investigado pela CNV e, anteriormente, pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos e pela Comissão de Anistia. "À época, o pai do presidente da OAB era funcionário público, com emprego fixo e integrava a Ação Popular. Ao contrário de outros militantes da época, não estava na clandestinidade. Também não consta registro nessas comissões de que tivesse tido participação em algum ato da luta armada."
Leia também
A Comissão Nacional da Verdade concluiu que Fernando Santa Cruz foi “preso e morto por agentes do Estado brasileiro e permanece desaparecido, sem que os seus restos mortais tenham sido entregues à sua família”, recorda a nota. Nesta terça, Bolsonaro chamou tais provas de balela.
A PFDC conclui afirmando que não há sigilo sobre esses dados, conforme a Lei de Acesso à Informação, e que a Constituição exige do Chefe de Estado que aja com moralidade, legalidade, probidade e respeito aos direitos humano
















