Cidades Boate Kiss: vítimas ressuscitam em livro polêmico escrito por padre

Boate Kiss: vítimas ressuscitam em livro polêmico escrito por padre

Associação dos Familiares das Vítimas quer que obra seja retirada das livrarias 

Boate Kiss: vítimas ressuscitam em livro polêmico escrito por padre

Incêndio na Boate Kiss matou 241 pessoas

Incêndio na Boate Kiss matou 241 pessoas

Adriana Sousa Nery/Estadão Conteúdo

Após mais de dois meses do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria (RS), que matou 241 pessoas, o padre Lauro Trevisan lança um livro polêmico que aborda a tragédia, considerada uma das maiores no Brasil. Em um dos trechos mais discutidos da obra Kiss, uma Porta para o Céu as vítimas são levadas para o céu por anjos e depois participam de uma “balada celestial” em que Deus pergunta se alguém queria voltar. No livro, dois ou três respondem que sim e são encontrados vivos no caminhão frigorífico que realizava o transporte dos corpos.  

O autor afirma que se trata de uma figura de linguagem, “uma alegoria”.   

— Isso foi interpretado como se fosse uma verdade, uma situação ofensiva. Não tem nada a ver.Eu queria colocar o fenômeno quase morte até porque não falei com deus, com os anjos. É muito claro, fácil de entender que se tratou de uma alegoria.  

A situação desagradou os parentes das vítimas da tragédia que classificaram a publicação como uma “ofensa”. O presidente da Associação de Famílias de Vítimas de Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria, Adherbal Ferreira, entrou com uma ação extrajudicial para que o livro fosse retirado das livrarias. A obra que custa R$ 20 já vendeu 2.000 exemplares em todo o Brasil.  

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 De acordo com Ferreira, o livro alimentou uma expectativa.  

— As mães ligaram para mim chorando porque eu também posso achar que a minha filha estava entre os mortos [que teriam voltado à vida no frigorífico] e não fizeram nada...  Nos ofendeu em vários momentos e estou bem chateado e queria tirar o livro de circulação.    

Ferreira também fez um apelo:  

— Boicotem esse livro, não comprem. É um absurdo.    

O autor Lauro Trevisan é um padre com 78 livros já lançados que, segundo ele, abordam “o poder da mente”.  O escritor diz que Kiss, uma Porta para o Céu é um livro de psicologia espiritual.  Ele se defende das acusações e diz que a publicação é “uma história com personagens e acontecimentos simbólicos que não são verdadeiros”. 

— O livro compreende três aspectos: levar o consolo, o conforto às pessoas que sofreram com a tragédia e reanimar a cidade de Santa Maria que está bastante traumatizada.  O terceiro ponto é ser uma lição para humanidade, para o mundo porque essa tragédia não pode ficar no esquecimento, mas deve ajudar a ter uma lição para criar um mundo mais humano, solidário e amoroso.  

Uma outra parte do livro em que Trevisan fala que “esses heróis que morreram se dedicando a salvar aqueles que agonizaram a fumaça funérea” também foi bastante criticada pela associação.

Para Ferreira, o texto provocou confusão na cabeça das pessoas.  

— Nós imaginávamos que nossos filhos tinham morrido em segundos, se eles agonizaram, estavam sofrendo. Causou uma comoção geral no nosso sentimento, no nosso coração e fez uma esculhambação geral na cabeça das pessoas.  

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Propaganda e circulação

Apesar da ação extrajudicial da associação pedindo a retirada do livro das bancas, a obra continua sendo vendido em todo o Brasil e com propaganda na televisão.   

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Sobre a medida tomada pelos familiares das vítimas, Trevisan informou que não recebeu nenhum pedido, mas garantiu que os trechos polêmicos serão retirados da segunda e terceira edições do livro que serão distribuídas nesta quarta-feira (10) em todo o Brasil com a tiragem de mais 4.000 exemplares.   

— Para evitar qualquer dificuldade de entendimento, eu tirei esses textos porque a minha intenção é ajudar.

Sobre a possibilidade da retirada de circulação, ele afirma que “tirar um livro que está fazendo bem para humanidade é um absurdo”.   

As justificativas, porém, não convenceram os familiares das vítimas.  

— Não foi adequado ao povo, foi adequado ao bolso dele. Ele tem que pegar esse dinheiro e dar para uma instituição de caridade. É muita gente querendo se aproveitar.     

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