Segurança para quem pode pagar: como o risco climático inflaciona aluguéis e expulsa moradores
Com a crise climática e em meio ao El Niño, população mais pobre é deslocada para áreas de risco
Cidades|Bruna Pauxis, do R7, em Brasília
LEIA AQUI O RESUMO DA NOTÍCIA
Produzido pela Ri7a - a Inteligência Artificial do R7

Com a frequência de eventos climáticos extremos, o risco ambiental poderá passar, nas próximas décadas, a ditar o valor do metro quadrado e, consequentemente, a decidir quem pode — e quem não pode — pagar pelo próprio conforto e segurança. O processo, chamado de gentrificação climática, tem sido estudado em grandes regiões metropolitanas do mundo e ganha destaque diante do El Niño, fenômeno relacionado a secas devastadoras e chuvas intensas ao redor do mundo.
Leia Mais
O diretor-executivo do Instituto Pólis, Henrique Frota, explica que a crise climática provoca uma “redistribuição de valores” das construções nas cidades. Ao trazer o fenômeno para o Brasil, Frota cita como exemplo a cidade de Porto Alegre, onde os aluguéis subiram em média 25% após as enchentes de 2024. Contudo, como destaca o especialista, esse movimento não foi homogêneo. Enquanto imóveis em áreas protegidas se valorizaram, regiões suscetíveis a alagamentos sofreram forte depreciação imobiliária.
“É importante avaliar que as regiões da cidade não passam pelos fenômenos da mesma forma. As áreas mais afetadas tendem, pela suscetibilidade ao risco, a sofrer depreciação de preço. Já as regiões mais protegidas — ou com melhores condições de resposta rápida — tendem a registrar alta, tanto nos aluguéis quanto no preço de compra”, afirma Frota.
Diante desse cenário de encarecimento das áreas seguras, moradias antes acessíveis para famílias de menor renda tornam-se inviáveis. Esse movimento de expulsão força as populações vulneráveis a buscarem abrigo em regiões mais baratas que, por sua vez, são justamente as mais expostas a eventos climáticos extremos e desprovidas de infraestrutura básica.
“Quando realocadas em áreas sem infraestrutura, essas populações enfrentam barreiras no acesso a creches, postos de saúde e transporte, o que impacta diretamente a renda e a empregabilidade”, aponta o diretor do Instituto Pólis, ao acrescentar que a própria mobilidade urbana, nessas situações, tende a entrar em colapso, uma vez que as periferias não foram planejadas para absorver esse fluxo repentino de novos moradores.
O papel do racismo ambiental
Para além da dinâmica puramente imobiliária, a secretária-executiva da Rede por Adaptação Antirracista, Thaynah Gutierrez, complementa o diagnóstico ao nomear esse processo de deslocamento populacional: trata-se de racismo ambiental. Segundo a especialista, o fenômeno decorre do contraste entre a concentração do conforto habitacional nas classes mais abastadas e o “empurramento” contínuo dos mais pobres para as margens das metrópoles.
“A família que foi expulsa do bairro que ‘melhorou’ vai parar exatamente onde a cidade é mais precária: sem saneamento, sem arborização e, muitas vezes, em encostas ou áreas de várzea — baratas justamente por serem arriscadas. Não se trata de uma infelicidade individual, mas de uma redistribuição do risco: quem tem menos poder de decisão sobre a cidade arca com as piores consequências da crise climática”, pondera.
Essa distribuição desigual, ressalta Gutierrez, não é obra do acaso nem uma fatalidade meteorológica, mas o resultado histórico de decisões políticas que concentram os investimentos públicos em recortes sociais e raciais específicos.
“As áreas verdes não estão espalhadas pela cidade por coincidência. Elas seguem a lógica do planejamento que define quem tem saneamento, transporte e postos de saúde por perto. São bairros centrais, valorizados e historicamente brancos que concentram os parques e a arborização. As periferias, favelas e territórios de maioria negra ficam com pouca vegetação, solo impermeabilizado e temperaturas visivelmente mais altas, o que os torna ainda mais vulneráveis aos eventos climáticos”, destaca.
Como consequência, o racismo ambiental passa a caminhar lado a lado com a gentrificação climática, defende a especialista.
“Quando o investimento chega — mesmo que seja em um local habitado por pessoas de menor renda —, o espaço acaba sendo reapropriado por outra parcela da população, que substitui os moradores originais”, conclui.
Desastres climáticos e o El Niño
Se a desigualdade urbana e o racismo ambiental definem quem fica mais vulnerável no território, o El Niño surge como outra variante decisiva no panorama da gentrificação climática, provocando altas temperaturas ao redor do país. O fenômeno, que já começou, deve perdurar, pelo menos, até o início de 2027, segundo previsão do Inmet (Instituto Brasileiro de Meteorologia).
A meteorologista Andrea Ramos explica que o El Niño acontece quando a temperatura do Oceano Pacífico é elevada, o que gera uma interação entre a água e a atmosfera, o que acarreta ondas de calor, além de chuvas e secas, dependendo da região do país.
“Podem ocorrer mais chuvas no Sul e, ao mesmo tempo, períodos mais secos e quentes em setores do Norte, Nordeste e Brasil Central”, aponta.
Segundo a meteorologista, o evento, que ocorre com intervalos entre 2 a 7 anos, aumenta a chance de desastres naturais ao redor de todo o mundo, como enchentes, incêndios florestais e furacões.
“O El Niño não significa que teremos catástrofes em todos os lugares, mas aumenta a probabilidade de eventos severos e muda o padrão de risco”, pondera.
Fique por dentro das principais notícias do dia no Brasil e no mundo. Siga o canal do R7, o portal de notícias da RECORD, no WhatsApp














