Cidades Ipea admite erro em pesquisa e diz que 70% discordam que mulher tem culpa por estupro

Ipea admite erro em pesquisa e diz que 70% discordam que mulher tem culpa por estupro

Troca de gráficos teria levado a resultado equivocado; diretor pediu exoneração do cargo

Ipea admite erro em pesquisa e diz que 70% discordam que mulher tem culpa por estupro

Movimento Não Mereço ser Estuprada teve força nas redes sociais

Movimento Não Mereço ser Estuprada teve força nas redes sociais

Reprodução / Facebook

O Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) admitiu ter errado os dados da pesquisa sobre violência contra mulher divulgada na última semana. De acordo com o instituto, 70% das pessoas discordam total ou parcialmente da afirmação que “mulheres que mostram o corpo merecem ser atacadas”. A informação divulgada incialmente era de que a maioria dos entrevistados (65,1%) concordava com a frase.

O instituto afirmou que o erro foi causado pela troca dos gráficos relativos a quatro perguntas do levantamento. Os dados corretos indicam que 58,4% das pessoas discordam totalmente da frase; 11,6% discordam parcialmente; 3,4% se dizem netros; e 26% concordam (12,8% parcialmente e apenas 13,3% concordam totalmente).

O resultado divulgado na semana passada gerou grande polêmica, ganhando repercussão na imprensa internacional. Teve força nas redes sociais o movimento Não Mereço ser Estuprada, em que mulheres posam em fotos sem roupa ou seminuas com cartazes de protesto contra a violência sofrida por mulheres no Brasil. O diretor de Estudos e Políticas Sociais do Ipea pediu sua exoneração assim que o erro foi detectado.

A nota do Ipea sobre a falha, assinada pelos pesquisadores, faz, no entanto, uma ressalva importante: os demais resultados da pesquisa se mantêm. E eles mostram dados alarmantes como a concordância de 58,5% dos entrevistados com a ideia de que “se as mulheres soubessem como se comportar, haveria menos estupros”

Você acha que a correção da pesquisa do IPEA torna o resultado menos machista? Opine

"As conclusões gerais da pesquisa continuam válidas, ensejando o aprofundamento das reflexões e debates da sociedade sobre seus preconceitos. Pedimos desculpas novamente pelos transtornos causados e registramos nossa solidariedade a todos os que se sensibilizaram contra a violência e o preconceito e em defesa da liberdade e da segurança das mulheres", diz a nota.

Segundo erro

A outra troca de gráficos altera o resultado de duas perguntas. Na primeira delas — “O que acontece com o casal em casa não interessa aos outros” — os dados corretos indicam que 13,1% dos entrevistados discordaram totalmente da afirmação, 5,9% discordaram parcialmente, 1,9% ficou neutro (não concordou nem discordou), 31,5% concordaram parcialmente e 47,2% concordaram totalmente.

Sobre a segunda sentença — “Em briga de marido e mulher, não se mete a colher” — 11,1% discordaram totalmente, 5,3% discordaram parcialmente, 1,4% ficaram neutros, 23,5% concordaram parcialmente e 58,4% concordaram totalmente.

Metodologia em cheque

Em matéria divulgada pelo R7 nesta quinta-feira (3), especialistas afirmam que o levantamento do Ipea tem uma série de problemas na sua realização e não reflete, necessariamente, o pensamento do brasileiro médio.

Para o economista Adolfo Sachsida, que já trabalhou na realização desse tipo de estudo para o Ipea, o primeiro e mais grave dos problemas é a amostra da pesquisa. O instituto ouviu 3810 pessoas em todo o Brasil, 66,5% dessas mulheres, 15 pontos percentuais a mais do que a proporção de mulheres na população geral, de acordo com o último censo, realizado em 2010 pelo IBGE.

— Essa amostra não pode ser usada para fazer inferências para a população brasileira porque ela não tem as características da população brasileira.

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