Boate Kiss

Cidades 'Cena de horror', diz sócio da boate sobre a saída das vítimas da Kiss

'Cena de horror', diz sócio da boate sobre a saída das vítimas da Kiss

Segundo réu a ser interrogado no Tribunal do Júri do caso, Mauro Hoffmann era um dos sócios da boate em 2013

  • Cidades | Fabiola Perez, do R7, em Porto Alegre (RS)

Mauro Hoffmann e o advogado Bruno Seligman de Menezes

Mauro Hoffmann e o advogado Bruno Seligman de Menezes

Fabíola Perez/R7

Segundo réu a ser interrogado no Tribunal do Júri do caso da boate Kiss, Mauro Hoffmann disse, na manhã dessa quinta-feira (9), que a tentativa de saída das vítimas da boate era uma "cena de horror". "Era uma situação caótica, a dor de olhar as pessoas saindo com os olhos brancos, queimados. "Cena de horror, mas por muito tempo as pessoas saíam vivas de lá. Muito pouco tempo depois, coisa de cinco minutos, que fomos tomar um pouco da proporção."

Antes dele, foram interrogados Luciano Bonilha, produtor da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentou no dia do incêndio, e Elissandro Spohr, outro sócio da boate.

“Me deitei, estava muito tenso, trabalhava 20 horas por dia. Não tinha dormido ainda. Tocou o telefone. Era o Elissandro. Ele me disse 'tá pegando fogo'. Fui correndo avisar minha mulher. Peguei meu carro e não sei como cheguei tão rápido. Eu moro bem longe. Tinha um militar trancando a rua, me identifiquei como dono da boate, estacionei e fui correndo lá. Nisso estava descendo o carro [do Corpo] de Bombeiros. Pensei: 'Agora vai resolver'. A situação era terrível, era muita fumaça saindo. As pessoas trancaram muito nos táxis, é uma sucessão de pequenas coisas. O que mais atrapalhou foi os táxis, era um amontoado de gente em cima dos táxis. Quem estava lá atrás não conseguia chegar. Bloqueou no hall. A luz nunca caiu. Tinha todas as luzes de emergência."

Hoffmann disse que, após o incêndio, pensou em fugir com a família. "Minha vida acabou. Fui ameaçado de morte. Mesmo que eu tivesse condições, não seria ouvido por ninguém. Aqui só temos perdedor, os grandes perdedores são as famílias, mas aqui ninguém ganha nada por isso. Nem para os jurados, que têm que decidir a vida de quatro pessoas engolidas por um sistema."

Ao final do interrogatório, o réu disse que quer "reconstruir a vida" e se desculpou com as vítimas. "Preciso recomeçar minha vida. Minha dor é muito forte, tive que ser muito forte para a minha dor não afetar minha família. Tomo muito remédio, remédio psiquiátrico, para a dor. Tive que fugir com a minha família."

Hoffman afirmou ainda que nos últimos nove anos teve que mudar a rotina pelo medo de sofrer represálias. "Nunca fui ao mercado. Agora, depois de muitos anos, eu vou e pego alguma coisa. Quero pedir perdão, principalmente, para os pais, mas para a sociedade de Santa Maria."

O réu também lembrou momentos em que passou na prisão. "O Luciano parecia um zumbi. Eu ainda tinha minha família, recebia visita. Minha mãe, com quase 90 anos, ter que entrar na fila todos os dias. As pessoas dizendo ‘olha a mãe do assassino’. Hoje eu preciso recomeçar a minha vida", disse.

De empresário da noite a sócio da Kiss

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O réu contou ao juiz Orlando Faccini Neto que se formou em administração de empresas, aos 21 anos. "Comecei a trabalhar e seguir minha vida e fui atrás da minha carreira. Sou filho de Santa Maria, onde eu investia. Ainda com 21 fui morar em São Paulo, tive oportunidade de trabalhar em uma grande empresa. Me formei em 1987. Procurei aprender bastante coisa, conhecendo lugares, principalmente em empresas."

Hoffmann afirma que começou a atuar como empresário da noite. "Sinto que faltava alguma coisa nessa área de gastronomia, restaurante. Aconteceu de, junto com um amigo, colocarmos um bar em Santa Maria. Depois, tive outros tipos de negócio, fui bem em alguns e mal em outros." Ele disse que, em 1999, voltou ao ramo de casas noturnas, com a abertura da Absinto. "Foi uma grande oportunidade porque era dentro de um shopping, tinha estacionamento. Sempre tive um espírito empreendedor."

Segundo ele, a Absinto foi a primeira boate do sul do país a funcionar dentro de um shopping. "Foi muito bem a casa." Hoffmann disse que ela chegava a faturar R$ 50 mil por mês. Disse também que a banda Gurizada Fandangueira usou artefatos pirotécnicos em uma apresentação na Absinto. "Eu não vi, mas soube que usaram", afirmou. "Eu acho perigoso de qualquer maneira porque pode assustar as pessoas. Não era permitido usar fogos, nem hinos de Grêmio, nem Flamengo. Tentávamos evitar situações com corre-corre."

Hoffmann conta que o interesse em ingressar na Kiss surgiu quando Elissandro tocava com ele na Absinto. "Ele me pedia para tocar mais, eu tinha costume de conversar no camarim. Ele falava 'pega um aparte da Kiss'. Ele tinha feito uma grande reforma lá, a reforma do pub", lembra.

"Nunca antes a Kiss teve noites boas, o Kiko começa a proibir a entrada de adolescentes, tinha um estacionamento grande na frente. A boate era mais bem distribuída." Ao mesmo tempo, Hoffmann disse que passou a ter problemas com a administração do shopping onde estava localizada a Absinto.

"Eu apostava muito em Santa Maria, morava em Santa Maria", disse ao falar sobre o terreno que comprou para construir um condomínio de entretenimento. Com os problemas enfrentados no shopping, Hoffmann optou pela sociedade com Elissandro Spohr. "Eu sempre passava na frente da Kiss, todo dono de boate faz isso." O réu explicou ao juiz que aceitou a sociedade na Kiss e que Spohr seria o sócio-administrador.

Sociedade na Kiss

Hoffmann explicou que começou a participar do setor contábil da boate Kiss no dia 1º de setembro de 2011. "Eu não fiz o negócio pela parte financeira, fiz por uma questão se segurança, eu estava fazendo meu projeto paralelo”, afirmou. Quando ficou sabendo da ida de Spohr à promotoria de Santa Maria para fazer o acordo do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para sanar o problema acústico, disse que pensou em deixar a sociedade. Kiko teria dito, segundo Hoffmann, que se ele não conseguisse resolver o problema devolveria uma parte do dinheiro. "Até dia 22 de novembro, quando ele assina o TAC e diz que vai fechar a parede", diz.

Em dezembro de 2011, o réu disse que entrou oficialmente na boate. No entanto, mesmo após a obra, o problema acústico persistiu. "A mudança com a obra não é significativa, é pelo tamanho da obra, pelo tamanho da parede, mas fisicamente não demonstra ser uma obra grande. Muda o lugar do problema acústico. O barulho muda para o fundo e ela aciona o Ministério Público. O Kiko começa a ir atrás do Pedroso", afirma.

Questionado pelo juiz sobre a existência de espuma inflamável na outra casa que administrava, o réu disse que na Absinto não havia o material porque ele não chegou a ter problemas com barulho. "Nunca tive problema de barulho, ela ficava no subsolo. Eu só ia à Kiss nos dias que eu não trabalhava na Absinto. Eu ia às quintas-feiras. A gente tinha uma vez por mês, eu ia na boate em reunião e a gente decidia coisas importante, quanto cada um ia tirar, onde íamos investir. Era como se fosse um conselho fiscal. O Kiko e a Angela decidiam coisas importantes. Não fiz parte dos trabalhos administrativos. Eu não tinha chave da boate. Todo e qualquer fato administrativo eu não fazia parte."

Defesa

O advogado de defesa de Mauro Hoffman Mauro Cipriani perguntou ao réu como era a sociedade com Elissandro Spohr. Ele disse que não se sentia "dono" da boate Kiss. "Minha vida era a Absinto", diz. "Minha experiência não foi suficiente para enxergar tudo o que está no processo, que as portas estavam erradas." Ele disse também que era informado sobre as apresentações musicais quando eram apresentações nacionais. "O Kiko me escondia porque eu trabalhava na Absinto, não deixava de ser uma concorrência."

O réu disse que parte de seu patrimônio foi bloqueada. "Hoje, vivo em função disso, de me defender. Passado o júri, sei que a associação tem planos de fazer um memorial, deveríamos continuar... A Kiss nunca vai sair de Santa Maria", disse. "Tinha muita vontade de falar com os pais, no meu terreno, estou abrindo mão para plantar 242 ipês-brancos lá. Aqui nós só temos perdedores. As famílias deviam pensar nisso, eles eram jovens, alegres, ninguém foi lá para morrer. Era a fase boa da vida das pessoas. Vamos tentar minimizar isso pela cidade."

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