Pressão dos EUA sobre a América Latina deixa o Brasil em limbo diplomático
Conselho da Paz, avanço chinês e crise na Venezuela colocam o governo brasileiro diante de escolhas delicadas na política externa
Brasília|Débora Sobreira, do R7, em Brasília* e Joice Gonçalves, do R7, em BrasíliaOpens in new window
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A criação de um novo Conselho da Paz pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para tratar de conflitos internacionais já atraiu a adesão de alguns países, mas mantém o Brasil sem posição definida. Especialistas avaliam que a iniciativa, ainda sem caráter institucional, soma-se a outras sinalizações de Washington que ampliam a pressão sobre a América Latina e colocam o governo brasileiro em uma sinuca de bico diplomática.
O movimento ocorre em meio a uma mudança de foco da política externa americana. Documentos recentes da estratégia de Segurança Nacional dos EUA indicam prioridade ao hemisfério ocidental, em um contexto de disputa global com a China. Para analistas, essa diretriz resgata a lógica histórica de influência regional, agora apelidada de “Corolário Trump”.
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Pressões sem intervenção direta
Segundo o cientista político Gabriel Izídio, o Brasil não enfrenta risco de intervenção militar clássica, mas está sujeito a outros tipos de pressão. “O foco hoje não é ocupação ou invasão, mas pressões econômicas, políticas e narrativas”, ressalta. Ele destaca que o fato de o Brasil ser a maior economia da América Latina e ator relevante no setor energético amplia a visibilidade do país em Washington.
O historiador Tássio Franchi, professor da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército, avalia que os Estados Unidos passaram a adotar estratégias de guerra híbrida, que combinam instrumentos jurídicos, econômicos, informacionais e cibernéticos.
“Há um processo contínuo de erosão das instituições multilaterais e de substituição da diplomacia tradicional por mecanismos informais de pressão”, observa.
Desgaste do multilateralismo
Especialistas apontam que o Conselho da Paz proposto por Trump se insere nesse contexto de esvaziamento de organismos como a Organização das Nações Unidas.
A avaliação é que, enquanto não houver institucionalização clara, o Brasil tende a evitar a adesão formal, embora gestos políticos não estejam descartados em prol da participação nas discussões, sobretudo após a aproximação de países como a Argentina.
China no centro da disputa
O avanço da China na América Latina também pesa na equação. Para Franchi, Pequim atua com planejamento de longo prazo e foco econômico, criando dependências estruturais sem envolvimento direto em conflitos. “O Brasil não rompe com o sistema baseado no dólar, mas atua nas margens, o que já gera reações”, avalia Gabriel Izídio.
Venezuela e efeitos regionais
A crise na Venezuela é outro fator de atenção. Analistas observam que os EUA buscam pressionar por alinhamento estratégico, especialmente por interesses energéticos e minerais, sem promover uma ruptura abrupta do regime. O Brasil mantém distância política, não reconheceu o resultado das eleições venezuelanas e limita sua atuação à ajuda humanitária, por meio da Operação Acolhida.
Impactos no cenário interno
Para a cientista política Isabela Rocha, o contexto internacional pode influenciar o debate político no Brasil, sobretudo via lobby e pressões no Congresso, mas não determina sozinho o cenário eleitoral. “O ambiente global é maior do que a eleição presidencial. O impacto tende a ser mais estrutural do que imediato”, constata.
Ela afirma ainda que uma postura excessivamente discreta pode não blindar o país. “Independentemente do que o Brasil faça, a pressão americana tende a continuar. A discussão é como se posicionar sem ampliar riscos”, analisa.
Entre cautela e posicionamento
Diante desse cenário, o governo Lula tem intensificado contatos diplomáticos com líderes internacionais, buscando preservar a autonomia sem provocar rupturas. Para os especialistas, a estratégia segue sendo o pragmatismo: manter diálogo, evitar movimentos bruscos e equilibrar interesses econômicos e políticos em um ambiente de disputa crescente.
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