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Analistas veem cálculo diplomático em discurso de Lula no Panamá para evitar conflitos

Em fórum internacional, presidente defende combate à fome e à desigualdade diante de líderes conservadores

Brasília|Mariana Saraiva, do R7, em Brasília

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Lula destaca a importância de combater a fome e a desigualdade no Fórum Económico Internacional na Cidade do Panamá.
  • O presidente propõe um protagonismo brasileiro na América Latina, desviando a lógica da guerra para uma guerra social.
  • A fala tem relevância diplomática, buscando integrar a América Latina como uma região estável e coordenada.
  • O sucesso da proposta dependerá de ações concretas, evitando que o discurso se torne apenas retórica diplomática.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Para especialistas, ao priorizar temas sociais, o Brasil evita o alinhamento automático a conflitos globais Ricardo Stuckert/PR- 28.01.2026

Em um ambiente marcado por tensões geopolíticas e pela presença majoritária de lideranças conservadoras, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva usou o palco do Fórum Econômico Internacional — América Latina e Caribe 2026 para reafirmar uma diretriz histórica da política externa brasileira: “a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome e a desigualdade”.

Para especialistas ouvidos pela reportagem, a declaração tem peso diplomático e político ao sinalizar o tipo de protagonismo que o Brasil busca exercer no continente.


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O encontro ocorreu na quarta-feira (28), na Cidade do Panamá, e foi organizado pelo CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina e Caribe), em parceria com o governo panamenho. O fórum reuniu autoridades políticas e representantes do setor econômico para discutir desafios estratégicos da região em um cenário internacional marcado por disputas comerciais, conflitos armados e instabilidade institucional.

Em seu discurso, Lula destacou que a realização do evento ocorre em um momento particularmente sensível para a América Latina e o Caribe, diante de transformações geopolíticas, econômicas e tecnológicas em escala global. O presidente também ressaltou o simbolismo do Panamá como sede do encontro. “Este é um verdadeiro ponto de união entre o Atlântico e o Pacífico”, afirmou.


Plano simbólico

Para o cientista político Gabriel Amaral, ouvido pela reportagem, o impacto da declaração não deve ser medido por efeitos práticos imediatos, mas pelo enquadramento político que ela propõe. Segundo ele, ao deslocar o conceito de “guerra” do campo militar para o social, Lula atua no plano simbólico e discursivo das relações internacionais. “Trata-se menos de alterar correlações de força no curto prazo e mais de redefinir o que passa a ser considerado um conflito legítimo”, analisa.

De acordo com o especialista, a fala ganha ainda mais relevância por ter ocorrido em um ambiente dominado por lideranças conservadoras, sem a intenção explícita de buscar adesão.


“O discurso reconhece os limites materiais do Brasil para influenciar disputas estratégicas de alta intensidade e opta por um terreno em que o país possui autoridade histórica e institucional”, ressalta. Nesse sentido, o efeito central seria tensionar narrativas baseadas exclusivamente no uso da força e ampliar a legitimidade de agendas sociais no debate regional.

Ao priorizar temas como fome e desigualdade, o Brasil também evita se alinhar automaticamente a conflitos externos de grande escala. “Esse enquadramento não redefine o sistema internacional nem elimina pressões externas, mas permite ao país sustentar uma postura de interlocução ampla, preservando margens diplomáticas importantes”, frisa.


Para o analista, a declaração pode ser lida como uma crítica indireta à lógica que orienta parte das intervenções internacionais contemporâneas, sem a personalização de atores ou países. “A crítica incide sobre o diagnóstico estrutural, não sobre decisões pontuais. Isso reduz o risco de confrontos diretos e mantém canais de diálogo abertos”, pontua.

Diplomacia de estabilidade

Na avaliação do internacionalista João Alfredo Nyegray, a fala de Lula carrega múltiplos pesos diplomáticos. Segundo ele, ao defender integração regional e rejeitar a lógica da guerra em um fórum político-econômico, o presidente brasileiro sinaliza qual ordem internacional o país pretende reforçar. “Ao afirmar que a ‘única guerra’ deve ser contra a fome e a desigualdade, Lula tenta reposicionar a América Latina como uma zona de previsibilidade em um mundo marcado por coerção, protecionismo e rivalidade estratégica”, afirma.

Para Nyegray, trata-se de um movimento típico de uma potência média. “O Brasil não compete por projeção militar, mas por capacidade de coordenação, redução de riscos e construção de consensos mínimos que garantam o funcionamento do comércio, dos investimentos e das cadeias logísticas”, destaca.

O fato de o discurso ter sido feito diante de lideranças de direita, segundo o internacionalista, tende mais a ampliar o alcance diplomático do que a elevar riscos, desde que haja coerência entre discurso e prática. “Isso sinaliza disposição para uma relação de Estado, e não apenas ideológica, facilitando cooperação em temas sensíveis como segurança pública, infraestrutura, energia e combate ao crime organizado”, observa.

Ainda assim, ele reconhece a existência de riscos. Internamente, o gesto pode ser interpretado como concessão simbólica por determinados atores políticos. Externamente, adversários podem explorar ambiguidades para classificar o Brasil como excessivamente normativo em um mundo mais pragmático. “Mas falar a públicos ideologicamente diversos é justamente o que caracteriza uma diplomacia com pretensão de influência regional”, argumenta.

Alta carga simbólica

Por fim, Nyegray avalia que a comunidade internacional tende a interpretar a fala como um posicionamento estratégico com alta carga simbólica, e não como um discurso vazio. “A ideia de ‘guerra contra a fome e a desigualdade’ é facilmente exportável como narrativa, mas ganha densidade estratégica quando associada a instrumentos concretos, como integração física, financiamento regional, conectividade e comércio baseado em regras”, argumenta.

Segundo ele, o discurso se tornará testável à medida que o Brasil avançar em entregas concretas. “Se houver resultados, a sinalização se torna crível. Caso contrário, corre o risco de ser apenas mais um ritual diplomático latino-americano.” A expectativa de encontros internacionais nos próximos meses, inclusive com lideranças de peso no cenário global, adiciona uma camada extra de cálculo estratégico à fala do presidente.

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