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Acordo Mercosul-UE pode elevar PIB do Brasil, mas expõe riscos à indústria nacional

Segundo especialistas, o país precisa investir em inovação e infraestrutura para se adequar a um mercado mais competitivo

Brasília|Débora Sobreira, do R7, em Brasília*

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • O acordo UE-Mercosul aguarda assinatura e promete ajustar a indústria brasileira a um novo mercado.
  • Brasil é visto como um dos principais beneficiários, com crescimento do PIB estimado em 0,46% devido ao acordo.
  • Parceria pode aumentar a variedade de produtos, mas gera preocupações sobre a competitividade da indústria nacional.
  • Especialistas alertam para os riscos da desindustrialização, que pode ser acentuada pela abertura do mercado.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Líderes do Brasil e da Europa: economia brasileira pode crescer 0,46% com o acordo Mercosul-UE Ricardo Stuckert / PR - 16.01.26

Enquanto o acordo comercial firmado entre Mercosul e União Europeia aguarda a assinatura da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, neste sábado (17), os setores brasileiros se preparam para se adaptar a um novo mercado.

Uma pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta o Brasil como o principal país a ser beneficiado pelo acordo, com a possibilidade de seu PIB (Produto Interno Bruto) crescer 0,46% — estimativa mais elevada do que a de outras nações envolvidas


Uma maior variedade de carnes, laticínios e produtos farmacêuticos está entre os efeitos esperados pela parceria.

Mas o que, por um lado, representa uma elevação da oferta de produtos nos estabelecimentos comerciais brasileiros, por outro, é motivo de preocupação para setores da indústria nacional frente a um mercado ainda mais competitivo.


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O processo pelo qual a indústria nacional perde importância no PIB de um país tem nome: desindustrialização. Para especialistas, essa já é uma realidade construída no Brasil, que pode ser intensificada mediante acordos. Diante disso, é necessário ter cautela para que uma oportunidade de expansão comercial não se torne uma ameaça no cenário interno.

Desaceleração interna

Engenheiro e presidente da Fiep (Federação das Indústrias do Paraná), Edson Vasconcelos reconhece os avanços trazidos pela parceria com a Europa. No entanto, ele teme o impacto sobre setores de maior tecnologia agregada, que podem perder espaço para produtos “similares europeus, produzidos em melhores condições de competitividade” e com redução tarifária.


O risco em questão é a diferença de mercado: enquanto a UE prioriza a exportação de bens industriais de alto valor agregado — como máquinas e equipamentos de transporte —, a exportação brasileira se concentra em commodities agrícolas e minerais. Caso não haja ganhos de produtividade, abre-se a possibilidade de uma desaceleração das indústrias nacionais.

Para o professor e cientista político Gustavo Castro, o risco ao Brasil não é o acordo em si, mas a falta de uma estratégia nacional clara. “Sem uma agenda consistente de produtividade, inovação, adensamento das cadeias produtivas, melhoria da infraestrutura e uma política macroeconômica menos hostil à produção, o Brasil tende a perder espaço industrial em um ambiente de maior abertura”, avalia.


Outro fator é a promessa do acordo de redução gradual das tarifas sobre 91% dos bens europeus em até 15 anos. Embora seja uma medida de longo prazo, gera uma mudança estrutural capaz de pressionar setores que já trabalham com condições desfavoráveis de competitividade. “Onde a indústria é mais fraca, o risco de perda de participação é maior”, observa Júlio Caires, especialista em direito empresarial e tributário.

Na visão dele, o acordo não seria causa de desindustrialização, mas poderia expor essa ameaça já presente no país. Caires ressalta que juros elevados, infraestrutura precária, custos logísticos elevados e baixo investimento em inovação já são uma realidade para a indústria local.

“Se o Brasil avançar em reformas e políticas industriais consistentes, o acordo pode se transformar em uma oportunidade de modernização e inserção mais qualificada da indústria nacional no comércio internacional. Caso contrário, tende a acelerar desequilíbrios já conhecidos”, salienta.

Necessidade de condições igualitárias

Especialistas acreditam que os impactos negativos não ocorrerão de forma generalizada. O risco é maior para segmentos nos quais o Brasil dispõe de menos tecnologia em comparação à Europa, como em partes da cadeia de produção de veículos e em setores de transportes.

Por outro lado, na visão do professor Gustavo Castro, o acordo pode gerar efeitos positivos para o investimento e a modernização produtiva no Brasil, em caso de redução de custo de insumos e bens de capital.

O presidente da Fiep, Edson Vasconcelos, acredita que o período de transição do acordo será importante para o Brasil definir medidas seguras à indústria. Para isso, ressalta a necessidade de condições igualitárias de competição ao setor. “Isso passa por questões essenciais como desburocratização, atualização dos processos de licenciamento, aumento da segurança jurídica e regulatória, previsibilidade fiscal, investimentos em infraestrutura e incentivos à modernização tecnológica e à inovação”, descreve.

Custo Brasil

O especialista Júlio Caires acredita que a principal tarefa do governo é a redução do “Custo Brasil”, termo usado para descrever o conjunto de despesas que geram desvantagem ao exportador brasileiro no mercado internacional. “Do ponto de vista tributário, é indispensável que a Reforma Tributária avance de forma efetiva, simplificando o sistema, reduzindo a cumulatividade e dando maior previsibilidade às empresas”, analisa.

Adaptação é a palavra-chave para as indústrias. Caires vê o investimento em eficiência operacional, tecnologia e aumento de valor agregado como uma estratégia essencial para as empresas, além da adoção de uma gestão tributária mais eficiente.

“O correto aproveitamento de créditos, o uso de regimes especiais, incentivos regionais e um planejamento tributário bem estruturado passam a ser decisivos para manter a competitividade diante de um ambiente mais aberto e competitivo”, afirma.

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*Estagiária do R7, sob supervisão de Letícia de Souza, editora de texto.

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