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“As pessoas só saem para pedir Justiça quando a tragédia lhes bate à porta”, diz fundadora de ONG

Para Sandra, a polícia, assim como a justiça, só fica em cima dos casos de repercussão

Cidades|Vanessa Beltrão, do R7

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"Justiça seria o assassino cumprir o tempo integral da pena, sem atenuantes", diz Sandra Domingues
"Justiça seria o assassino cumprir o tempo integral da pena, sem atenuantes", diz Sandra Domingues

Apesar de nunca ter sentido na própria pele a dor trazida pela violência, Sandra Domingues tomou para si o sofrimento de outras pessoas e decidiu fundar a ONG Justiça É o que se Busca. O grupo acompanha atualmente cerca de 400 casos no País, que incluem vítimas de crimes, acidentes de trânsito, erro médico ou de desaparecimento.

A atuação da ONG se dá nas redes sociais, nas ruas ou até mesmo dentro de salas de júri, no sentido de evitar que os culpados passem impunes por seus erros.

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Em entrevista concedida à equipe do especial Invisíveis, Sandra comenta sobre os aspectos em torno dessa jornada: investigação, impunidade e justiça.

R7: O que é justiça para você?

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Sandra: Que o algoz pague pelo crime cometido. Não se trata de vingança, como muitos dizem ser, principalmente o pessoal dos direitos humanos. Justiça seria o assassino cumprir o tempo integral da pena, sem atenuantes, visto que a pena máxima permitida no Brasil é somente de 30 anos. Então o justo seria que se condenado cumprisse a sentença em sua totalidade e não como é hoje. 

R7: O que é o grupo Justiça é o que se busca? O que motivou a criação?

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Sandra: Um grupo formado por familiares de vítimas da violência e ativistas que lutam por justiça. A minha motivação para a criação do grupo se deu a partir de 2008, quando conheci o caso da menina Madeleine Beth MacCann, que desapareceu em Portugal em 2007. Logo depois aconteceu o assassinato brutal da Isabella Nardoni. Passei a acompanhar o caso, organizar e participar de manifestações para que a justiça fosse feita. Hoje, o grupo acompanha cerca de 400 casos de vítimas, sejam elas de violência, trânsito, erros médicos ou desaparecidas.

R7: Quais conquistas você destacaria desde a criação do grupo? 

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Sandra: Nesses seis anos de luta, conseguimos graças à pressão com manifestações, reverter vários casos. Um deles estava impune há 25 anos, como foi o caso Anastácio Cassaro, do Espírito Santo. O caso do pequeno Pedrinho que havia sido julgado como maus-tratos e os algozes condenados a sete anos em regime semiaberto. Depois de cinco anos de luta, apesar dos algozes [mãe e padrasto] ainda estarem recorrendo e não terem sido presos, foram julgados por tortura e condenados a dez anos em regime fechado. Entre tantos outros.

R7: Muitas famílias assumem um papel que deveria ser da polícia e vão ao local investigar por conta própria os fatos. O que você pensa sobre essa realidade?

Sandra: Penso que isso aconteça pelo fato de a impunidade não ser um assunto que preocupa a sociedade. Infelizmente, as pessoas pensam que a dor só bate na porta do vizinho e somente quando a tragédia lhes bate à porta é que saem para pedir justiça, cobram da polícia um trabalho eficaz e lutam por mudanças no Código Penal, por leis mais severas.

R7: Qual a sua opinião sobre a investigação policial?

Sandra: A polícia, assim como a justiça, só fica em cima dos casos que são de repercussão, enquanto o sangue ainda está quente no chão e é notícia. Se a família e a sociedade não cobrarem, viram apenas mais um na estatística da violência.

R7:Você concorda com a maneira de se fazer júri no Brasil? 

Sandra: Não tenho nada contra o Tribunal do Júri, já assistimos vários julgamentos e acredito na instituição. É uma oportunidade de se provar a inocência, caso de fato a pessoa seja inocente. O que não concordo é com a dosimetria da pena, pois os jurados, diante das provas e convencidos da culpa do réu, condenam, mas cabe ao juiz calcular a pena e essa nem sempre vem ao encontro daquilo que a família e a sociedade esperavam. 

R7: O que ainda precisa ser feito para criar a sensação de Justiça no Brasil?

Sandra: Nem tudo que é legal é moral. Portanto, ainda que sejam direitos dos criminosos os diversos benefícios que lhes são concedidos, os atenuantes, as brechas da lei, que acabam sempre diminuindo o tempo de pena, eles causam na família da vítima e na sociedade a sensação de injustiça, pois tanto a vítima como a família da vítima não tiveram uma segunda chance. Nosso Código Penal parece que é feito somente para beneficiar quem comete o crime, a impunidade é gritante e um estímulo à criminalidade.

Confira o especial que traça um raio x da impunidade no Brasil: Invisíveis

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