Boate Kiss

Cidades Familiares se emocionam após condenação de réus do caso Kiss

Familiares se emocionam após condenação de réus do caso Kiss

'Nunca tivemos nada a comemorar, quem ganha é a justiça', disse Flávio da Silva, presidente da Associação de Familiares de Vítimas 

  • Cidades | Fabíola Perez, do R7, em Porto Alegre (RS)

O juiz Orlando Faccini Neto não havia terminado de ler a sentença dos quatro réus condenados, nesta sexta-feira (10), por homicídio doloso de 242 pessoas na boate Kiss quando os familiares das vítimas fizeram um círculo e se deram as mãos em silêncio. “Foi uma demonstração de união. Por todo esse tempo, acreditamos que nossos filhos seriam justiçados. Nunca tivemos nada a comemorar, quem ganha é a justiça”, disse Flávio da Silva, presidente da Associação de Familiares de Vítimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria.

Familiares comemoram decisão sobre condenação dos réus do caso Kiss

Familiares comemoram decisão sobre condenação dos réus do caso Kiss

RENAN MATTOS/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO 10.12.2021

O presidente da associação, que é pai da jovem Andrielle da Silva, morta no dia da tragédia enquanto celebrava seu aniversário de 22 anos, disse que não há o que comemorar. “A sociedade não tem nada a comemorar. Queríamos demonstrar que somos guerreiros e unidos, mas não vamos comemorar a condenação desses réus. A justiça foi feita para nós, e isso valeu a pena”, disse.

“Estou me sentindo aliviado e que a nossa luta valeu a pena, mas a gente não tem nada a comemorar a não ser a conquista da justiça. Essa punição que aconteceu hoje com essa sentença do júri daqui para a frente deve servir como exemplo para alguns empresários que querem abrir empreendimentos noturnos sem dar o mínimo de segurança aos frequentadores. É esse o nosso objetivo, que essas pessoas se sintam receosas de abrir essas casas noturnas sem o mínimo de segurança. Nossa luta não termina aqui.”

Os familiares esperaram o fim da leitura da sentença pelo juiz e bateram palmas. Nesse momento, algumas pessoas começaram a gritar o nome dos filhos: “Ruan, Lucas, Andrielle, Augusto” foram alguns dos nomes de vítimas ouvidos.

Elizete Nunes Andreatta, 58 anos, mãe de Ariel, que morreu com 18 anos, foi uma das primeiras a se manifestar. “Eles estavam mentindo, e nós não temos nossos filhos para abraçar. É a justiça que nós queremos. Não quero que, daqui 20 anos, os meus sobrinhos e a minha família passem pelo que nós passamos. Achei que não ia conseguir chegar aqui hoje, depois desses nove dias de júri.”

A dona de casa Maria Aparecida Neves, de 63 anos, disse que o julgamento deve servir de exemplo para outros empresários que administram casas noturnas. “Isso que aconteceu pode acontecer até com os filhos deles. Não quero que isso aconteça em lugar nenhum, tem que servir de exemplo, a sociedade tem que tomar consciência. Se tivessem feito a coisa certa, nada disso teria acontecido”, afirmou.

Sentença

Passados quase nove anos do incêndio que deixou 242 mortos na boate Kiss, a Justiça condenou nesta sexta-feira (10) por homicídio doloso os quatro réus apontados como responsáveis pela tragédia.

O sócio da boate Elissandro Spohr foi condenado a uma pena de 22 anos e seis meses. O outro sócio, Mauro Hoffmann, foi condenado a 19 anos e seis meses. O vocalista da banda Gurizada Fandangueira, Marcelo de Jesus dos Santos, foi condenado a 18 anos, assim como o produtor de eventos que trabalhava para a banda, Luciano Bonilha.

Entre os elementos destacados pela acusação no julgamento estão a superlotação da Kiss na noite da tragédia, o emprego de uma espuma no teto para isolamento acústico que no incêndio liberou gases tóxicos, o que provocou a maioria das mortes, e o uso e o manejo irregulares pela banda Gurizada Fandangueira de artefatos pirotécnicos em ambiente fechado, entre outros pontos.

A defesa de Spohr pediu a desclassificação do crime de homicídio doloso ao júri, afirmando que houve crime de incêndio com resultado morte, o que renderia uma pena menor. Os advogados dos outros três réus pediram a absolvição de seus clientes. As teses, no entanto, não foram aceitas pelos jurados, que optaram pela condenação.

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