Alta do petróleo devido à guerra pode afetar passagens aéreas e de ônibus no Brasil
Conflito no Irã pressiona commodity e encarece querosene de aviação; setor rodoviário também sente reflexos da alta do diesel
Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília
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A escalada do conflito no Oriente Médio, com novos ataques do Irã contra países do Golfo nesta quarta-feira (18), acende um alerta para além da geopolítica: o impacto direto no bolso dos brasileiros. Especialistas ouvidos pela reportagem confirmam o risco, apontando que o efeito deve ser sentido primeiro nas passagens aéreas e, com algum atraso, também nas rodoviárias.
O motivo central é o petróleo, commodity altamente sensível a conflitos na região. Segundo a economista Ludmila Culpi, professora de Relações Internacionais da PUC-PR, o problema não se resume à produção iraniana, mas ao risco sistêmico.
“O verdadeiro gatilho é o Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. Se houver ameaça de bloqueio, o mercado reage imediatamente com o chamado ‘prêmio de risco geopolítico’”, explica. “Mesmo sem falta física de petróleo, o preço dispara por especulação nos mercados internacionais”, acrescenta.
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A professora e pesquisadora em economia da PUC-SP, Cristina Helena de Mello, reforça que o impacto já está em curso. “O barril já ultrapassa os 100 dólares, e a tendência é que não volte rapidamente aos níveis anteriores”, observa. “Não se trata de um movimento pontual, mas de uma dinâmica geopolítica mais ampla.”
Passagens aéreas mais caras
O aumento do petróleo atinge rapidamente o setor aéreo, já que o (QAV) querosene de aviação é um dos principais insumos das companhias. “O combustível representa entre 30% e 40% do custo total de um voo no Brasil”, destaca Ludmila Culpi. “Como as empresas não conseguem absorver aumentos de 20% ou 30%, o repasse para o consumidor é quase imediato.”
Cristina Helena de Mello é direta: “O repasse é, em grande medida, inevitável. O setor aéreo tem baixa concorrência em muitas rotas, o que facilita a transferência desse custo para o preço final das passagens”.
A especialista em Direito Aeronáutico Betânia Miguel Teixeira Cavalcante reforça que o problema é estrutural. “O combustível é atrelado ao preço internacional do petróleo e ao câmbio. Com a alta, o custo operacional sobe rapidamente, pressionando reajustes tarifários”, esclarece.
Além disso, há o efeito do dólar. “Para as companhias aéreas, de 50% a 60% dos custos são em dólar”, explica Culpi. “Elas pagam por um petróleo mais caro com uma moeda mais fraca. A passagem, consequentemente, explode.”
Impacto rodoviário
No transporte rodoviário, o impacto também existe, mas tende a ser mais gradual. “O diesel é a espinha dorsal do transporte rodoviário e representa entre 25% e 35% dos custos das viações. A diferença é que o repasse não é imediato, porque muitas tarifas são reguladas”, afirma Culpi.
Cristina de Mello explica esse atraso: “As empresas sentem o aumento na bomba, mas nem sempre conseguem repassar imediatamente ao consumidor, o que pressiona suas margens.”
Mesmo assim, o reajuste acaba chegando. “Há uma pressão natural para aumento das tarifas ao longo do tempo”, emenda.
As especialistas esclarecem que as empresas possuem mecanismos para tentar mitigar impactos, como contratos futuros de combustível (hedge), embora sejam limitados. “O hedge tem custo alto, não cobre 100% da operação e tem prazo de validade”, detalha Culpi. “Se o conflito se prolongar, o repasse ao consumidor é matematicamente inevitável.”
Betânia Cavalcante concorda: “Esses mecanismos ajudam a mitigar no curto prazo, mas não evitam reajustes em cenários de alta prolongada.”
Cristina de Mello acrescenta um ponto de atenção: “Em alguns casos, pode haver comportamento oportunista, com empresas ampliando margens além do necessário.”
A história se repete
Não é a primeira vez que conflitos externos elevam o custo do transporte no Brasil. A guerra da Ucrânia, em 2022, é um exemplo recente. “O barril saltou de US$ 80 para mais de US$ 120, e o querosene subiu cerca de 70% no Brasil”, lembra Culpi. “As passagens chegaram a dobrar em algumas rotas.”
Cristina Helena cita ainda choques históricos. “Sempre que há alta significativa do petróleo ou desvalorização cambial, o impacto sobre preços no Brasil tende a ser imediato”, sublinha.
Pressão prolongada
A duração do impacto depende da evolução do conflito. Se for pontual, o mercado pode se ajustar em semanas, mas o cenário atual preocupa. “Se houver bloqueio prolongado de rotas ou danos à infraestrutura, enfrentamos um déficit estrutural de oferta”, alerta Culpi. “Nesse caso, os preços altos podem durar meses ou anos.”
Cristina Helena reforça: “A tendência é que não seja um movimento de curto prazo. O cenário indica pressão prolongada sobre custos e preços no Brasil.”
No fim, a conclusão é clara: conflitos no Oriente Médio não ficam restritos à região. Como resume Culpi, “não existe distinção entre a guerra lá fora e o impacto no nosso bolso”.
No fim, a conclusão é clara — conflitos no Oriente Médio não ficam restritos àquela região. Como resume Culpi, “não existe distinção entre a guerra lá fora e o impacto no nosso bolso”.
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