Brasília Duas chapas que se revezam no poder dominam eleições da OAB-DF

Duas chapas que se revezam no poder dominam eleições da OAB-DF

Cenário de eleições da OAB-DF promete disputa tradicional, mas não é possível descartar surpresas nos próximos 22 dias

  • Brasília | Luiz Calcagno, do R7, em Brasília

Cenário eleitoral na OAB é de disputa tradicional entre verdes e laranjas

Cenário eleitoral na OAB é de disputa tradicional entre verdes e laranjas

OAB/Divulgação

Em um cenário ainda aberto, o desenho da disputa pela presidência da Seccional do Distrito Federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) repete a tradicional corrida entre as chapas verde — Você na Ordem, encabeçada por Thais Riedel — e laranja — Avança + OAB, da situação, que aposta na reeleição de Délio Lins e Silva Júnior. Os dois grupos ocuparam os principais lugares nos pleitos dos últimos 10 anos. As outras três chapas terão até 21 de novembro para mudar esse desenho.

Em terceiro lugar na corrida, vem a chapa progressista Nossa Ordem é Democrática, encabeçada por Renata Amaral, que traz o peso político do bom desempenho no último pleito, em 2018. Disputa espaço com Renata o advogado Evandro Pertence, filho do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Sepúlveda Pertence, com a chapa Ouvir é Dever, que também busca os votos progressistas.

Em quinto e com o trajeto mais longo para percorrer na disputa vem o advogado Guilherme Campelo, sobrinho do ministro aposentado do TCU Valmir Campelo, com a chapa Movimento InovOAB. Com uma disputa equivalente a uma corrida de 100 metros rasos, ainda há chances de mudanças nos próximos dias, conforme destaca o advogado e analista político Isaac Simas, que fez um desenho do panorama das disputas na Ordem para o R7.

Ele destaca, por outro lado, que as três últimas chapas terão muito trabalho para virar votos e romper com a tradicional disputa entre verdes e laranjas. “De maneira geral, sempre vemos as duas chapas principais — hoje com o Délio e a Thais Riedel — na disputa. Por trás disso, vemos um grupo em volta de Ibaneis, governador e ex-presidente da OAB, que é o grupo que apoia a Thais Riedel. Desde a época que ele foi presidente da OAB, tem essa disputa. São os mais fortes. E os candidatos satélites não se sobressaem tanto”, avaliou.

Para o analista, o grupo de Thais Riedel vem mais forte do que na última disputa, e o resultado final, caso o cenário se mantenha, será de um vencedor com uma diferença pequena de votos em relação ao segundo lugar. A terceira força é Renata Amaral. “Possibilidade de mudanças, sempre há. Por mais que tenha tido uma certa influência no passado, é difícil ter uma virada tão grande de votos. Já tem uma predisposição de maioria. Mas um fato ou outro pode virar o jogo. Não podemos descartar. Se não acontecer nada de extraordinário, não haverá uma mudança muito forte”, opinou.

Observadores do processo eleitoral da OAB concordam com o panorama de Isaac, mas destacam que o movimento acelerado do atual presidente, Délio Lins e Silva Júnior, e da principal adversária de oposição, Thais Riedel, podem causar uma falsa impressão de que as demais chapas não estão se movimentando. Principalmente a que está em terceiro lugar.

Os grupos, no entanto, terão que se fazer conhecidos mesmo sem o poder econômico dos principais candidatos, que são acusados por adversários de promoverem festas para angariar votos, enquanto o pleito proíbe, por exemplo, impulsionamento de conteúdo por redes sociais, o que é mais barato, conforme destacaram, sob condição de anonimato, advogados das três principais chapas na disputa.

A questão da paridade

A chapa Nossa Ordem é Democrática terá um percalço a mais para vencer as eleições. O grupo de advogados é majoritariamente feminino, e enfrenta uma cláusula de barreira que obriga que as chapas sejam compostas por 50% de candidatos homens e 50% de mulheres. Não é possível descartar o risco de impugnação, embora o grupo argumente que a exigência não traz a prometida paridade.

“Essa paridade aprovada no Conselho Federal foi tida como um avanço. Mas a natureza da norma não pode ter como destino final o reconhecimento da desigualdade numérica. Tem que realizar equidade mínima, o que pressupõe a diversidade de pautas e as pautas de diversidade. Esse 50% tem que ser visto como um mínimo, e não como um máximo. Essas normas só se justificam se não se constituírem em um empecilho”, destacou Renata Amaral, ao R7.

Para a advogada, “impedir o registro de uma chapa a partir de uma regra numérica é admitir validade de teses absurdas de racismo reverso, que feminismo é antítese do machismo”. “A democracia paritária que se buscou preservar tem que ser real e eficaz, responsável e inclusiva. O movimento para nos impedir de participar pois temos mais mulheres na chapa, quando se tem um ambiente controlado por homens por anos, sem questionamento, beira o escárnio. Todos ganham com a inserção das mulheres na política”, afirmou.

Ela também questiona a repetição da disputa entre os principais candidatos. “Temos, há 20 anos, esses dois grandes grupos que se revezam à frente da instituição. Eles se dissociam dos interesses da advocacia real. São pessoas de poder econômico, ligadas a grupos políticos, e que investem muito dinheiro para ocupar esse espaço. Antes, as pessoas queriam saber o que tínhamos a dizer, a fazer, em um determinado caso concreto. Hoje, a sociedade não parece mais esperar da Ordem uma trincheira contra o arbítrio que vem crescendo em escala vertiginosa no país”, criticou.

Thais Riedel, que chegou a tentar compor um grupo com a chapa de Renata, concorda. “As mulheres tiveram um trabalho para conseguir uma cota de 50%, mas não ficou como cota mínima. Ficou um teto. Quando colocam 50% homem e 50% mulher, você limita a possibilidade de mulheres formarem maioria. Os homens sempre foram maioria e, agora, as mulheres não podem ser maioria? É o que acontece na prática”, disse.

Os principais opositores

Riedel também tenta se livrar da possível influência do governador Ibaneis Rocha na chapa verde. “Não existe essa ligação com o Ibaneis. Ele está cuidando do governo do DF e a ordem é uma instituição independente. Quando eu fui conselheira, ele era presidente, e tentam fazer associação, mas não há vinculação nesse ponto”, argumentou.

Para a advogada, há insatisfação com a atual gestão que, no entanto, é a favorita no pleito. Isso, somado ao tempo de campanha, poderá trazer mudanças e vantagens a outros candidatos. “A campanha começou na sexta passada. Ainda podem acontecer mudanças. O cenário está aberto. A maioria da advocacia não sabe em quem votar. Há uma insatisfação grande com a atual gestão. Não tenho dúvida que nossa chapa tem um dos melhores projetos para a classe”, disse.

Presidente da OAB-DF, Délio Lins pediu licença para disputar as eleições. Ele se esforça para manter uma postura de independência, ponto em que ataca Riedel. “Me afastei para ser candidato. Por coerência. Para dar mais transparência ao processo. Mas, no meu entendimento, não apareceram propostas. Para eles, qualquer coisa que acontece é culpa da OAB, mas propostas e soluções, nunca.”

Questionado sobre a polêmica das festas, ele atribuiu o evento a apoiadores. “Sempre criticamos a questão do abuso econômico. Conhecemos muita gente, temos muitos apoiadores. E temos apoiadores que fazem questão de reunir amigos em escritórios, nos mais variados locais. Somos contra o abuso de poder econômico na campanha. E somos contra o abuso de poder político também. A influência política. Tenho muito cuidado para não deixarmos nenhuma bandeira política entrar”, alfinetou.

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