Crise entre EUA e Irã deve gerar pressão diplomática ao Brasil e aumentar custos políticos
No último sábado (28), Estados Unidos e Israel lançaram ataques contra o Irã sob a justificativa de ameaça à segurança
Brasília|Giovana Cardoso, do R7, em Brasília
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Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7
O conflito entre os Estados Unidos e Irã pode gerar uma pressão diplomática no Brasil, que mantém parceria com o ocidente e países do Sul Global.
A análise, feita por especialistas ouvidos pelo R7, considera a tentativa do governo brasileiro de negociar as tarifas impostas pelo presidente Donald Trump e outros acordos bilaterais, além do cenário envolvendo os Brics, que têm os iranianos como parceiros.
A economista e coordenadora dos cursos de negócios internacionais e relações internacionais da PUCPR, Patricia Tendolini, entende que o Brasil sofreria pressão dos seus parceiros do Sul Global e dos EUA para se posicionar, o que promoveria custos políticos para o governo brasileiro em qualquer cenário.
“Num ambiente de maior incerteza sistêmica, potências médias como o Brasil tendem a adotar hedging [estratégia racional de equilíbrio cauteloso], evitando comprometer-se plenamente com qualquer polo”, explica.
Tradicionalmente, o Brasil mantém uma orientação de política externa para ser um conciliador e apostar em soluções diplomáticas, sendo um grande defensor do multilateralismo.
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No sábado (28), quando a escalada no Oriente Médio se intensificou, o Ministério das Relações Exteriores divulgou dois comunicados condenando e expressando grave preocupação com os acontecimentos.
No primeiro, o governo brasileiro condenou a ação dos americanos e israelenses contra o Irã. No segundo, se solidarizou com os países atingidos pelo Irã.
“O Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional e exerçam máxima contenção, de maneira a evitar a escalada de hostilidades e a assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil.”
Segundo a professora de relações internacionais Ludmila Culpi, a crise amplia a complexidade do posicionamento brasileiro em fóruns multilaterais e na condução de sua política externa, uma vez que conflitos dessa natureza mobilizam debates sobre soberania, uso da força, sanções e segurança internacional.
“Países com tradição de defesa de soluções negociadas, como é o caso do Brasil, podem ser pressionados a adotar posicionamentos públicos em organismos internacionais ou a calibrar discursos e votos de modo a preservar relações com diferentes parceiros estratégicos”, comenta.
O lado econômico conta
Professora do curso de relações internacionais da ESPM, Mariana Oreng lembra que a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados discute a convocação do ministro Mauro Vieira para explicar a posição do governo de Lula sobre as tensões na região. Nessa segunda-feira (2), o embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam, agradeceu publicamente a postura adotada pelo governo brasileiro.
“De maneira geral, a posição do Brasil segue coerente com sua tradição diplomática. O país continua defendendo o multilateralismo, a soberania dos Estados e os valores clássicos da diplomacia internacional”, observa a especialista.
Por outro lado, um posicionamento mais contundente pelo Brasil teria potencial desastroso do ponto de vista diplomático e da geopolítica, mas também econômico.
“O Brasil ocupa hoje uma posição estratégica em temas ligados à segurança econômica e tecnológica. O país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, o que o torna um ator importante na tentativa de diversificação das cadeias globais de suprimento fora da China, que ainda concentra grande parte da capacidade de produção desses minerais”, explica Oreng.
O próprio governo brasileiro chama essa disputa de uma “busca por liderança científico-tecnológica em escala global”. A professora cita outros momentos históricos em que o Brasil esteve inserido nesse tipo de dinâmica estratégica, como a Guerra Fria.
“Por isso, qualquer mudança mais forte de posicionamento diplomático precisa considerar não apenas a dimensão política do conflito, mas também seus possíveis impactos econômicos e estratégicos no longo prazo”, opina Oreng.
Ataque israelense em Teerã
O conflito entre Israel e Irã ganhou novo capítulo com o ataque israelense a instalações nucleares iranianas. A ofensiva ocorreu na madrugada de sexta-feira (13), no horário local
Divulgação/Mostafa Meraji/Unsplash
Irã x EUA
O conflito entre os EUA e o Irã tomou uma proporção maior durante a guerra em Gaza, quando o grupo terrorista Hamas foi financiado por iranianos. No ano passado, Trump retomou a campanha contra Teerã, ao mesmo tempo em que iniciou negociações relacionadas ao programa nuclear iraniano.
A tensão aumentou ainda mais após a Agência Internacional de Energia Atômica declarar que o Irã estava violando suas obrigações de não proliferação pela primeira vez em 20 anos. Na sequência, o governo abriu um local secreto para enriquecimento de urânio. No dia seguinte, Israel realizou um ataque nuclear.
Após uma semana de ataques aéreos entre Israel e Irã, os Estados Unidos decidiram intervir e atacaram três instalações nucleares iranianas em Fordow, Isfahan e Natanz, em junho de 2025.
Segundo o governo Trump, os ataques prejudicaram a capacidade do Irã de obter urânio enriquecido para armas, mas o chefe da agência nuclear da ONU avaliou que o programa sofreu um atraso de alguns meses.
Após esses ataques, autoridades americanas e iranianas tentaram negociar a questão nuclear, mas não houve consenso. A falta de progresso levou os EUA a lançar novos ataques contra o Irã no último fim de semana, sob a justificativa de ameaça à segurança dos americanos.
Segundo Trump, os ataques ao Irã foram para impedir o desenvolvimento nuclear de Teerã e um programa de mísseis balísticos que, segundo ele, estava crescendo rapidamente.
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