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Saúde, educação e impostos: veja como programa anticrise de Renan atinge o seu bolso

Presidente do Senado deve apresentar, nesta segunda (17), cronograma da Agenda Brasil

Brasil|Do R7

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Dilma disse ter "grande interesse" em pacote anticrise apresentado por Renan
Dilma disse ter "grande interesse" em pacote anticrise apresentado por Renan

Mais impostos sobre transmissão de herança, dificuldade de recorrer à Justiça para conseguir tratamento de saúde, maior participação do setor privado — pago a partir de financiamento — na educação. A Agenda Brasil, proposta pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), como uma forma de se aproximar da presidente Dilma Rousseff, tem pontos que atingem diretamente o cidadão.

A forma como as propostas, que também incluem reformas burocráticas, vão ser discutidas e tramitar no Congresso deve ser definida a partir desta segunda-feira (17).


O ponto mais polêmico — a possibilidade de pagamento ao SUS (Sistema Único de Saúde) de acordo com faixa de renda — foi retirado da lista de propostas de Renan, após discussão com outros senadores.

Ainda assim, consta do documento o seguinte ponto: “Aperfeiçoar o marco jurídico e o modelo de financiamento da saúde. Avaliar a proibição de liminares judiciais que determinam o tratamento com procedimentos experimentais onerosos ou não homologados pelo SUS”.


Se posta em prática, a medida praticamente impossibilita que pessoas que tenham doenças raras ou seus familiares recorram à Justiça para que o Estado pague tratamentos de alto custo que ainda não constam do procedimento do SUS.

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O médico e jurista Sílvio Eduardo Valente, presidente da Comissão de Direito Médico da OAB-SP, afirma que o assunto é delicado e dificilmente pode ser resolvido numa “canetada”.


— A judicialização da saúde é um tema complexo. Pedidos urgentes chegam frequentemente aos juízes. E são eles que têm que decidir se o Estado tem ou não de pagar por um tratamento novo que pode salvar uma vida. Acho difícil baixar uma lei proibindo liminares do tipo. Como fazer isso? O cidadão tem o direito de pedir que a Justiça decida, com urgência, a respeito um tratamento urgente.

Valente afirma que boa parte dos pedidos é deferida atualmente. E diz que, no primeiro semestre, o assunto foi debatido pelo Tribunal de Justiça de São Paulo.

— Cerca de 88% desses pedidos são deferidos. Isso foi discutido recentemente na 2ª Jornada de Direito da Saúde, organizada pelo TJ-SP. Foi um evento grande, com presença do presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), Ricardo Lewandowski. E algumas diretrizes para julgamentos do tipo foram aprovadas. Não são jurisprudências, mas recomendações que podem ajudar os juízes a decidir os casos. Acho que isso é mais efetivo do que a proposta do Renan.

Herança

Outro ponto da Agenda Brasil que pode afetar diretamente os cidadãos é o aumento da tributação sobre heranças. “Revisar resolução do Senado que regula o imposto sobre heranças, sobretudo quanto ao teto da alíquota, levando-se em conta as experiências internacionais (convergir com média mundial)”, diz o texto.

Originalmente, o documento citava o percentual de 25% como sendo a média mundial. A cifra foi retirada na segunda versão. Hoje no Brasil a taxa varia de Estado para Estado. A média é 3,86%, de acordo com levantamento feito pela consultoria EY (antiga Ernest & Young) no primeiro semestre, a pedido do jornal O Estado de S. Paulo. O teto, de 8%, é cobrado em apenas três Estados — Bahia, Ceará e Santa Catarina. Na França, segundo a consultoria, a taxa máxima é de 60%. Alemanha, Suíça e Japão chega a 50%.

O professor Paulo Feldmann, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP (Universidade de São Paulo) acredita que a medida é bem-vinda.

— É uma questão de justiça tributária. Os Estados arrecadam hoje cerca de R$ 4,5 bilhões com o imposto. Se a alíquota fosse igual à de países desenvolvidos, teríamos uma arrecadação de cerca de R$ 45 bilhões. E esse imposto afeta quem tem dinheiro. A população mais pobre não deixa herança. Muitas vezes, chega a deixar dívidas.

Feldmann afirma que, a partir da proposta, pode também ser discutida a federalização do tributo.

— É um imposto semelhante ao Imposto de Renda. Não incide sobre a renda, mas incide sobre o patrimônio.

Financiamento estudantil

Um terceiro ponto, colocado de forma bem genérica na Agenda Brasil, que pode afetar diretamente o cidadão diz respeito ao financiamento estudantil. O professor Luiz Araújo, da Faculdade de Educação da UnB (Universidade de Brasília), acredita que o programa de Renan é contraditório.

— Existe uma lógica no conjunto das propostas da Agenda Brasil. Ela representa o destravamento de pautas empresariais. Na primeira versão, a área educacional aparecia apenas em um ponto bastante genérico, que permitia várias interpretações. Na segunda, as coisas ficaram mais explícitas e contraditórias. Há duas propostas interligadas: a primeira é de "equilibrar programas universais com a necessidade de focalização (Fies, Pronatec)" e a segunda é a de "ajustar o acesso à educação nos programas de financiamento público, assegurando sua sustentabilidade".

A questão da sustentabilidade do financiamento, para Araújo, faz parte da demanda empresarial.

— De que sustentabilidade o texto está falando, posto que é palavra que permite variadas interpretações? Há um temor no meio empresarial que o Fies [sistema de financiamento federal a estudantes matriculados em faculdades privadas] sofra descontinuidade devido ao ajuste fiscal e queda na arrecadação. Por isso, pedem sustentabilidade. Ou seja, garantias de durabilidade dos padrões atuais de financiamento. Qual é o problema? A educação é pública e o plano nacional de educação obriga que a oferta de ensino superior duplique na próxima década e que 40% destas novas vagas sejam públicas. Ou seja, quanto mais vagas públicas, menos vagas privadas.

Segundo Araújo, em outros pontos das áreas sociais da Agenda Brasil aparece claramente a intenção de entregar fatias dos serviços públicos ao setor privado.

A reportagem questionou, na quinta-feira (13), à presidência do Senado sobre mudanças entre a primeira e a segunda versão da Agenda Brasil, mas não obteve resposta.

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