Seita do chá com sede em Brasília cresceu 35,6% em seis anos e reforça influência política
União do Vegetal faz uso de bebida polêmica e tem 217 núcleos espalhados pelo mundo
Brasil|Juca Guimarães, do R7

Em 2011, quando completou 50 anos de existência, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal tinha 160 núcleos e planejava um expansão internacional, que já tinha começado em 1993, com a criação do primeiro pré-núcleo na Califórnia (EUA). Atualmente, a União do Vegetal tem 217 núcleos, crescimento de 35,6% em relação a 2011. Além do Brasil e EUA, a seita tem unidades no Canadá, Portugal, Espanha, Suiça, Holanda, Austrália, Itália e Peru. São aproximadamente 25 mil sócios (termo usado para designar os frequentadores). A sede mundial da União do Vegetal fica em Brasília e a sua história é marcada por controversas, rupturas e influência política.
Nos rituais é consumida uma bebida chamada chá de hoasca feita por meio da fervura do cipó de mariri com folhas da chacrona, são plantas com substâncias alucinógenas, similar ao de outras bebidas ritualísticas como o Santo Daime e a ayauhasca. No Brasil, por meio de uma resolução do Conade (Conselho Nacional Antidrogas) de 2010, o consumo do chá só é permitido em rituais religiosos, seguindo uma rígida lista de limitações. Fora do contexto ritualístico, as plantas e o chá são considerados entorpecentes perigosos. A Polícia Federal já fez prisões, apreensões e incinerações relacionas à ayahuasca.
Proibido nos EUA
Até o final do mês, deve ser inaugurado o primeiro templo da União do Vegetal nos EUA. Lá a UDV está presente em sete estados (Colorado, Califórnia, Novo México, Flórida, Washington, Texas e Havaí). Em 1999, o chá da UDV foi proibido nos EUA, porém, depois de um processo que durou entre 2001 e 2006, a Suprema Corte americana liberou as atividades da seita brasileira nos EUA.
No Brasil, a União do Vegetal elaborou um anteprojeto de lei pela liberdade religiosa do hoasca em Rondônia. O projeto foi apresentado pelo deputado estadual Ezequiel Júnior (PSDC). A proposta que permite o transporte das plantas do chá por membros das seita, após cadastro nos órgãos ambientais. O projeto foi aprovado em dois turnos, mas recebeu o veto do governador Confúcio Moura (PMDB). O veto foi derrubado por unanimidade pela assembleia. A lei 3.653 foi publicada no dia 9 de novembro de 2015. Um mês depois, o próprio governador peemedebista emitiu a mensagem 238 (uma espécie de adendo à lei), garantindo a liberdade religiosa do uso do hoasca em todo o estado. Nas sessões de votação e nos bastidores, a presença dos representantes da União do Vegetal foi marcante.
A influência política da União do Vegetal em todo o país ganhou projeção após 1982, quando a sede da seita foi transferida para Brasília. É também um momento de ruptura. A União do Vegetal começou em 1961, com um pequeno grupo de seringueiros e camponeses liderados pelo Mestre Gabriel, em Rondônia. A popularização nos anos 70 gerou conflitos e deu origem a dois grupos antagônicos. Um com sede em Campinas e o outro em Brasília.
Fundo ligado ao Ministério da Justiça libera R$ 522 mil para pesquisa sobre ayahuasca
Em Campinas, o mestre Joaquim José Andrade Neto, um dos seguidores do mestre Gabriel, criou o Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal, para contrapor o "Centro Espírita" de Brasília que, segundo mestre Joaquim, é formado por políticos e advogados "mais preocupados em interesses pessoais do que com a religião". A corrente campineira da União do Vegetal tem como obra central o livro "Oaska - O Evangelho da Rosa", escrito pelo mestre Joaquim, cuja leitura é obrigatória para participar das sessões. Os novos membros são admitidos após uma entrevista. O Centro Espiritual Beneficente União do Vegetal não revela o número de membros ou total de sedes, mas afirma que tem representantes em diversos estados. Mestre Joaquim também é autor do livro "Meu amigo, o diabo". O texto de apresentação do livro define o autor como "diabólico eminente e de larga experiência". Outros livros do mestre Joaquim relacionam o chá de oaska com as obras do filósofo grego Sócrates e o escritor russo Tolstoi.
Já a vertente da União do Vegetal que se desenvolveu em Brasília não tem um livro sagrado. A doutrina se baseia nos ensinamentos orais passados pelos mestres aos discípulos e em hinos, que falam sobre as lições do mestre Gabriel e sobre personagens bíblicos como Jesus, Adão, Jó, Noé e também de religiões de matriz africana ou indígena como Iansã e Janaína.
Em comum, ambas correntes da União do Vegetal acreditam que o culto (e o consumo do chá) servem para uma evolução espiritual e autoconhecimento.
"Partido político"
Em Brasília, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal se estruturou seguindo o formato de organização similar a de um "partido político". Existe uma autoridade religiosa, o mestre geral, e um presidente, responsável pela gestão da seita. Ambos são eleitos com mandatos de três anos. O atual mestre geral é o Clóvis Cavalieri, que é coronel da reserva da aeronáutica e foi secretário de governo da prefeitura de Caruaru (PE), durante a gestão do prefeito Zé Queiroz (PDT). O presidente é o advogado Wladmir Fogagnoli Ferraz, sócio de um escritório de advocacia em Brasília. O presidente anterior e membro da cúpula da União do Vegetal é o jornalista James Allen Paranayba, chefe da assessoria de comunicação do Sema (Secretaria do Meio Ambiente) de Brasília, ex-coordenador de comunicação da liderança do PT no Senado (entre 2007 e 2009). Paranayba foi gerente de jornalismo da CNI (Confederação Nacional da Indústria) e também atuou como coordenador e consultor nos ministérios da Educação e dos Esportes.
O atual ministro da Justiça, Eugênio Aragão, ex-subprocurador do Ministério Público, foi membro da União do Vegetal até 2006 e chegou a ser diretor da seita. De acordo com a União do Vegetal, Aragão foi um sócio "responsável e prestativo".















