Geopolítica, fiscalização e ambiente: entenda os ganhos e os riscos do acordo Mercosul-UE
Setores agrícolas e ambientalistas dos países europeus são principais entraves para definição do acordo
Brasília|Débora Sobreira, do R7, em Brasília*
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O fechamento do acordo entre o Mercosul e a União Europeia posiciona o Brasil como um dos maiores beneficiados economicamente pela nova configuração. Apesar da finalidade comercial, a movimentação dos dois continentes traz impactos que extrapolam os ganhos e riscos financeiros e coloca o país brasileiro sob atenção às questões diplomáticas e voltadas ao meio ambiente.
Esse espaço nos holofotes, para o cientista político e professor Gustavo Castro, pode ser tanto razão para vantagens quanto para alertas: adquirindo mais relevância no bloco, o Brasil também pode sofrer críticas mais duras do grupo europeu, principalmente nas temáticas ligadas a desmatamento, política ambiental e direitos indígenas.
“Enquanto países menores podem se beneficiar sem tanta visibilidade internacional, o Brasil arca com maior custo reputacional e diplomático”, comenta.
Mercado brasileiro em evidência
Em primeiro plano, a oportunidade oferece ao mercado brasileiro uma maior prateleira internacional. “Para o Mercosul, em especial para o Brasil, o principal ganho está no acesso ampliado e mais previsível a um mercado exigente, o que força avanços em padrão produtivo, governança e competitividade”, afirma o consultor financeiro Nathan Galdi Victor.
Ainda, segundo o economista Rodrigo Provazzi, diferentes setores como indústria de transformação, serviços, mineração e insumos serão beneficiados no processo.
“A indústria pode ter ganhos moderados em máquinas e equipamentos, mas enfrenta riscos em veículos, metalurgia e vestuário. Já os serviços devem crescer com expansão em consultoria, logística, tecnologia e transportes. Há também potencial para atração de capital externo, cooperação regulatória e transferência tecnológica, fortalecendo a competitividade brasileira em áreas estratégicas”, afirma.
O advogado especialista em direito internacional Pablo Sukiennik acredita que, em um cenário altamente tarifário e protecionista como o atual, países com um grande mercado interno como o Brasil aparecem com vantagem até mesmo dentro do próprio grupo. “A economia brasileira é diversificada e tem o maior parque industrial do bloco”, acrescenta.
Além disso, a estabilidade institucional de regras comerciais apresentada pelo mercado brasileiro o coloca em melhores condições de atrair fábricas europeias na busca por expandir seu mercado na América Latina.
Ganhos x riscos
O que está em jogo para grande parcela dos europeus contrários à decisão é o fortalecimento da concorrência: os produtos agropecuários sul-americanos contam com padrões ambientais menos severos para produção e preços menores para venda. Essas pressões locais, na visão do cientista político Gustavo Castro, são a motivação pelos votos contrários.
Para além disso, segundo o especialista, a União Europeia se encontra em uma busca por se estabelecer como liderança global na agenda ambiental e climática; caso não haja garantias sólidas de sustentabilidade por parte do Mercosul, o acordo pode atuar negativamente. “O impasse reflete tensões internas entre interesses econômicos, compromissos ambientais e pressões eleitorais”, complementa.
Independente do resultado, segundo Castro, a confirmação do acordo Mercosul-UE pode influenciar em alterações nos padrões internacionais de comércio, meio ambiente e regulação, estendendo as mudanças para os demais países competidores do mesmo mercado.
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Os impactos, segundo ele, avançam para além do eixo Mercosul-UE. “Ele sinaliza uma tentativa de revitalização do multilateralismo comercial em um cenário de fragmentação geopolítica e pode servir de modelo — ou de alerta — para futuros acordos entre grandes blocos regionais”.
A criação dessa nova área de livre comércio pode servir também para reduzir a dependência de grandes potências, como Estados Unidos e China, e do dólar, que pode não ser utilizado pela aliança. O desafio, no entanto, é que exista um entendimento nesse sentido, bem como reduzir a dependência da moeda americana sem que haja danos para os envolvidos.
Na visão do advogado Pablo Sukiennik, a resposta está numa atuação multilateralista, reforçando o poderio do bloco. “Na União Europeia, o Brasil, a Índia e a própria China têm peso muito importante. Se houvesse uma posição coordenada do multilateralismo, isso faria um contrapeso [aos EUA]”.
Fechamento do acordo
A reunião de representantes dos 27 Estados-membros da UE (União Europeia) chegou a uma decisão nesta sexta-feira (9). De acordo com fontes internas e apesar da resistência de países como França e Irlanda, o bloco atingiu o quórum, que exige 65% da representação do grupo, ou 15 países, e aprovou o acordo comercial com o Mercosul.
O acordo, que esteve em pauta por 25 anos, teve os votos formalizados pelos países membros do grupo europeu. O próximo passo é a assinatura pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e pelos países do Mercosul —Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, na próxima segunda-feira (12) em solo paraguaio, por ser o atual presidente do bloco.
O resultado ainda depende de aprovação no Parlamento Europeu para vigorar de fato.
*Com supervisão de Bruna Lima.
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