Banco Central avisa: juros altos vão durar mais tempo por causa da guerra no Oriente Médio
Na ata da reunião de março, a entidade explica a redução de 0,25 ponto percentual da taxa Selic e deixa futuro indefinido
Economia|Do R7, com Estadão Conteúdo
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O Copom (Comitê de Política Monetária) cortou a taxa básica de juros (Selic) de 15% para 14,75% ao ano na última quarta-feira (18) — a primeira redução em quase dois anos, desde maio de 2024.
A ata da reunião, divulgada nesta terça-feira (24) pelo Banco Central, explica os motivos da decisão e deixa um recado claro: o cenário internacional, especialmente a guerra no Oriente Médio, coloca o Brasil em terreno incerto e pode segurar os juros elevados por mais tempo.
Para o trabalhador e para as famílias, a Selic define o custo do dinheiro na economia: quanto mais alta, mais caros ficam o crédito, o financiamento e as dívidas. A redução de 0,25 ponto percentual é um primeiro passo, mas os juros seguem entre os mais altos do mundo.
Por que o Copom cortou os juros agora?
A decisão de iniciar o ciclo de redução da Selic partiu de uma sinalização dada pelo próprio Copom em janeiro. Na ata, o colegiado explicou ter avaliado que os eventos recentes não impediriam a materialização dessa promessa.
“Essa decisão é compatível com o cenário atual, no qual a duração e extensão dos conflitos geopolíticos, assim como sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras”, afirmou o comitê no 15º parágrafo da ata.
Entre as opções de ritmo analisadas, o Copom concluiu que a redução de 0,25 ponto percentual seria a mais adequada para este momento.
A calibração, como o Banco Central chama o processo de ajuste dos juros, manterá caráter restritivo para assegurar a convergência da inflação à meta.
O QUE É A TAXA SELIC A taxa Selic é a taxa de juros básica da economia. Quando ela sobe ou cai, todas as demais taxas do mercado seguem sua direção. Isso significa que quando ela está mais alta, fica mais caro pegar dinheiro emprestado, por exemplo. Q...
O QUE É A TAXA SELIC A taxa Selic é a taxa de juros básica da economia. Quando ela sobe ou cai, todas as demais taxas do mercado seguem sua direção. Isso significa que quando ela está mais alta, fica mais caro pegar dinheiro emprestado, por exemplo. Quando ela cai, é o contrário. As taxas de juros para pegar empréstimo também tendem a cair e fica mais fácil financiar compras. O Banco Central usa essa taxa como um instrumento para conter a inflação, que é a principal preocupação da autoridade monetária.
A guerra no Oriente Médio preocupa
O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã — e o fechamento do Estreito de Ormuz — provocou uma disparada nos preços do petróleo no mercado internacional e elevou a incerteza sobre o rumo da inflação no Brasil.
O Copom chegou a debater tornar o balanço de riscos assimétrico para cima, mas optou por não fazer mudanças.
“Após debater alterações no balanço de riscos, o comitê julgou apropriado seguir com serenidade e reunir mais informações ao longo do tempo, em função da incerteza elevada em relação à evolução de seus elementos”, disse o colegiado na ata.
O comitê reforçou que os próximos passos do ciclo de calibração da Selic poderão incorporar novas informações sobre a profundidade e a extensão dos conflitos no Oriente Médio, assim como seus efeitos diretos e indiretos sobre os preços ao longo do tempo.
Inflação acima da meta
As expectativas de inflação, segundo o Copom, vinham em trajetória de queda, mas subiram após o início dos conflitos no Oriente Médio e permanecem acima da meta em todos os horizontes.
O comitê alertou que, nesse tipo de ambiente, o custo de reduzir a inflação sobre a atividade econômica é maior.
“Em um ambiente de expectativas desancoradas, como é o caso do atual, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo do que outrora seria apropriado”, afirmou o colegiado — conclusão compartilhada por todos os membros do comitê.
Para 2026, o Copom projeta inflação de 3,9% pelo IPCA — acima do centro da meta, de 3%. Para o terceiro trimestre de 2027, o horizonte relevante da política monetária, a projeção é de 3,3%.
Nos preços livres, as estimativas são de 3,7% em 2026 e 3,3% em 2027. Nos preços administrados — como energia e combustíveis —, as projeções são de 4,3% e 3,2%, respectivamente.
Todas as projeções consideram bandeira amarela de energia elétrica em dezembro de 2026 e 2027, câmbio a R$ 5,20 com evolução pela paridade do poder de compra, e petróleo seguindo a curva futura por seis meses, com alta de 2% ao ano depois.
O que vem pela frente?
O Copom não sinalizou nem o ritmo nem o tamanho total do ciclo de cortes. A magnitude e a duração do processo serão definidas à medida que novas informações forem sendo incorporadas à análise.
“O Comitê avalia que perseverança, firmeza e serenidade na condução da política monetária favorecerão a continuidade desse movimento, importante para a convergência da inflação à meta com menor custo”, disse o colegiado no 9º parágrafo da ata.
O comitê também informou que continuará acompanhando os dados para calibrar os impactos da isenção do imposto de renda sobre as projeções de inflação — medida do governo federal com efeitos ainda em avaliação pelo Banco Central.
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