O CEP do risco: por que adaptação climática é a nova fronteira da desigualdade social?
Moradias em encostas e regiões com baixo gerenciamento de escoamento têm ficado mais vulneráveis às crescentes enchentes
Brasília|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília
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Apenas em 2025, os desastres climáticos afetaram mais de 336 mil pessoas, segundo dados do Atlas de Desastres, base nacional consolidada pelo MIDR (Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional). A quantidade mantém uma tragédia histórica: de 1991 a 2024, as chuvas mataram 4.079 brasileiros e deixaram 10,5 milhões desalojados.
Cidades como São Bernardo do Campo (SP) e Juiz de Fora (MG) vivem o medo diante das respostas da natureza. No município mineiro, localizado na Zona da Mata, mais de 60 pessoas morreram após o início das fortes chuvas que assolam a região desde o fim de fevereiro. Nesses casos, o prejuízo não é só humano, mas também econômico, e chegou a R$ 122,99 bilhões nas últimas décadas.
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O engenheiro civil William Hungria comenta que os desastres dos últimos anos mostram que vivemos um “gargalo duplo”: galerias antigas e subdimensionadas para o volume atual de chuvas somadas à falta de manutenção e ao lixo que bloqueia o escoamento.
Para Hungria, a solução exige uma mudança de paradigma. Em vez de apenas “escoar” a água, as cidades precisam “respirar” por meio de infraestrutura verde. “Jardins de chuva e pavimentos permeáveis reduzem o escoamento na origem”, sugere o engenheiro, além de mencionar materiais inovadores como o asfalto-borracha e o concreto de alta refletância, para combater o calor acumulado nas vias.
Viver no risco é escolha?
Apesar das possibilidades, o planejamento parece esbarrar na estrutura social das cidades. A vulnerabilidade não é apenas uma questão de topografia, mas de exclusão.
“Periferias ocupam áreas ambientalmente frágeis porque o mercado formal não oferece alternativa às encostas e acabam por ser a única opção habitacional para essas pessoas. Ninguém mora em lugares de risco porque quer”, defende a arquiteta Carla Tames, conselheira do CAU-BR (Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil).
Ela também alerta que investir nessas áreas não é um gasto social, mas pragmatismo econômico. Ao focar em urbanização integrada e habitação social em locais seguros, o Estado economiza no longo prazo. “É muito mais barato prevenir do que reconstruir a cada desastre”, pondera a arquiteta.
Tames atua na Comissão de Políticas Urbanas do conselho e explica que soluções rentáveis passam por três eixos: urbanização de assentamentos com infraestrutura integrada; habitação de interesse social em áreas seguras e bem localizadas; e planejamento preventivo.
“Enquanto tratarmos enchente como surpresa e periferia como exceção, continuaremos a reconstruir o que sabíamos que iria ruir”, alerta. “A adaptação climática deixou de ser uma pauta ambiental e passou a ser pauta estrutural das cidades. Infraestrutura, habitação e drenagem precisam ser pensadas sob a lógica do risco permanente”, completa.
Medidas governamentais
Diante desse cenário, o governo federal tenta descentralizar recursos. O MMA (Ministério do Meio Ambiente) tem usado o Fundo Clima para priorizar o desenvolvimento urbano resiliente, com apoio a 581 municípios pelo programa AdaptaCidades. O foco são municípios com maior histórico de secas, deslizamentos de terra e alta concentração de beneficiários do Bolsa Família, de modo a conectar dados climáticos aos sociais.
“O governo do Brasil inclui no programa o apoio por meio de capacitação técnica para o planejamento em adaptação à mudança do clima; dados sobre o risco municipal — ou regional; orientações metodológicas; treinamentos para a construção de planos municipais de adaptação; preparação para acesso a investimentos e financiamentos a ações de adaptação”, informou o MMA.
Na outra ponta, o Ministério das Cidades tenta mudar a lógica da remoção forçada. Com R$ 4,7 bilhões destinados a estratégias de SBN (Soluções Baseadas na Natureza), o foco agora é a contenção e a melhoria habitacional no próprio local, sempre que possível. Até o Minha Casa, Minha Vida entrou na rota da adaptação: novas moradias agora exigem materiais de baixa absorção solar e arborização, garantindo que o direito à moradia inclua, também, o direito ao conforto térmico e à segurança climática.
“As intervenções envolvem proteção, contenção e estabilização do solo, drenagem, recuperação ambiental, aplicação de soluções baseadas na natureza, melhorias habitacionais e produção de novas moradias para remoção das famílias, apenas na impossibilidade de adequação do local”, aponta o órgão, que também tem efetuado obras de contenção de encostas em 154 municípios.
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