Caso Ana Lídia completa 50 anos nesta segunda; relembre outros crimes marcantes em Brasília
R7 compilou episódios de destaque da história do DF: jornalista Mário Eugênio, indígena Galdino Santos, 113 Sul e Lázaro Barbosa
Brasília|Giovanna Inoue, do R7, em Brasília

Brasília não é conhecida como uma cidade perigosa, mas reúne alguns casos policiais de destaque ao longo de seus 63 anos de história (veja mais abaixo). O parque recreativo Ana Lídia, dentro do Parque da Cidade, recebeu esse nome para homenagear uma menina que foi assassinada aos 7 anos. O crime brutal completa 50 anos nesta segunda-feira (11).
Em 11 de setembro de 1973, Ana Lídia Braga, então com 7 anos, desapareceu a caminho do colégio em que estudava, na via L2 Norte. A polícia foi notificada e começou a busca pela criança. A família chegou a receber dois telefonemas e uma carta para exigir dinheiro em troca do resgate, mas a garota não foi recuperada.
• Compartilhe esta notícia no WhatsApp
• Compartilhe esta notícia no Telegram
O corpo de Ana Lídia foi encontrado em uma vala rasa no dia seguinte, entre a avenida das Nações e a Universidade de Brasília (UnB). Ela estava nua e com o cabelo cortado e indícios de violência física e sexual. Os peritos estimaram que a criança havia sido morta por volta das 6 da manhã do dia 12.
O inquérito policial apontou como responsáveis pelo crime o irmão mais velho da vítima, Álvaro Henrique Braga, e o conhecido da família e funcionário público Raimundo Lacerda Duque, que tinha 30 anos à época. Duque era conhecido por usar entorpecentes e fugiu assim que as investigações o apontaram como suspeito do crime, mas foi preso no Pará.
Já Álvaro Henrique, que tinha 18 anos quando a irmã foi assassinada, era estudante e, segundo a polícia, tinha dívidas com traficantes. O sequestro da irmã supostamente ajudaria a pagar os débitos. Ele e Duque foram presos, mas absolvidos por falta de provas, em outubro de 1974.
Falhas na investigação
Diversas falhas na investigação da polícia levaram à falta de provas para que eles permanecessem presos, como:
• o álibi apresentado por Álvaro durante o sequestro não foi averiguado;
• a perícia não analisou o sêmen encontrado no corpo da vítima; e
• não foi feito exame grafotécnico para comparar a escrita dos suspeitos com a carta de resgate.
A história se complicou quando uma nova testemunha sugeriu uma possível ligação entre o irmão de Ana Lídia e Alfredo Buzaid Jr., o Buzaidinho, filho do ministro da Justiça à época do crime, e Eduardo Rezende, filho do senador Eurico Rezende.
A acusação mostrou que eles estariam envolvidos com o tráfico de drogas e, por consequência, com a morte de Ana Lídia. Por esse motivo, o Ministério Público pediu à Polícia Federal para investigar o tráfico em Brasília, mas o Ministério da Justiça não permitiu a investigação.
Processo reaberto em 1985
Em 1975, após Álvaro Henrique e Duque terem sido soltos por falta de evidências, Buzaidinho morreu, aos 19 anos, em um acidente de carro. Dez anos depois, em 1985, o processo foi reaberto por terem surgido novas informações sobre o assassinato de Ana Lídia e, no ano seguinte, foi realizada uma exumação no corpo do filho do ministro.
Entretanto, quando exumaram o cadáver, tratava-se de Felício Buzaid, o avô do acusado, falecido em 1966. Uma segunda exumação foi solicitada, mas os peritos não puderam realizá-la, pois a arcada dentária do corpo havia sido removida, o que impossibilitou o teste.
O crime de Ana Lídia prescreveu na década de 1990, e ninguém responde por ele.
Mário Eugênio
Mário Eugênio Rafael de Oliveira era repórter policial do Correio Braziliense, formado pela UnB e conhecido como "Gogó das Sete", nome do programa que apresentava na Rádio Planalto. Ele investigava violações de direitos humanos, prisão ilegal, tortura e divisões na cúpula da Secretaria de Segurança Pública.

O repórter era conhecido pelo bordão "Aqui a notícia é do tamanho da verdade. Doa a quem doer!". Mário foi assassinado em 1984, aos 31 anos, na saída do trabalho, por agentes da polícia após ter feito denúncias sobre a atuação de um esquadrão da morte em Brasília que envolvia a cúpula da segurança do Distrito Federal.
O plano para matar o jornalista foi arquitetado durante um churrasco e chamado de "Operação Leite". O inquérito policial apontou sete suspeitos de envolvimento no assassinato.
Como mandante e intermediário, estavam o secretário de Segurança Pública do DF, coronel Lauro Melchiades Rieth, e o delegado coordenador da Polícia Especializada, Ary Sardella, mas as denúncias foram arquivadas.
Três militares do Exército foram indiciados: o sargento Antônio Nazareno Mortari Vieira e os cabos Aurelino Silvino de Oliveira e David Antônio do Couto. Também foram apontados os agentes de polícia Iracildo José de Oliveira e Divino José de Matos, conhecido como Divino 45 e acusado de ter feito os disparos.
Indígena Galdino
Cinco jovens atearam fogo no indígena pataxó Hã-Hã-Hãe Galdino Jesus dos Santos, de 44 anos, enquanto ele dormia numa parada de ônibus, na 703 Sul, em 20 de abril de 1997. Ele tinha ido a Brasília para participar das comemorações do Dia do Índio, que passou a ser chamado de Dia dos Povos Indígenas em 2022. Galdino teve 95% do corpo queimado e não sobreviveu aos ferimentos, falecendo horas depois.

Os criminosos, que tinham entre 17 e 19 anos, afirmam que estavam apenas "brincando" e que atearam fogo ao índigena por acreditarem que "era um mendigo". Em 2001, quatro deles foram condenados a 14 anos de prisão por homicídio qualificado e foram soltos em liberdade condicional em 2004, enquanto o menor de idade cumpriu quatro meses de medidas socioeducativas.
O assassinato de Galdino aconteceu um dia depois da data em que é celebrado o Dia dos Povos Indígenas e teve repercussão em todo o país. Neste ano, no mês de aniversário da morte do indígena, uma praça próxima ao local do crime foi renomeada para praça do Índio Pataxó Galdino Jesus dos Santos em homenagem a ele.
113 Sul
Em 31 de agosto de 2009, o ministro aposentado do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela, a esposa dele, Maria Villela, e a empregada doméstica Francisca Nascimento foram encontrados mortos em um apartamento do bloco C da 113 Sul, em Brasília. Os corpos tinham recebido 78 facadas no total e estavam em estado de decomposição. O crime tinha acontecido três dias antes.

A filha do casal, Adriana Villela, foi condenada por ser a mandante do crime dez anos depois, em 2019. Esse caso ficou conhecido como o Crime da 113 Sul e culminou no julgamento mais longo da história de Brasília.
A investigação foi cercada por interesse midiático e controvérsias. A delegada do caso, Martha Vargas, ouviu uma "vidente" como parte do inquérito, plantou e alterou provas, inseriu informações e declarações falsas que geraram relatório distorcido e incriminou inocentes. Em agosto de 2016, ela foi condenada a mais de 16 anos de prisão por falsidade ideológica, fraude processual, violação de sigilo funcional e tortura.
Na mesma época, o agente da Polícia Civil José Augusto Alves, que também participou das investigações do caso, foi condenado a três anos, um mês e dez dias de reclusão pela prática do crime de tortura.
Após uma troca no comando das investigações e depois de mais de um ano de apuração, foram presos por confessar o triplo assassinato:
• Leonardo Campos Alves, ex-porteiro do prédio onde o casal morava;
• Paulo Cardoso Santana, sobrinho de Leonardo; e
• Francisco Mairlon Barros Aguiar.
Em 2012, os assassinos confessos do casal e da empregada doméstica foram condenados a 55 anos de prisão pelo júri popular.
O julgamento de Adriana Villela começou em 23 de agosto de 2019 e durou dez dias, com um total de 103 horas. No fim, ela foi condenada a 67 anos e 6 meses de reclusão em regime fechado, com diminuição para 61 anos e 3 meses após recurso. Recentemente, a defesa de Adriana recorreu ao Superior Tribunal de Justiça e pediu um novo julgamento. Ela aguarda em liberdade.
Lázaro
Em 2021, Lázaro Barbosa de Souza, de 32 anos, ficou conhecido como "Maníaco do Centro-Oeste" após a chacina de uma família no Distrito Federal. O crime violento deixou o pai e dois filhos mortos em casa, enquanto a mãe foi sequestrada, morta e deixada perto de um córrego. Após o crime, Lázaro fugiu para o município de Cocalzinho de Goiás (GO).

Após 20 dias de perseguição, ele foi capturado e morto por policiais no interior de Goiás, em 27 de junho.
Além da chacina da família, Lázaro era acusado de diversos casos de roubo, estupro e homicídio. Entre as evidências encontradas estão materiais ritualísticos, além do depoimento de reféns que reforçam o comportamento de fanatismo do serial killer.













