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‘Red pill’ e ‘machosfera’: a ameaça cibernética que afeta a juventude brasileira

Grupos de misoginia instrumentalizada moldam a conduta de jovens e desafiam a mediação de pais e responsáveis

Brasília|Débora Sobreira, do R7, em Brasília*

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LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA

  • Grupos online com foco em misoginia recrutam jovens, explorando sentimentos de insegurança e solidão.
  • Termos como "red pill" e "incel" refletem a ideologia de superioridade masculina e o ressentimento contra mulheres.
  • Especialistas recomendam que pais e responsáveis promovam diálogos e educação digital para prevenir a adesão a essas narrativas.
  • Sinais de envolvimento com esses grupos incluem isolamento social, ausência de vínculos afetivos e frustrações relacionadas a rejeições afetivas.

Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Vulnerabilidade emocional amplia riscos on-line para crianças e adolescentes Bruno Peres/Agência Brasil - Arquivo

A escalada de discursos de ódio contra mulheres em grupos online deu visibilidade a termos que vêm se expandindo para além do mundo virtual. “Incel”, “Red pill” e “machosfera” são formas diferentes de descrever o mesmo fenômeno: um movimento ideológico de superioridade de gênero que utiliza garotos jovens como soldados.

Longe de uma fiscalização abusiva, especialistas ouvidas pelo R7 apontam para o papel fundamental de pais e responsáveis por meninos na proteção de garotas frente a essa ameaça.


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‘Red pills’ e ‘machosfera’

As raízes desses coletivos remontam a um mesmo ponto: um grupo dos EUA formado por homens brancos de classe média e alta nos anos 70, conhecido como MRA (Men’s Rights Activists), cuja proposta era questionar políticas públicas voltadas para minorias raciais, sexuais e de gênero.

A professora da Faculdade de Comunicação da UnB (Universidade de Brasília) Kátia Belisário acrescenta que, com a internet, tais grupos ganharam força, impulsionados especialmente pelo anonimato. É nesse contexto que surgem os Red pills, termo inspirado na franquia “Matrix”.


No filme, o personagem Morpheus oferece ao herói, Neo, duas pílulas: uma azul, que mantém a vida em uma ilusão de normalidade; e outra vermelha, que revela o mundo como ele é.

“Assim, a pílula vermelha é para a comunidade masculinista uma forma de ver o mundo sem o filtro “feminista”, “esquerdista” e daquilo que denominam “ ideologia de gênero”, explica a professora.


Incel — termo popularizado em grande medida pela série britânica “Adolescência”, da Netflix — significa, em português, “celibato involuntário”. O apelido refere-se a homens que se sentem preteridos e frustrados pela ausência de relacionamentos afetivos com mulheres, muitas vezes recorrendo à violência como válvula de escape.

Esses perfis integram uma rede maior, popularmente chamada de machosfera: grupos e páginas que propagam a superioridade masculina e o antifeminismo.


Cooptação online

Os perfis mais visados por “recrutadores” da machosfera, segundo Kátia Belisário, são principalmente adolescentes inseguros, alvos de bullying ou com forte ressentimento por mulheres.

“Os principais sinais de um possível envolvimento com grupos misóginos são: intensamente conectados à rede; ausência de vínculos afetivos; isolamento social; silêncio e introspecção; necessidade de pertencimento e identidade; ressentimento com meninas e mulheres”, lista.

A psicóloga Silvia Oliveira conta que a busca por novos membros é feita de forma gradual, tanto por perfis menores quanto por influenciadores do meio.

“Essa aproximação raramente começa com conteúdo explicitamente de ódio. Muitas vezes, ela começa com vídeos ou posts que parecem oferecer conselhos sobre autoestima, academia, dinheiro, relacionamentos ou “sucesso masculino”, explica.

Os conteúdos radicais criam o que Silvia Oliveira chama de “trilha de radicalização gradual”: aos poucos e de forma constante, homens jovens passam a receber conteúdos cada vez mais misóginos em seus perfis online.

“Esses conteúdos se espalham porque usam linguagem simples, promessas de pertencimento e respostas fáceis para frustrações comuns entre jovens, como rejeição afetiva, insegurança ou solidão. Influenciadores desse universo muitas vezes transformam essas frustrações em narrativas que culpam mulheres ou o feminismo”, observa.

Rastros de um Incel

É possível que os responsáveis reconheçam, ainda no início, a adesão do jovem ao movimento Red pill. Para agir precocemente, a psicóloga Silvia Oliveira recomenda atenção redobrada aos seguintes sinais:

  • Repetição de termos e ideias comuns a grupos de ódio;
  • A ideia de que homens são “vítimas do feminismo”;
  • Comentários frequentes de depreciação contra mulheres;
  • Desprezo pela igualdade de gênero e a lógica do “nós contra elas”.

Outro passo essencial é monitorar os perfis seguidos pelo adolescente nas redes sociais. Isso porque, além de perfis anônimos, figuras públicas utilizam nome e influência para difundir tais ideais.

Um levantamento realizado pelo NetLab (Laboratório de Estudos de Internet e Redes Sociais) da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) mostrou que há pelo menos 123 canais brasileiros de orientação Red pill em atividade. Juntos, eles somam mais de 23 milhões de inscritos.

Como os responsáveis podem agir

“O caminho mais eficaz não é apenas proibir ou vigiar, mas investir em diálogo e educação digital. É importante conversar sobre o que o adolescente consome na internet, discutir como influenciadores monetizam polêmicas e ensinar a identificar manipulação ou generalizações sobre mulheres”, orienta Silvia Oliveira.

Dentre as recomendações da psicóloga, estão:

  • Acompanhar as plataformas mais acessadas;
  • Orientar sobre segurança e privacidade on-line;
  • Incentivar referências positivas de masculinidade baseadas em empatia, respeito e cooperação.

Além disso, é essencial o acolhimento das inseguranças e frustrações que o jovem pode apresentar. “Muitos meninos que se aproximam desses conteúdos estão lidando com solidão, baixa autoestima ou sensação de rejeição”, salienta.

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