Boate Kiss

Cidades 'Fui caindo e me despedindo', diz vítima sobre incêndio na Kiss

'Fui caindo e me despedindo', diz vítima sobre incêndio na Kiss

Depoimento de Delvani Rosso deixou comovida boa parte da plateia de familiares e vítimas da tragédia na boate

  • Cidades | Do R7

Delvani Rosso, sobrevivente da tragédia que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos

Delvani Rosso, sobrevivente da tragédia que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos

Fabíola Perez/R7 - 05.12.2021

O segundo depoimento prestado neste domingo (5) ao Tribunal do Júri da tragédia da boate Kiss foi de Delvani Rosso, sobrevivente do incêndio que deixou 242 mortos e mais de 600 feridos. A testemunha comoveu boa parte da plateia de familiares e vítimas. “Quando eu comecei a inalar [a fumaça], meus joelhos foram ficando fracos, fui perdendo a força”, afirmou. “Quando eu fui caindo, fui me despedindo da minha família, dos meus amigos, pedindo perdão por alguma coisa que eu tivesse feito. Caí no chão e sentia queimar, e me debrucei com as mãos no rosto”, disse.

No decorrer do depoimento do sobrevivente, cerca de dez mães deixaram a plateia. O presidente da Associação de Familiares e Vítimas abaixou a cabeça e chorou. Quando o juiz Orlando Faccini Neto perguntou ao depoente se o incêndio havia deixado nele sequelas físicas ou psicológicas, Delvani ergueu parte da camiseta para mostrar as costas com marcas de queimaduras.

Familiares que permaneceram na plateia; muitos deixaram o local

Familiares que permaneceram na plateia; muitos deixaram o local

Fabíola Perez/R7 - 05.12.2021

“Meu irmão conseguiu sair e começou a entrar para salvar as pessoas. Ele tirou a camisa, estava rastejando por baixo da fumaça. Os homens ele puxava pelo cinto e as meninas pelo cabelo porque, se puxasse pelo braço, arrancaria a pele”, descreveu.

“Quando eu acordei, na calçada, meu corpo estava em estado de choque, [eu estava] urrando de dor, gritando socorro, olhando para cima, deitado. Quando me levantaram, eu senti uma dor que não tem descrição. Foram me arrastando até a ambulância.”

Fim de semana em Santa Maria

Delvani disse que morava no município Manuel Viana, no interior do Rio Grande do Sul. Ele e o irmão haviam sido convidados para passar um fim de semana em Santa Maria. No dia 27 de janeiro, ele e um grupo de sete amigos iriam para a casa noturna Absinto, mas estava fechada.

“Acabamos indo para a Kiss. Chegamos por volta da 1h15. A fila estava dobrando a esquina, ficamos esperando para entrar”, recorda. “Quando entramos na boate, lembro que já estava calor no ambiente e quando abriram a porta veio um bafo quente.”

O sobrevivente disse que, na boate, avistou um rapaz na parte dos fundos da casa noturna que, segundo ele, tentava avisar que havia fogo no espaço. “Não dei muita bola porque pensei que fosse briga. Quando esse menino gritou fogo, meu irmão e mais três não estavam no pub, eles estavam circulando. Nos demos conta de que era sério quando todo mundo se virou para a saída. Nunca pensamos que seria tão sério, a gente entrelaçou os braços e fomos caminhando muito devagar”, diz.

Segundo a vítima, no momento em que ele e os amigos tentavam encontrar a rota de saída, as pessoas começaram a ficar agitadas. “Comecei a ouvir gritos. O empurra-empurra começou a ficar mais intenso. Não conseguimos mais ficar com os braços entrelaçados, mas foi cada um por si. Percorri uns três metros”, afirmou. “Era minha segunda vez na boate, eu tinha uma noção de onde eu tinha entrado.”

Delvani afirma que as luzes se apagaram e as pessoas começaram a se empurrar. “Não sei o que aconteceu, comecei a sentir o odor da fumaça, mas sempre pensei que fosse conseguir sair. Quando deu o curto-circuito começou a ficar sem controle. Tu era empurrado para onde a massa ia. Lembro que eu segui caminhando e começou a ficar mais intensa a fumaça. Tinha muita gente na minha frente ainda. Comecei a respirar a fumaça, não sabia se eu me abaixava ou se eu ficava em pé.”

A vítima disse também que o irmão conseguiu deixar a boate e retornou para salvar mais pessoas. “Ele tirou a camisa, estava rastejando por baixo da fumaça. Os homens ele puxava pelos cintos e as meninas pelo cabelo porque se ele puxasse pelo braço ele tirava a pele”, afirmou.

Já na calçada do lado de fora da boate Delvani disse que sentia muita dor em todo o corpo e que logo recebeu atendimento médico. “estava em estado de choque, urrando de dor, gritando socorro, olhando para cima, deitado. Quando me levantaram, ali eu senti uma dor que não tem descrição. Foram me arrastando até a ambulância.”

Ele lembra ainda que os bombeiros o colocaram na maca no lugar de uma das jovem que não resistiu ao incêndio. “Disseram: ‘essa aqui não tem mais o que fazer e me colocaram no lugar dela, até me transportarem para o hospital. Acordei no hospital, olhava para o lado parecia uma cena de guerra, as pessoas queimadas”, afirmou. “Olhava para o outro lado, sangue. Saiu a minha pele junto com a camisa.”

Delvani relatou ainda que ficou em coma por 30 dias. “Eu era um prisioneiro do meu corpo, só conseguia pensar e tentar entender o porquê de tanta dor e sofrimento. Emagreci 20 quilos, desaprendi a caminhar. Não conseguia tomar um copo de água.”

O jovem diz que quando recebeu do irmão a notícia de que dois amigos não haviam sobrevivido não conseguia reagir por conta das condições físicas no hospital. “A única coisa eu conseguia sentir eram as lágrimas que escorriam do meu rosto, queria explodir e terminar com tudo, mas nem isso eu podia.”

Maria Aparecida Neves, de 63 anos, que perdeu o filho sufocado com a fumaça, foi uma das que saíram durante o depoimento de Delvani. “Sai para não gritar porque se não a gente se descontrola o júri pode ser anulado. Mas a minha vontade era dizer ‘olha o que vocês fizeram com nossos filhos.’ Eu dou uma decaída e volto de novo”, disse ela.

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