Brasília Mulheres podem protagonizar disputa eleitoral inédita pelo Senado no DF

Mulheres podem protagonizar disputa eleitoral inédita pelo Senado no DF

Se alguma das pré-candidatas se eleger e Leila Barros seguir na Casa, DF terá pela primeira vez bancada de maioria feminina

  • Brasília | Jéssica Moura, do R7, em Brasília

Bancada feminina no Senado

Bancada feminina no Senado

Marcos Oliveira/Agência Senado

Pela primeira vez, quatro mulheres se lançaram como pré-candidatas a uma cadeira no Senado pelo Distrito Federal. No páreo estão a ex-ministra Damares Alves (Republicanos), a deputada federal Flávia Arruda (PL), a colega de bancada Paula Belmonte (Cidadania) e a ex-diretora do Sindicato dos Professores Rosilene Corrêa (PT).

Agora, se uma delas for eleita e Leila seguir no Senado — ela aspira sair candidata ao governo local —, o DF poderá alcançar outro feito inédito: ter maioria de mulheres na bancada.

Hoje, os três senadores do DF são Izalci Lucas (PSDB),  Antônio Reguffe (Podemos) e Leila. Neste ano, o Senado renova um terço (27) das cadeiras. Izalci e Leila ainda têm mais quatro anos de mandato.

"Sem representatividade feminina, qualquer estudo sobre democracia, especialmente a representativa, é estéril. A consciência crescente dessa premissa tem estimulado as mulheres a enfrentar os desafios de suas escolhas e estar mais disponíveis para ocupar seus lugares nos espaços de poder", explica a professora de direito constitucional do Ceub Christine Peter.

"Não é o fato isolado de termos duas senadoras e um senador pelo Distrito Federal que vai, como num passe de mágica, mudar a cultura patriarcal de nossa sociedade e nossas instituições. Mas, se for eleita mais uma senadora pelo DF, certamente teremos mais uma voz feminina para naturalizar a ocupação qualificada desse importante espaço político", assinalou. 

Ainda que a pauta da igualdade de gênero seja endereçada por grupos de esquerda, as legendas mais à direita é que lançaram as pré-candidatas. "Os nomes que estão vindo para a disputa são ligados ao presidente Bolsonaro, que aqui em Brasília é muito forte. Nomes ligados à direita mais conservadora acabam tendo esse protagonismo", disse a cientista política Noemi Araújo.

Cotas de gênero

Em reformas no sistema eleitoral, ações afirmativas e incentivos à participação feminina na política que levassem ao aumento da representação nas esferas de poder foram incorporadas à legislação. Em abril, o Congresso promulgou a emenda constitucional 117, que obriga os partidos políticos a gastar 30% dos recursos do Fundo Eleitoral (R$ 4,9 bilhões) e do Partidário (R$ 1,1 bilhão) com as candidatas.

A mesma proporção deverá ser observada no tempo de propaganda no rádio e na TV dedicado às mulheres. As agremiações ainda devem destinar 5% do Fundo Partidário para promover a promoção política das mulheres. No entanto, essa norma anistiou os partidos que não aplicaram os recursos para que usem o dinheiro na eleição seguinte.

"Se tínhamos essas políticas com esses avanços, e hoje temos a possibilidade desse perdão aos partidos que não cumprirem, que tipo de incentivo eles vão ter para repassar esses recursos financeiros para as mulheres?", indaga Noemi Araújo. 

Mais representatividade

Na última semana, o tema da representação feminina na política dominou o debate. Na quarta-feira (1º), a Câmara Legislativa inaugurou um painel com as 21 mulheres que exerceram mandatos como distritais em 32 anos. Enquanto isso, no Congresso Nacional, a senadora Leila Barros promoveu uma série de debates sobre o assunto.

“Para nós, mulheres, estarmos aqui dentro, para quem vê de fora é: 'Você escolheu isso'. É como se fosse um castigo, senti isso na pele”, disse a senadora no seminário Mais Mulheres na Política. “As nossas agressões, é uma luta diária. Isso aqui tem um preço, nós somos mães de família, temos filhos. O que deu força a essas mulheres a continuarem nisso? A esperança de ver dias melhores e ver mulheres ocupando esses espaços.”

Pioneiras

Apesar de primeira senadora eleita pelo DF, outras disputaram a vaga antes de Leila Barros. A primeira vez que uma mulher disputou uma cadeira na Casa pelo DF foi em 1994: Márcia Kubitschek, filha do ex-presidente JK. Ao longo de 28 anos, apenas 7,7% dos 77 candidatos a senador pelo DF foram mulheres.

Em 1986, a deputada distrital Arlete Sampaio (PT) se lançou ao Senado. “Fiz muito mais para ajudar o partido do que com qualquer perspectiva. Para me eleger, tinha que ter muito mais estrutura”, disse. 

Ela considera o fato de Leila Barros ter conseguido uma cadeira no Senado, após quase 30 anos de tentativas de mulheres, uma conquista histórica. “Cada vez que uma mulher ascende a um cargo político, está estimulando a participação de outras”, declarou.

Quando a ex-governadora Maria de Lourdes Abadia foi a escolhida pela chapa PFL-PSDB-MDB para disputar a eleição em 2010, também teve pouco apoio. "Sempre teve essa diferença de recurso, era mínimo. Pelo jeito, só vai quem já tem algum cacife ou já é de família política”, lembra.

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