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Do tatame simples ao pódio nacional: projeto de jiu-jítsu da Granja do Torto revela campeões

A Associação Acreditar promove disciplina, inclusão, autoestima e novas perspectivas de futuro por meio das artes marciais

Brasília|Victória Olímpio, do R7, em Brasília

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Equipe do projeto social de jiu-jítsu desenvolvido na Granja do Torto, em Brasília Imagem cedida ao R7/Arquivo Pessoal

Um projeto social de jiu-jítsu desenvolvido na Granja do Torto, em Brasília, tem chamado atenção pelo crescimento e pelos resultados expressivos em competições nacionais. Mesmo funcionando em um espaço simples e com estrutura limitada, a Associação Acreditar já formou atletas que conquistaram medalhas em campeonatos de alcance nacional, levando o nome da comunidade para o pódio.

Criado pelo professor Sensei Renne Domingos, o projeto foi iniciado em 2015, após sua recuperação de um tratamento contra o câncer. Com 100% de resultado, ele decidiu ensinar o esporte e começou as aulas na quadra de esportes da cidade até conquistar o espaço no Setor de Campo de Futebol Pinheirão, onde acontecem os treinos atualmente. Sem verba governamental, o Acreditar se mantém com doações e a união dos pais e da comunidade.


Ele aponta que também se formou por um projeto social e atualmente, a Acreditar significa tudo para ele: “meus sonhos estão aqui. É o lugar onde ensino e aprendo todo dia a ser uma pessoa melhor, um cidadão consciente que possa somar na sociedade. Nem nos meus melhores sonhos imaginei que chegaria a esse ponto. Porque mesmo no nosso espaço limitado e simples já estamos em campeonatos de alto rendimento com resultados extraordinários!”.

A formação de caráter para ele é nítido nos alunos, no sentido de entender mais a realidade onde vive, respeitando os valores, entendendo que tem deveres a cumprir em sociedade. A autoestima também é um ponto destacado pelo sensei: “Começam acreditar mais neles mesmos. Quando as professoras da escola começaram a elogiar a mudança no comportamento dos alunos que eram considerados mais problemáticos, percebi que o esporte poderia ir além da competição e virar uma ferramenta social”.


“Atualmente estamos sonhando com o banheiro e vestiário que não temos, precisamos fechar o espaço porque fica à deriva, vivemos de doações e não temos ajuda governamental. Sonho de levar mais atletas da equipe aos campeonatos de alto rendimento a nível nacional e internacional. Quero colocar mais modalidades no projeto, como música, informática e yoga” finaliza o Renne sobre o futuro.

Formação dentro e fora do tatame

A atleta foi sozinha para o Sul-Americano, em Barueri, São Paulo Imagem cedida ao R7/Arquivo Pessoal

A iniciativa atende 90 pessoas, entre crianças, adolescentes e jovens, muitos em situação de vulnerabilidade social. Além do esporte, o projeto promove disciplina, inclusão, autoestima e novas perspectivas de futuro por meio das artes marciais. A atleta Ana Clara Fernandes, de 19 anos, começou os treinos em abril de 2025 após uma aula experimental ao lado da irmã. Com menos de dois meses veio a primeira competição e apesar de não ter um resultado como esperado, a jovem não desanimou e continuou os treinos. Atualmente ela já participou de 10 campeonatos em 10 meses e em apenas dois não conseguiu pegar o pódio.


“Tenho a sorte de contar com grandes amigos que acreditam no meu trabalho e no meu potencial, e que hoje são meus patrocinadores. Eles têm um papel fundamental na minha trajetória, me ajudando principalmente a custear as inscrições dos campeonatos, o que me permite estar competindo com mais frequência e evoluindo no esporte”, conta Ana Clara.

Os custos da competição nem sempre são viáveis para os atletas, que contam com ajuda de incentivos do governo. “Para as viagens, conto com o apoio do Compete Brasília, que é um programa de incentivo ao esporte do Governo do Distrito Federal. Esse programa é essencial para muitos atletas, porque viabiliza a participação em competições importantes, tanto no cenário nacional quanto internacional. Sem esse apoio, muitas oportunidades simplesmente não seriam possíveis. Tenho o sonho de poder conhecer o mundo lutado, e tenho grandes expectativas, sei que treinando e me dedicando bastante posso crescer muito no jiu-jítsu”, relata.


Os custos da competição nem sempre são viáveis para os atletas, que contam com ajuda de incentivos do governo Imagem cedida ao R7/Arquivo Pessoal

A primeira competição nacional ocorreu em novembro do último ano, onde a atleta foi para o Sul-Americano, em Barueri, São Paulo. Mesmo viajando sozinha e sendo a única atleta da associação a participar, o foco e responsabilidade levaram a jovem a ficar em terceiro lugar. “Competir um campeonato Sul-Americano me colocou frente a atletas de alto nível e me mostrou, na prática, onde eu estou hoje e onde posso chegar dentro do jiu-jítsu”.

“Em janeiro viajei para Florianópolis, Santa Catarina. Novamente fui sozinha e com muita dedicação, fui campeã Sul Brasileiro em primeiro lugar. Novamente uma grande experiência, onde pude absorver bastante conhecimento para as próximas competições. Estou muito feliz com os resultados que venho tendo. Já é meu segundo ouro de 2026 e estou bastante ansiosa para as próximas competições”, desabafou.

Mesmo funcionando em um espaço simples e com estrutura limitada, a Associação Acreditar já formou diversos atletas Imagem cedida ao R7/Arquivo Pessoal

Fortalecimento da autoestima

Para Isabel Cristina Ribeiro, psicóloga clínica, especialista em Gestalt-Terapia, todo esporte pode apoiar no desenvolvimento de habilidades socioemocionais como autocontrole, e regulação emocional. Modalidades esportivas colocam a pessoa em situações de desafio, cooperação, frustração, conquista e exposição ao estresse de forma estruturada e segura, o que favorece o desenvolvimento de autocontrole, disciplina, tolerância à frustração, persistência e capacidade de lidar com emoções intensas.

“Iniciativas comunitárias desse tipo costumam gerar um impacto sistêmico que ultrapassa os alunos e alcança famílias e o território ao redor. Nos alunos, é comum observar melhora da autoestima, aumento da disciplina, redução de comportamentos impulsivos e ampliação da percepção de futuro. Nas famílias, muitas vezes há fortalecimento de vínculos, sensação de orgulho e melhora na organização da rotina. Já na comunidade, esses projetos podem funcionar como espaços seguros de convivência, fortalecer redes de apoio e criar referências positivas de liderança local”, aponta a especialista.

Segundo ela, em muitos contextos, projetos esportivos comunitários acabam funcionando como pequenos territórios de proteção social e emocional, contribuindo para o desenvolvimento individual e coletivo. Isabel coloca ainda que além do esporte poder funcionar como válvula de escape emocional, serve ainda como espaço estruturante de identidade e pertencimento. “O esporte oferece um canal legítimo para descarga de emoções, ao mesmo tempo, em que cria rotina, previsibilidade e sensação de progresso pessoal, fatores que são importantes protetores para a saúde mental. Esse efeito tende a ser ainda maior quando os projetos esportivos contam com adultos de referência consistentes, valores socioemocionais explícitos e continuidade no acompanhamento dos participantes”, finaliza.

Disciplina que começa na infância

O projeto também atende bebês, como Dom Cardoso Borges Amaral, de dois anos, o mais novo da turma. A mãe, Cecília Maria Cardoso Marques Borges, conta que ela e o marido, Daniel de Jesus Amaral, praticam o esporte e o filho está no tatame desde o início. “Descobri que estava grávida após uma competição e, desde então, sempre falamos que, quando ele crescesse, iríamos incentivá-lo a praticar o esporte. E assim foi: o Dom está no tatame desde pequenininho, mas os treinos começaram oficialmente quando ele tinha dois anos”

Junto do Sensei há nove anos, o casal relata que confia no trabalho, nos valores ensinados e sabem o quanto o projeto é sério e transformador. “Percebo que o Dom está ficando mais disciplinado e confiante. Mesmo sendo pequeno, ele já está entendendo a importância de ouvir, respeitar regras e ter paciência. Em casa, ele é mais focado, gosta de mostrar o que aprende no treino e entende melhor os limites. Na escola, vejo que ele é mais sociável, aprendendo a dividir, respeitar os colegas e lidar melhor com frustrações”.

A mãe relata que o jiu-jítsu ensina respeito, disciplina, humildade e perseverança. Com isso, ela diz que Dom está aprendendo que nem sempre vai ganhar, mas que precisa tentar, levantar e continuar. Também a respeitar os colegas, os professores e a acreditar nele mesmo. “Na primeira vez ele ficou observando as crianças um pouco maiores que ele e logo começou a querer imitar tudo o que faziam, desde as corridas até os rolamentos. Foi muito natural e divertido de ver”, relembra.

Cecília conta ainda que como mãe, é uma felicidade enorme saber que o filho está em um ambiente saudável, com bons exemplos, aprendendo valores para a vida. “Esse projeto representa oportunidade, esperança e transformação. Muitas famílias veem no esporte um caminho para tirar as crianças da ociosidade e aproximá-las de valores positivos. É um espaço de acolhimento, aprendizado e união para toda a comunidade”. O projeto não forma só atletas e sim cidadãos, o que para ela é o mais importante.

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